| 29 de julho, 2002 - Publicado às 14h58 GMT |
| Legislação impõe desafio à propaganda de cigarro |
 Para psicanalista, há elemento erótico no ato de fumar
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Isabel Murray, de São Paulo
Busca de si mesmo, auto-afirmação, influência da publicidade. São vários os motivos que podem levar uma pessoa a começar a fumar.
Mas um deles, a propaganda, tem sido cada vez mais contido. A cada dia fica mais difícil anunciar cigarros - situação muito diferente da de 20 anos atrás, quando as propagandas do setor na televisão eram autênticas superproduções.
Em dezembro de 2000, a lei 10.167 restringiu a propaganda de cigarros no Brasil.
"A lei é muito clara nesse sentido, ela não diz onde não pode (ser feita propaganda). Ela diz somente onde pode", explica Carlos Silvério, diretor de criação da agência DPZ e que trabalha há 12 anos com propaganda de cigarro.
Pontos de venda
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A lei determina que as propagandas de produtos derivados do tabaco só podem ser feitas no ponto de venda e sob o formato de pôsteres e o que chamam de "displays" (cartazes e luminosos).
Aliás, esse é um motivo de confusão, porque os publicitários dizem ser difícil delimitar o limite entre as duas formas de propaganda.
Contornar as limitações legais para anunciar seu produto tornou-se um grande desafio para os especialistas em propaganda e marketing.
"Estamos sendo desafiados a encontrar novas formas que até então não tínhamos pensado ou cogitado; temos que ser absolutamente criativos e inovadores" diz Carlos Silvério.
A criatividade consiste em criar o que é chamado de "comunidade de aproximação com a marca".
Ferramentas como a internet, mala direta e eventos fechados estão sendo usadas para cadastrar fumantes ou novos fumantes.
"A gente faz com que a escolha de uma marca seja coerente com outras escolhas que a pessoa faz na vida", explica Silvério.
"Por exemplo, o tipo de lazer ou de informação cultural, ou forma de relacionamento social. Se (a pessoa) vai a festas, se não vai, se está ligada à internet ou não está, se gosta de passeios ao ar livre no fim de semana ou não, de cinema ou não. Cada marca tenta criar um universo de identificação."
"Não é comunicação de massa. Eu estou fazendo um trabalho quase de porta em porta, de casa em casa, de pessoa a pessoa, para criar um universo de relacionamento", finaliza o publicitário.
Até mesmo eventos direcionados a um público sofisticado, como festivais de jazz e de dança, patrocinados por cigarros, já estão com os dias contados.
Este ano será o último em que esses festivais vão acontecer, também devido às restrições do governo.
Motivos
Segundo o Banco Mundial, no mundo todo, existem 1,1 bilhão de fumantes no planeta. Ou seja, de cada três adultos, um fuma.
 O psicanalista Oscar Cesarotto, que estuda o hábito de fumar |
Devido ao crescimento da população adulta e também ao aumento do consumo, o número total de fumantes deve chegar a 1,6 bilhão no ano de 2025.
Muitos dos fumantes brasileiros nem deram pela falta das propagadas na TV. O vício está tão arraigado que não há nada que possa fazer o fumante mudar de opinião.
"Não tem nem explicação o prazer de fumar", suspira José Apelônio da Costa Filho, de 68 anos, que fuma há 40.
"Quando eu quero parar de fumar, vou para a cozinha toda hora buscar alguma coisa para pôr no lugar. Levanto de madrugada, é um vicio."
O que leva as pessoas a fumar com tanto prazer, mesmo sabendo que faz mal à saúde? As teorias são muitas.
"As pessoas fumam por causa da solidão", opina o psicanalista Oscar Cesarotto, que estuda o tema.
"Tecnicamente, em termos psicoanalíticos, fumar e os efeitos do tabaco na pessoa são uma satisfação auto-erótica. Alguém pode se satisfazer sozinho graças ao cigarro", continua ele.
"O tipo de satisfação que a nicotina produz estimula neurotransmissores no cérebro."
O especialista diz que o prazer obtido com o cigarro está ligado a uma espécie de angústia.
“Não que o cigarro estimule a região da boca, que é uma zona erógena. Também, mas é minimo. O que a nicotina produz no corpo é uma sensação que está mais perto da angústia do que de outra coisa", diz.
"É um paradoxo. Por um lado, satisfação, mas por outro uma sensação que não é agradavel e que prende o fumante de um jeito inescapável."
A idéia de que o cigarro funciona como uma espécie de muleta psicológica também é aceita pelo psicoterapeuta.
"A pessoa não precisa de ninguém para fumar. Todo mundo pode fumar sozinho, até se pode pensar que a pessoa, mesmo rodeada de outros, quando fuma, nesse momento está isolada", completa Oscar Cesarotto.
A polêmica é grande, e o único ponto do qual ninguém discorda é que cigarro vicia.
E para não perder esse consumidor cativo e atrair outros, os publicitários brasileiros vão continuar a fazer de tudo para atrair esse público.
Afinal, segundo estatísticas fornecidas pelo Instituto Nacional do Câncer, para substituir o contigente de pessoas que param de fumar ou morrem as indústrias precisam garantir cerca de 2,7 milhões de novos fumantes por ano.
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