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Cultura
25 de abril, 2002 - Publicado às 15h49 GMT
Casa de atores brasileiros vira palco de teatro em Londres
A atriz Tereza Araujo, em cena de 'Stone Crabs'
A atriz Tereza Araujo, em cena de 'Stone Crabs'

Miriam A. Cohen

Um dia na vida de um casal que enfrenta um ciclo doentio de ciúme e violência.

É essa a trama dos personagens sem identidade da peça Stone Crabs, encenada por dois atores brasileiros, Tereza Araujo e Franko Figueiredo, na própria casa onde vivem, no sul de Londres.

O público acompanha o casal por todos os cômodos da residência e é testemunha do sofrimento da esposa que apanha e é humilhada pelo marido.

No entender dos atores, encenar a peça na própria casa, torna o espetáculo mais real. "Além disso, o público acompanha o cotidiano violento dos personagens sem poder interferir", diz Tereza Araujo.

Clarice Lispector

O texto do espetáculo se baseia em contos de Clarice Lispector e em experiências de pessoas que foram vítimas de violência doméstica.

O título se baseia no ingrediente de um prato típico do litoral da Flórida o stone crab, um tipo de caranguejo da região.

O caranguejo utilizado no prato é capturado e tem uma das patas quebradas. Depois, é lançado ao mar e no lugar da pata quebrada surge outra, que será partida novamente pelo pescador na primeira oportunidade.

Segundo Franko Figueiredo, a situação do caranguejo é a mesma da personagem da peça, que vive num ciclo permanente de violência.

"Nós percebemos que todo o indivíduo que é violento ou que se deixa violentar tem um mesmo passado histórico de sofrimento, não é só uma questão problemática entre homem e mulher, e sim, o que cada um traz na bagagem", conta a atriz.

A dupla de atores se conheceu em Salvador. Os dois trabalhavam em projetos sociais com moradores de rua e comunidades carentes na cidade.

Lá, eles se depararam com uma realidade cruel e de difícil acesso. Mesmo quando a intenção era ajudar, havia medo e desconfiança. Eles, tiveram que achar uma fórmula para que as pessoas não se sentissem invadidas, mas sim, convidadas.

Foi então que surgiu a idéia de usar recortes de jornais que contavam histórias sobre violência doméstica durante os workshops.

Os textos foram adaptados e viraram falas improvisadas, encenadas por mulheres que eram agredidas pelos parceiros e que, além de ajuda, buscavam respostas.

O "drama terapia", que contava com técnicas do diretor de teatro Augusto Boal, começou a render frutos e trazer mais participantes. No final de cada apresentação era aberto um debate, e foi assim que os atores reuniram o material base de Stone Crabs.

A fórmula criada por Tereza e Franko não só deu certo nas comunidades de Salvador, como foi repetida alguns anos mais tarde com moradores de rua no bairro de Leytonstone, em Londres.

"Embora existam diferenças muito grandes entre os dois países, a dor e o sofrimento são iguais. O que muda é a forma de como isto é tratado e assumido em cada um. No Brasil, a sociedade civil se organiza e tem uma visão mais aberta em relação a estes problemas", disse Franko.

As cenas fortes misturam histórias observadas pelos atores nos dois países. Por isso mesmo, parte das falas da peça são em inglês, as demais em português.
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