Brasil, Argentina e Alemanha: sofrimentos diferentes e esperados

  • 1 julho 2014
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Di María fez um mau jogo, tomando muitas decisões equivocadas, mas virou o herói no final

Os grandes sobreviveram às oitavas de final desta grande Copa do Mundo. Sobreviveram. Brasil, Argentina e Alemanha sofreram mais do que muitos esperavam. Não foi surpresa para eles, no entanto.

Foram sofrimentos distintos em circunstâncias distintas de jogo.

Não é uma boa leitura minimizar as dificuldades enfrentadas pelo Brasil só porque outros também sofreram.

Muita gente andou falando no Twitter coisas do tipo "o Brasil sofreu contra o Chile, mas olha só os outros sofrendo contra times piores".

"Pior" e "melhor" é muito relativo. Se olharmos o ranking da Fifa, por exemplo, pouquíssimos são "melhores" que a Suíça, que era cabeça de chave do grupo dela.

A Suíça jogou um futebol extremamente negativo. Nunca quis ganhar o jogo, o plano foi sempre embaralhar a entrada da área, congestionar o campo e esperar pelos pênaltis.

Gol da Alemanha, equipe que costuma ser brilhante em bolas aéreas

Tiveram um par de contra ataques no primeiro tempo e nada mais do que isso. A lição de casa era copiar o que fez o Irã e não permitir os espaços que a Argentina tinha tido contra a Nigéria.

É definitivamente uma boa estratégia para enfrentar a Argentina, que joga de modo muito estático. Messi está parado, quer bola no pé e, quando ela chega, rapidamente uma marcação dobrada (muitas vezes até triplicada) era imposta pelos suíços.

O outro rompedor de defesas é Di María, que fez um mau jogo, tomando muitas decisões equivocadas. Virou o herói no final, mas estamos falando aqui dos 118 minutos anteriores.

A Suíça tem poder de fogo, no entanto. E poderia ter pelo menos tentado ganhar o jogo. Pagou por ter abdicado do futebol, uma punição justa a quem decidiu fazer um jogo negativo.

Brasil, Alemanha, qualquer um teria sofrido contra a Suíça. É sempre difícil jogar contra linhas sólidas, juntas e envolvendo os dez atletas de linha.

A Argélia fez algo bastante diferente contra a Alemanha. Além de marcar muito, tentou ganhar o jogo de forma inteligentíssima. Correndo para cima de uma zaga lenta, pelo meio, apostando realmente em fazer dano dessa maneira.

É o ponto fraco alemão e quase a maior zebra da Copa apareceu.

No Brasil, temos a mania de ignorar e desprezar times médios e pequenos europeus. São ridicularizadas por muita gente que quer "provar" que as ligas domésticas europeias são ruins por terem "apenas dois ou três times bons".

Copa está longe de ser nivelada por baixo, com qualidade, velocidade e gols

Os argelinos, espalhados pelos Sportings e Getafes da vida, mostraram não só qualidade, mas muita inteligência tática. Não foi o antijogo suíço, foi algo muito mais ousado, sofisticado e digno de aplausos.

O Brasil possivelmente teria tanto trabalho quanto contra a Suíça e bastante menos contra a Argélia. Com laterais e zagueiros mais rápidos que os alemães, as ameaças seriam menores.

Já a Alemanha possivelmente teria tido menos trabalho contra o Chile. Porque gosta da bola, não permitiria que os chilenos dominassem a posse e fizessem o jogo como quisessem. Além, claro, de serem brilhantes em bolas aéreas - o grande defeito defensivo do Chile.

Que o futebol não tem mais bobo é algo que todos deveriam saber faz tempo, ainda que muita gente siga achando que camisas ganham jogos. O futebol evoluiu, é global, esses caras jogam em grandes ligas europeias.

Foram sofrimentos diferentes e esperados. Que não falam tão mal de Brasil, Alemanha e Argentina, mas, sim, bem de seus adversários e do nível atingido no futebol global.

Zebra mesmo será se o Brasil não sofrer contra a Colômbia. A Alemanha, contra a França (aliás, mal vejo um favorito aqui). A Holanda, contra a brava Costa Rica, convidada de honra desta grande festa. E se a Argentina não passar apuros também.

É zebra se não sofrerem. Não é zebra alguma se perderem.

Não é uma Copa nivelada por baixo, daí o equilíbrio. Muito pelo contrário. Estamos vendo qualidade, velocidade e gols. Não dá para pedir muito mais.