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17 de março, 2003 - Publicado às 10h50 GMT
EUA planejam ocupação do Oriente Médio, diz Saramago
Escritor participou de protesto no sábado
Escritor participou de protesto no sábado

Anelise Infante, de Madri

O verdadeiro objetivo dos Estados Unidos em relação ao Iraque é estender as “fronteiras do Ocidente”, tendo em vista o desafio que será posto pela China dentro de algumas décadas.

Essa é a opinião do escritor português José Saramago, Prêmio Nobel de Literatura de 1998, que, apesar de seus 81 anos, no sábado partcipou de uma manifestação antiguerra em Madri.

Saramago preparou e leu um manifesto contra a guerra durante o evento, e depois concedeu uma entrevista exclusiva à BBC Brasil.

“Esta guerra que parece só isso, uma guerra contra o Iraque, que se diz que é uma guerra pelo petróleo, trata-se do princípio da ocupação do Oriente Médio pelos Estados Unidos”, disse Saramago. Leia a seguir os principais trechos da entrevista:

BBC Brasil – Como o senhor descreve a atual situação?

Saramago –
O mínimo que se pode dizer é que se trata de um capricho belicista. Isso é o mínimo, claro. Se você me pergunta o que seria o máximo, creio que não são suficientes as palavras. Mas, como nós só podemos comunicar-nos com os outros com palavras, tenho que dizer algumas.

Essa guerra que parece só isso, uma guerra contra o Iraque, que se diz que é uma guerra pelo petróleo, trata-se do princípio da ocupação do Oriente Médio pelos Estados Unidos.

BBC Brasil – O senhor acha que há objetivos ocultos que vão além do desarme de Sadam Hussein?

Saramago –
Acho que sim. Tal como eu entendo, o Oriente Médio nada importa para a Ásia. Os Estados Unidos sabem que dentro de 30, 40 ou 50 anos terão na China outra grande potência mundial. E o que estão a preparar é exatamente uma estratégia de contenção, pondo de alguma forma as fronteiras do Ocidente o mais longe possível.

BBC Brasil – George W. Bush, Tony Blair e José Maria Aznar compararam Sadam Hussein a Hitler. O senhor acha que é assim?

Saramago –
Eu não acho que seja comparável. Mas evidentemente isso é uma estratégia de mistificação, de engano sistemático da opinião pública, lançando frases que se sabem que não correspondem a uma realidade, que não são contrastadas, que ninguém vai perder tempo, ou eles não perdem tempo para verificar se aquilo que estão a dizer tem alguma parte, alguma pontinha de verdade ou se simplesmente é mentira.

Já Goebbels dizia isso: uma mentira repetida mil vezes ou um milhão de vezes acaba por converter-se em uma verdade. Mas, mesmo que não seja verdade, que toda gente suspeita que não é verdade, a matracagem é de tal forma que as pessoas acabam por resignar-se. Perde-se a capacidade de reagir. E sobretudo porque nos retiram a capacidade e os meios de opor a razão às falsas razões deles.

Enfim, estamos a viver aqui numa atmofera de Macarthismo, como já está instalado nos Estados Unidos e que tem todos os indícios a vir a espalhar-se. Então virá a acontecer o que Bush disse: a guerra preventiva. Se eu suspeito de que vai acontecer algo mal, então sou eu o primeiro a atacar. Aonde é que isso nos leva?

BBC Brasil – Se houver o ataque militar sem o respaldo das Nações Unidas, o que pode acontecer com a ONU?

Saramago –
Mas os Estados Unidos querem que as Nações Unidas desapareçam! Não lhes interessa nada. Durante muitos anos os Estados Unidos deixaram de pagar as cotas das Nações Unidas, e isso significa alguma coisa! Se pagou uma parte recentemente, isso agora não interessa.

Os EUA não querem obstáculos, nenhum obstáculo que impeça ou dificulte o plano muito claro que têm pelo menos desde 1996. Que é a ocupação do Oriente Médio para já, e há que recordar a cabeça de ponte que durante muitos anos foi Israel; cabeça de ponte entre os EUA e o Oriente Médio.

Singularmente agora o Sr. Bush vem a dizer que os palestinos têm direito a um Estado. Há um processo de mistificação mundial e temos que reagir a isso.

BBC Brasil – Quanto a essa questão da Palestina, no Conselho de Segurança da ONU, apenas a Síria argumentou que Israel desrespeita as resoluções da Nações Unidas e não há represálias. Por que dois pesos e duas medidas para Israel e Iraque?

Saramago –
É muito pior do que isso. Fala-se de resoluções do Conselho de Segurança das Nações Unidas sobre o conflito Israel-Palestina, mas o que acontece é que na realidade nunca houve nenhuma resolução. Fizeram simplesmente recomendações ao governo de Israel. E as recomendações não tem peso, são simples recomendações.

Portanto, quando nós dizemos que Israel não cumpriu as resoluções das Nações Unidas, é que nem sequer se trata disso, porque não houve nenhuma resolução do mesmo tipo e com a mesma força, digamos legal, como aquilo que se dirigiu agora em relação ao Iraque.

No caso de Israel se tratou sempre de simples recomendações e, evidentemente, que o governo de Israel, o senhor Sharon ou o senhor Barak antes dele, e outros muitos mais, não tinham intenção de fazer nada. Recomendações para sair nos papéis. Estou convencido de que, mesmo que se tratasse de resoluções, em Israel fariam o mesmo.

BBC Brasil – Esse movimento pacifista que vem acontecendo no mundo inteiro é, de certa forma, como a metáfora de 'Ensaio sobre a cegueira'? As pessoas estão acordando de uma cegueira insolidária?

Saramago –
Sim, estamos acordando. Isto realmente é o despertar, o levantar e o organizar para uma nova etapa na formação da opinião pública mundial. É uma opinião pública que se está organizando e por isso pode constituir-se, não sei se vai acontecer, mas pode constituir-se num contrapoder que faça refletir os políticos, os responsáveis ao menos duas vezes antes de tomar medidas que vão contra a segurança e a paz no mundo.

BBC Brasil – Na manifestação de Madri o senhor pediu que os protestos não parem. Esse contra-poder popular pode fazer alguma coisa mais quando começarem os bombardeios?

Saramago –
Podemos perturbar os planos futuros de alguns políticos. Somos a pequena mosca que está a zombar e ecoa nos ouvidos prepotentes. As manifestações têm que continuar a cada dia que dure a guerra e eles têm que saber que não vamos parar, nem vamos deixá-los em paz. Eles querem a guerra e nós queremos democracia e paz.
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