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16 de maio, 2003 - Publicado às 11h55 GMT
Cientistas contestam tese de que fumo passivo não faz mal
Indústria tabagista patrocinou pesquisa 'suspeita'
Indústria tabagista patrocinou pesquisa 'suspeita'

Um estudo sugerindo que o efeito nocivo do cigarro é pequeno sobre os chamados fumantes passivos - aqueles que não fumam, mas convivem com fumantes - tem gerado sérias discussões no meio científico.

O estudo, patrocinado em parte pela indústria do tabaco e publicado pelo British Medical Journal, conclui que a ligação entre doenças cardíacas e câncer de pulmão e o fumo passivo são mais fracas do que se imaginava.

Entretanto, a American Cancer Society (Sociedade Americana Contra o Câncer), cujos dados foram usados no estudo, expressou sérias dúvidas sobre as conclusões.

Os pesquisadores, James Enstrom, da Universidade da Califórnia, e Geoffrey Kabat, do New Rochelle College, de Nova York, analisaram dados sobre 118 mil pessoas que fizeram parte de um estudo de 40 anos a respeito da prevenção ao câncer na Califórnia.

Casamento

O principal objeto de estudo da pesquisa foram 35 mil pessoas que nunca fumaram, mas que tinham se casado com fumantes.

Os pesquisadores descobriram que a exposição a ambientes com fumaça de cigarro não tiveram uma associação significativa com mortes por doenças coronárias ou câncer de pulmão.


Só não há dúvidas sobre os danos causados aos fumantes.
Mas, como esperado, foi confirmado que os fumantes têm risco muito grande dessas duas doenças, além de maior incidência de obstrução pulmonar crônica.

De acordo com os pesquisadores, a descoberta sugere que a estimativa de um aumento de 30% da incidência de doenças cardíacas em fumantes passivos não era precisa.

Entretanto, eles aceitam que um efeito pequeno não pode ser descartado.

Um porta-voz para a American Cancer Society disse que a pesquisa era "imprecisa e não-confiável".

Ele afirmou que a associação fez a última checagem no grupo de teste para ver se as pessoas ainda fumavam em 1972.

Então, é possível que muitos deles tenham abandonado o vício e os fumantes passivos, deixado de conviver com a fumaça.

Também há a possibilidade de, após campanhas antitabagistas, muitos fumantes terem preferido acender cigarros fora de casa para poupar o resto da família.

Pesquisa suspeita

A organização antitabagista americana Action on Smoking and Health (Ação contra o Fumo e pela Saúde) condenou o British Medical Journal por publicar uma "pesquisa suspeita".

A gerente de pesquisa da organização disse que os autores do estudo parecem ter deliberadamente manipulado os resultados para favorecer a indústria do tabaco.

"Dúvidas vão surgir inevitavelmente sobre a decisão de publicar uma pesquisa conduzida por cientistas pagos pela indústria do cigarro", disse ela.

"Isso pode ser prejudicial se for usado por lobistas para reclamar das leis que proibem o fumo em lugares públicos e em locais de trabalho", completou.

Sandford diz ainda que os políticos não podem se iludir com esse estudo, mas respeitar a ciência que tem reputação e já mostrou que o fumo passivo mata.

Evidências médicas têm mostrado de maneira conclusiva que o fumo passivo tem efeito nocivo sobre os pulmões de crianças e há claras evidências de que ele também piora os efeitos da asma.
Ian Campbell, presidente da British Thoracic Society
O British Medical Journal disse que o dinheiro para o estudo comprovadamente não pode ser obtido de outras formas.

Numa nota sobre os dois autores da pesquisa, a revista científica disse: "Eles têm uma longa história de não-fumantes cujo principal interesse é uma determinação precisa sobre os efeitos do tabaco".

"A decisão de publicar um estudo só é tomada depois de uma análise cuidadosa e seguindo estritos critérios que incluem revisão. É inevitável que algumas pesquisas possam às vezes ser consideradas controversas", declarou a revista.

Mais evidências

Em um editorial da revista, o professor George Davey Smith, da Universidade de Bristol, argumenta que o impacto do fumo passivo ainda pode ser questionado.

Ele diz que é difícil medir com precisão o impacto da fumaça no ambiente e, então, há um risco de conclusões confusas.

Ian Campbell, presidente da British Thoracic Society (Sociedade Britânica dos Especialistas em Doenças Torácicas), declarou: "Evidências médicas têm mostrado de maneira conclusiva que o fumo passivo tem efeito nocivo sobre os pulmões de crianças e há claras evidências de que ele também piora os efeitos da asma".

"Futuras pesquisas sobre o efeito do fumo passivo sobre os pulmões são necessárias e deveriam ser estimulados pelo governo e por outras agências financiadoras", completou.

Ele diz, ainda, que as conclusões de um estudo feito na Califórnia não seriam necessariamente válidas para outros lugares.

"Na Califórnia, as condições climáticas são boas e muitas pessoas passam muito tempo em ambientes abertos. É bem diferente da vida em um bloco de apartamentos no leste de Londres ou em Berlim", explicou.

Vivienne Nathanson, chefe do departamento de ciência e ética da Associação Médica Britânica, afirmou: "Seria errado ser convencido por um estudo enganoso patrocinado pela indústria tabagista quando argumentos contra a pesquisa e inúmeros trabalhos têm demonstrado que fumo passivo mata".

Mas Tim Lord, diretor-executivo da Associação dos Fabricantes de Tabaco, tem outro argumento: "O debate sobre fumaça de cigarro no ambiente está longe de chegar ao fim, ao contrário do que muitas pessoas pensam".

"Ao se analisar as evidências como um todo, é inevitável a conclusão de que o fumo passivo foi certamente superestimado", disse ele.

Análises de amostras de urina indicaram que pessoas que se casaram com fumantes têm exposiçao a substâncias químicas equivalente a 6% da enfrentada pelos fumantes.
 
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Links externos:
British Medical Journal (em inglês)
American Cancer Society (em inglês)
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