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| 26 de novembro, 2002 - Publicado às 22h01 GMT |
| Fado vira 'sensação' na voz de Mariza |
 Cantora está indicada para prêmio da Rádio 3 da BBC
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Maria Luísa Cavalcanti
Cantando fado, o tradicional ritmo português, uma moçambicana de 28 anos está sendo chamada de “a nova sensação da world music”.
Mariza encerrou o Festival de Jazz de Londres com lotação esgotada no Purcell Room, uma das principais salas de concertos da cidade.
Em fevereiro de 2003, a cantora volta à Grã-Bretanha para uma turnê, e se a estrela continuar brilhando, Londres poderá vê-la novamente em março, quando será entregue o Prêmio World Music da Rádio 3 da BBC – ela está indicada como revelação e melhor artista européia.
Em Portugal, Mariza está ficando conhecida como “a nova Amália Rodrigues”. Não é a toa: em um país onde um CD de fado vende uma média de 6 mil cópias, ela superou a marca das 30 mil cópias com seu primeiro álbum, Fado em Mim.
Visual
 'Meu visual é o meu jeito de estar', diz Mariza | Um espectador desavisado geralmente se choca quando se depara com o visual extravagante da cantora: cabelos curtíssimos e descoloridos, maquiagem pesada, saias bordadas mas, sobretudo, uma alegria que não costuma ser associada ao fado.
“Meu visual não é programado. Essa é a minha forma de estar”, disse ela, em entrevista à BBC Brasil.
“Há dias em que minha alma está mais triste”, confessa. “Mas não tem a ver comigo fazer um concerto chorado e melancólico.”
Além disso, segundo Mariza, o fado tem um lado alegre que pouca gente conhece. E, apesar de respeitar a base tradicional do ritmo, ela tem experimentado novas sonoridades.
Puro
Um dos exemplos é a transformação do contrabaixo acústico em instrumento de percussão e o uso desse recurso em grandes clássico, como Barco Negro, sucesso na voz de Amália Rodrigues.
“Gosto de testar novos caminhos que tenham a ver com as minhas origens e as origens do fado, que passam pela África e pelo Brasil”, afirma. “Eu cresci em um bairro de Lisboa onde só se canta fado e sei perfeitamente o que aquilo é.”
Mas ela faz questão de frisar que sua música sempre será a mais pura possível, contrariando uma tendência dos artistas classificados como world music de misturar ritmos regionais com sons mais universais como batidas eletrônicas, rap ou hip hop.
“Não vou me opor a alguém usar um trecho da minha música em um projeto dançante, mas não me imagino fazendo um fado rap ou um fado eletrônico”, ri.
Mariza acredita que há, sim, espaço para o fado tradicional e que o ritmo vem despertando cada vez mais a curiosidade do público.
“Nos últimos tempos, as pessoas estão mais abertas para conhecer a cultura do vizinho”, explica. “E o fado é uma música que mexe com as emoções, independente da barreira da língua.”
Inesquecível
Mariza é perfeccionista, do tipo que se senta em vários lugares da platéia durante o ensaio para verificar a qualidade do som.
E gosta de parecer modesta, tentando disfarçar o sorriso ao ouvir, mais uma vez, que é “a nova sensação da world music”.
Mas não esconde a felicidade quando enumera os seus feitos mais recentes: além das indicações para o prêmio da BBC, das comparações e dos elogios, ela foi escolhida para cantar o hino português na estréia do país na Copa do Mundo, fez o show de abertura para Lauryn Hill nos Estados Unidos, foi chamada às pressas para substituir uma Björk rouca em um dos principais programas da TV britânica, e começa 2003 com mais de 150 espetáculos agendados em todo o mundo.
“Mesmo que eu viva cem anos, nunca vou me esquecer de 2002”, afirma.
Apesar disso, acha que em seus shows ainda “paira no ar” a sensação de que as pessoas estão ali para conferir o que ouvem a seu respeito.
“Mas não entro no palco com a responsabilidade de agradar ninguém”, diz. “Entro para fazer aquilo o que sei e mais gosto de fazer, que é cantar.”
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