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13 de novembro, 2002 - Publicado às 20h58 GMT
Sonares de navios podem causar morte de golfinhos e baleias
Golfinhos não resistem aos sonares de navios militares
Golfinhos não resistem aos sonares de navios militares

Anelise Infante, de Madri

Especialistas espanhóis culpam os sonares de embarcações militares pela morte de 24 baleias e golfinhos, nas últimas semanas, no sul do Mar Mediterrâneo.

Os equipamentos militares emitem sons tão agudos que os tímpanos dos animais não suportam e estouram.

Portanto, os radares de ultra-som têm o efeito de uma explosão nos ouvidos dos mamíferos e eles acabam morrendo por hemorragia interna ou se suicidam por não agüentar a dor.

Os que resistem sofrem surdez ou têm um nível de estresse muito alto, o que também provoca morte por mal funcionamento de outros órgãos vitais.

Autópsias

Os 24 golfinhos e baleias da espécie zifio de cuvier (cetácios de cerca de 600 quilos, de 5 a 7 metros de comprimento e que vivem, em média, 35 anos) foram encontrados mortos nas praias da ilha Palmas de Gran Canária com sangue na boca e sem marcas de choques contra embarcações.

As autópsias indicaram “lesões hemorrágicas de alta intensidade causadas por sinal acústico intenso. Colapsos cardiocirculatórios, estresse e lesões vasculares”.

Esta é uma análise que os biólogos consideram prova de que a única razão para explicar esta mortandade está no uso dos radares.


“O ouvido de um mamífero marinho é quase igual ao de um animal terrestre. Salvo as adaptações para que funcione no mar, ele não está preparado para estes aparelhos de ultra-som que rastream o fundo para encontrar petróleo ou gás. Então sofrem por hipersensibilidade”, disse o biólogo Eduard Degollada, autor de um estudo sobre a audição de baleias e golfinhos para a Universidade de Las Palmas.

Outros casos

O fenômeno espanhol não é, no entanto, um caso isolado. Segundo associações ecologistas, outros mamíferos marinhos estariam morrendo nas costas sul dos Estados Unidos e México pelo barulho das embarcações militares e comerciais, e submarinos.

“Já houve sete denúncias por testes militares americanos e da Otan no litoral atlântico espanhol desde 1989. E outras tantas nos Estados Unidos"

"Estes testes equivalem à reverberação da explosão de uma bomba. Nenhum ouvido pode agüentar”, explicou a biológa Susana Requena, do Fundo Mundial Para a Natureza (WWF, sigla em inglês).


Sangue no ouvido de animais mortos seria prova do problema

Os sons dos radares que não causam morte deixam outras seqüelas nos animais. O catedrático da Universidade de Las Palmas, Andre Michel, disse que os golfinhos ficam surdos rapidamente por culpa dos radares e, sem sistema de orientação, perdem-se de seus grupos, correndo risco de vida.

Estresse e desorientação

Estes tipos de mamíferos marinhos usam os aparelhos auditivos para se guiarem à noite e se comunicarem com os outros.

“Destruir seu sistema de audição afeta muito a estrutura social desses animais. Se não os mata, os deixa estressados e sem meios de sobreviver”, afirmou Michel.

Baleias e golfinhos têm uma espécie de câmara de ar nos canais auditivos perto da boca. Por isso, os canais da mandíbula chegam diretamente aos ouvidos.

Para proteger os órgãos de audição e compensar a pressão da água, esses animais têm uma membrana que se rompe ao receber freqüências altas pelo barulho.

Áreas de proteção

Sem esta membrana, os animais perdem o sentido, sofrem dores agudas e morrem. Os especialistas espanhóis sugerem a criação de áreas de proteção para os mamíferos marinhos em que as embarcações sejam proibidas de entrar.

“Em nenhum lugar do mundo há mares silenciosos. Então, o problema afeta a golfinhos e baleias de todo o planeta, embora dependendo das características da espécie, uns danos sejam mais graves que outros”, disse o biológo Andre Michel.

No dia 30 de outubro, uma manifestação em Lanzarote reuniu 10 mil pessoas – inclusive o Prêmio Nobel de Literatura, José Saramago, que mora na ilha – para exigir do governo medidas de proteção ambiental.

A assessoria do Ministério de Meio Ambiente da Espanha comunicou que o caso das baleias e golfinhos mortos “é um problema regional que está sendo tratado pelo governo das ilhas de Las Palmas”.

O governo de Las Palmas, por sua vez, informou que já abriu um inquérito para esclarecer a situação.
 
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