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23 de maio, 2003 - Publicado às 20h50 GMT
Bebê que foi gestado no fígado da mãe nasce na África do Sul
A mãe correu um risco enorme com a gravidez
A mãe correu um risco enorme com a gravidez

Um bebê que foi gestado dentro do fígado de sua mãe – em vez do útero – nasceu na terça-feira, na África do Sul, e foi batizado de Nhahla ou "sorte", em zulu.

Nhahla é o quarto bebê a sobreviver a esse tipo de gestação, entre os 14 casos semelhantes documentados em todo o mundo até hoje.

A criança nasceu com 2,8 quilos depois de uma operação complicada e foi entubada logo em seguida por apresentar dificuldades respiratórias. Na quinta-feira, porém, ela já respirava sem aparelhos.

A criança e a sua mãe, Ncise Cwayita, de 20 anos, passam bem.

'Milagre'

"A criança é um verdadeiro bebê milagroso", disse a um jornal sul-africano o professor Jack Krige, especialista em fígado que executou a operação de parto.

Quando um óvulo é fecundado, ele atravessa as trompas de falópio até chegar ao útero, onde ele se desenvolve.

No entanto, às vezes o embrião se fixa nas trompas, o que é chamado de gestação ectópica.

Em alguns casos – na proporção de uma em 100 mil gestações – o óvulo cai das trompas e pode se fixar em qualquer ponto do abdômen.

Em casos extremamente raros, como o de Nhahla, o embrião se fixa no fígado, uma fonte rica em sangue.

O bebê tem, então, a proteção da placenta, mas não a do útero, e corre mais riscos do que na cavidade abdominal.

Útero vazio

A maioria das gestações fora do útero são abortadas em poucas semanas.

Nesse caso, no entanto, os médicos só descobriram que o bebê estava crescendo no fígado quando fizeram um exame nesta semana.

O útero da mãe estava vazio, apesar de o parto estar previsto para acontecer em uma semana.

Cwayita foi então transferida para o hospital Groote Schuur, na Cidade do Cabo.

"Nós sabíamos que se tratava de uma gravidez fora do útero, mas não sabíamos que era no fígado até iniciarmos a operação na manhã de terça-feira", disse o médico Bruce Howard ao jornal Cape Argus.

Os médicos encontraram um pequeno espaço em que o saco amniótico (a "bolsa d'água") se conectava com a parede do fígado, através do qual conseguiram parir a criança.

Riscos

Os médicos foram obrigados a deixar a placenta e o saco amniótico dentro do fígado, já que a retirada deles iria pôr em risco a vida da mãe.

Eles acreditam que o organismo vai absorvê-los novamente.

O professor James Walker, da Fundação Britânica de Gravidez Ectópica, disse à BBC que gestações abdominais são muito perigosas.

"A mãe corre riscos imensos. Uma em 200 mulheres morre antes que se possa fazer qualquer coisa."

"O maior problema para o bebê é que ele não é protegido pela parede muscular do útero", completou Walker.
 
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