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Bastidores de cúpula indicam pressa do Brasil em ampliar Mercosul

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3 jul 2012 10:10 BSB

Marcia Carmo

De Buenos Aires para a BBC Brasil

Presidentes Dilma Rousseff (Brasil) e Cristina Kirchner (Argentina). (foto: AFP)

A forma como a entrada da Venezuela foi consolidada na última reunião cúpula do Mercosul, no final da semana passada, revela a pressa do Brasil em ampliar o bloco.

Essa é a opinião de analistas ouvidos pela BBC Brasil, que acreditam que o Brasil, em particular, estaria preocupado com a crescente influência da China na região, após a criação da Aliança do Pacífico, bloco que serve de "contrapeso" ao Mercosul e teria maior aproximação com a Ásia.

Segundo a imprensa dos países do bloco, o Brasil teria pressionado pela integração imediata da Venezuela ao Mercosul - e essa integração teria sido decidida em uma reunião a portas fechadas entre os presidentes do Brasil, Argentina e Uruguai durante a cúpula, na cidade argentina de Mendoza.

Há notícias de que a pressão exercida pela presidente Dilma Rousseff neste sentido sobre o Uruguai teria causado um mal estar diplomático.

Além da integração da Venezuela, a Cúpula também suspendeu o Paraguai, em consequência da derrubada do presidente Fernando Lugo. O Paraguai era o único país do bloco que não tinha ainda aprovado, no seu Senado, a entrada da Venezuela no Mercosul.

'Golpistas'

Para diplomatas da Bolívia, país associado que participa dos encontros do bloco, "Brasil e Argentina foram decisivos" para incorporar a Venezuela e suspender o Paraguai. "As reuniões tiveram momentos tensos, mas o saldo foi muito positivo para toda a região", disseram.

Na opinião de interlocutores do governo brasileiro, não se podia esperar mais pela entrada da Venezuela no bloco. "Não podíamos ficar reféns dos golpistas do Paraguai. E decidimos dar o troco", afirmou uma fonte brasileira.

Na segunda-feira, o ministro das Relações Exteriores do Uruguai, Luis Almagro, disse à rádio Espectador e ao canal quatro de televisão, de Montevidéu, que a presidente Dilma pediu, em Mendoza, que os ministros se retirassem para uma reunião entre ela e os colegas da Argentina, Cristina Kirchner, e do Uruguai, José Mujica.

Naquele encontro entre os três presidentes, disse Almagro, foi definida a palavra final sobre a incorporação da Venezuela ainda neste mês. "Essa reunião começou com um chamado de Dilma Rousseff, que disse que tinha que falar pessoalmente com os presidentes sobre um tema político. Nós, ministros das Relações Exteriores, nos retiramos. A postura do Brasil foi decisiva neste assunto (incorporação da Venezuela)", disse Almagro.

Segundo ele, na reunião dos ministros, um dia antes do encontro presidencial, o Uruguai era "contrário à entrada da Venezuela com o Paraguai suspenso".

O Congresso do Uruguai foi o primeiro a aprovar a entrada da Venezuela para o Mercosul, depois a Argentina e, em terceiro, o Brasil. A incorporação definitiva do país ao bloco dependia do Senado paraguaio.

"Eles também não foram tão rápidos em destituir o Lugo? Por que não poderíamos incorporar já a Venezuela? A incorporação foi feita com bases legais", disse um interlocutor brasileiro.

As declarações de Almagro causaram mal estar nos bastidores dos governos argentino e brasileiro. "As presidentes não decidem pelo Uruguai e o presidente uruguaio assinou a decisão de incorporação da Venezuela", afirmou.

A incorporação da Venezuela provocou fortes críticas da oposição uruguaia ao governo de Mujica. O Uruguai tem pouco mais de três milhões de habitantes e setores da política local entendem que com o Paraguai suspenso, o país ficará "ainda mais exprimido" entre as decisões dos dois maiores sócios do bloco – Brasil e Argentina.

Bloco rival

Em seu discurso em Mendoza Dilma disse esperar que outros países sejam membros plenos do Mercosul.

A entrada da Venezuela foi consolidada seis anos após a assinatura do primeiro acordo para essa integração e seis meses antes da reunião semestral do bloco, em dezembro.

"O Mercosul vinha perdendo dinamismo e a integração da Venezuela dará novo e importante fôlego ao bloco. A Venezuela é um país caribenho que tradicionalmente esteve ligado aos Estados Unidos. Precisamos aproveitar a decisão de (Hugo) Chávez de estar na América do Sul para formalizar logo esta integração", disse um interlocutor do governo brasileiro, em Brasília.

"A incorporação da Venezuela também envolve, indiretamente, os países da Alba (Aliança Bolivariana para os Povos da América). E o Mercosul ficará ligado politicamente a este bloco", disse o professor de ciência política da Universidade do Chile, Guillermo Holzmann.

A ampliação do bloco veio pouco menos de um mês depois da formalização, no Chile, da chamada Aliança do Pacífico, com a assinatura de um acordo entre Chile, Peru, Colômbia e México, entre outros.

Segundo analistas e interlocutores dos governos do Mercosul, esse é mais um motivo para o Brasil acelerar a revitalização e ampliação do Mercosul. A Aliança seria um "contrapeso" ao bloco e reúne países com acordos de livre comércio com a China e com Estados Unidos – caso do Chile e do Peru.

A Colômbia tem acordo com os americanos e recentemente disse à China que está interessada no mesmo tipo de entendimento de livre comércio.

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