| 29 de julho, 2002 - Publicado às 19h41 GMT |
| Cabeleireiro já tentou parar de fumar nove vezes |
 Edson Alves fuma enquanto atende uma cliente
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Isabel Murray, de São Paulo
Parar de fumar não é fácil, porque a nicotina do tabaco é uma droga poderosa que cria dependência.
Muitos tentam parar, mas não conseguem porque sofrem com crises de abstinência, como no processo de desintoxicação de qualquer outra droga.
De acordo com dados do Hospital do Coração, em São Paulo, 70% dos fumantes apresentam algum desconforto após a interrupção do consumo de cigarro.
Edson Alves, dono de um salão de beleza na capital paulista, conhece bem o problema. Ele fuma há 25 anos, até mesmo quando está arrumando os cabelos das clientes. E já tentou parar de fumar nove vezes.
Necessidade
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"O cigarro traz uma certa sensação de prazer", explica Alves. "Mas hoje não é mais prazer, já é uma necessidade mesmo. Não é facil ficar sem ele. Eu me considero um viciado. Hoje fumo dois maços por dia, mas já fumei três."
De acordo com o Inca (Instituto Nacional de Câncer), parar de fumar vale a pena. As pessoas que largam o vício aos 50 anos diminuem pela metade a chance de morrer nos próximos 15 anos, comparadas aos que não param de fumar.
Apenas um ano após a interrupção do consumo, o risco de problemas cardíacos diminui pela metade. As vantagens são claras, mas tentar parar é um tormento para Edson Alves.
"Os sintomas são quase sempre os mesmos. Você fica extremamente nervoso", conta o cabeleireiro.
"O cliente não quer saber se estou parando de fumar, ele puxa um papo, e eu tenho que conversar sobre o assunto. Só que dá uma depressão, uma angústia, aí de repente aquilo que a pessoa está falando começa a te incomodar."
"Aí se você está sentado não está bom, se está na rua não está bom, se está parado não está bom, se está dirigindo não está bom. Quando estava há dois dias sem fumar, eu dirigidindo, quase bati o carro. Meu filho ia jogar bola e me incomodava, caía um garfo no chão e me incomodava", afirma Alves.
"Eu como excessivamente, não durmo direito à noite. Chega de manhã é aquela tremedeira, aquela ansiedade."
Para o médico Daniel Denzhelan, diretor clínico do Hospital do Câncer, todos esses sintomas sofridos por Edson têm uma explicação clara.
"O tabagismo é um vicio, uma doença, não é uma questão de caráter ou de vontade", diz o especialista.
"Ninguém fuma porque quer. Ninguém sabia que em dez dias iria estar viciado numa droga extremamente potente, ou em várias, mas na principal que é a nicotina, que vicia muito rápido e de uma forma extremamente potente. Cigarro vicia mais que cocaína."
Irritação
Edson Alves teve todos os sintomas típicos de quem tenta parar de fumar e que aparecem normalmente poucas horas após o último cigarro.
A pessoa fica irritada, tem mudança de humor, insônia e falta de concentração. A intensidade máxima desses sintomas acontece entre 24 e 48 horas após parar de fumar.
"À noite eu sonhava com o cigarro. Acordava assustado, porque estava fumando no sonho. É meio desesperador, só quem passa por isso sabe."
"O primeiro dia você consegue, o segundo você consegue. Mas qualquer probleminha que você tiver, você pega e descarrega... E eu já observei o seguinte. Todas as vezes que eu tentei parar de fumar, quando eu volto eu volto fumando o dobro", continua Alves.
"Por isso eu já cheguei a fumar quase quatro maços por dia nessas tentativas sem sucesso."
Nas nove tentativas durante os últimos cinco anos, ele tentou de tudo: por conta própria, com acupuntura, com calmantes, adesivos de nicotina e duas vezes com Ziban - medicamento de última geração considerado o mais eficaz no combate ao tabagismo. Nada adiantou.
"É aquela coisa, no dia que você fica sem fumar, só fica fumante no seu lado", reclama o cabeleireiro.
"O cheiro do tabaco me satisfazia nesse intervalo que eu fiquei sem fumar. Então eu passava perto de uma pessoa fumando, eu respirava fundo, eu fumava junto com ela."
“E hoje não que eu desisti, eu vivo falando que sou um sem vergonha mas um sem vergonha que esta sempre tentando. Um dia eu consigo. O importante é que eu não desisti."
Cobrança é o que não falta. Nenhuma das três funcionárias do salão de Edson Alves fuma. Ele é casado, tem um filho de 14 anos e outro de 15. Ninguém da família fuma.
O cabeleireiro afirma que ainda tentará parar de fumar mais uma vez neste ano.
Especialistas dizem que a síndrome de abstinência do cigarro só dura algumas semanas. Se os sintomas persistirem por mais tempo, o ex-fumante deve procurar um médico.
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