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06 de maio, 2003 - Publicado às 19h15 GMT
Gotan Project traz 'tango eletrônico' a Londres
Trio está com agenda lotada na Europa, EUA e Ásia
Trio está com agenda lotada na Europa, EUA e Ásia

Maria Luísa Cavalcanti

De um lado, violino, piano e bandoneón. De outro, pick-ups de onde saem batidas envenenadas e samples de discursos de Che Guevara e Evita.

No comando da mistura, o trio Gotan Project, formado pelos DJs franceses Phillipe Cohen Solal e Christoph Muller e pelo violonista argentino Eduardo Marakoff.

O resultado da receita está longe de ser indigesto: desde o lançamento de seu primeiro álbum, La Revancha del Tango, em 2001, o Gotan Project vem lotando as pistas e as casas de shows de toda a Europa. O grupo foi eleito pela Rádio 3 da BBC a grande revelação da world music do ano passado.

Em entrevista exclusiva à BBC Brasil, antes da apresentação do trio em Londres, Phillippe Solal disse que o surgimento do grupo foi uma revolução tanto para a música eletrônica como para o próprio tango.

Piazolla e Massive Attack

"Já faz quase 15 anos que se produz música eletrônica com o intuito de deixar as pessoas felizes. Tudo nessa cultura tem a ver com a alegria", afirmou Solal. "O que nós queríamos era trazer uma nova emoção à música eletrônica e o tango é altamente emocional, triste e sensual."

Para o músico, apenas o Massive Atack havia conseguido tornar a música eletrônica mais "melancólica".

Phillippe Solal disse ainda que o tango também se beneficiou do trabalho de Gotan Project e comparou o grupo ao músico argentino Astor Piazolla.

"Estamos continuando o trabalho revolucionário de Piazolla. O tango precisa ser renovado. Se ele for uma coisa intocável, a música morre", afirmou.

Os shows do Gotan Project contam com a performance ao vivo de músicos argentinos radicados em Paris: a cantora Cristina Vilallonga, o pianista Gustavo Beytelmann e o tocador de bandoneón Nini Flores.

Solal disse que a recepção do grupo na Argentina é muito boa.

"Temos um grande apoio da cena dance de Buenos Aires. E nos surpreendemos em ver que também conquistamos os músicos de tango", afirmou. "Muitos deles querem tocar em nosso próximo disco, o que será maravilhoso."

Fôlego

Mas os fãs do grupo vão ter de esperar até o fim de 2004 para pôr as mãos no novo CD, pois a agenda do Gotan Project está lotada de apresentações em toda a Europa, nos Estados Unidos e até no Oriente Médio.

"O que estamos conseguindo fazer é tocar algumas das novas composições nessa turnê", disse Phillippe Solal.

Quando perguntado se a mistura do tango com a música eletrônica tem realmente fôlego para durar até um segundo disco, Solal respondeu que sim.

"Vamos continuar trabalhando com o tango, a milonga e outros ritmos folclóricos da Argentina, mas não da mesma maneira", explicou. "Queremos fazer novas experiências e fazer nosso trabalho progredir. Porque os discos de música eletrônica que a gente escuta hoje não são iguais aos discos de dois anos atrás."

Mas Phillipe Solal reconhece que a receita que vem fazendo o sucesso do Gotan Project nem sempre funciona para outros ritmos.

"Acho que é preciso ter muito cuidado com as fusões musicais: elas precisam ser feitas com criatividade, talento e inspiração", disse. "Não sou, de maneira nenhuma, um adepto da world dance music".

O DJ lembrou que o Gotan Project só nasceu depois de muita experimentação.

"Ninguém – nem nós mesmos – sabia no que ia dar. Cada trecho de música foi uma surpresa para nós e acho que foi por isso que conseguimos conquistar tantos admiradores", afirmou.

Phillippe Solal só se ressente de ainda não ter conseguido levar o Gotan Project ao Brasil.

"Sei que há o festival Abril Pro Rock, em Recife, que pode nos acolher. E também estivemos com Caetano Veloso, que viu nosso show na Itália e disse que nos ajudaria a tocar no Brasil", disse. "Mas, por enquanto, são só projetos."

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