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'Grã-Bretanha deveria adotar sistema de cotas brasileiro'

Atualizado em  30 de abril, 2014 - 11:02 (Brasília) 14:02 GMT

Recentemente, vários amigos meus participaram da "Clique I too am Oxford" (Eu também sou Oxford), uma campanha inspirada na "I too am Harvard" nos Estados Unidos, para dar cara, voz e vez às minorias que estudam ou pretendem estudar nas chamadas top universities.

Postando fotos com cartazes, mais de cem estudantes contaram situações em que sofreram ou testemunharam racismo em Oxford.

Estudantes postaram fotos com cartazes no site da campanha, denunciando tratamento desigual

O site da campanha foi visitado por gente do mundo inteiro, e as fotos foram publicadas em vários sites de notícias, incluindo a Clique BBC.

Os depoimentos revelaram que a desigualdade institucional (logicamente diferente do racismo pessoal) existe não só em Oxford, como também em outras universidades britânicas.

Uma pesquisa publicada em 2011 mostrou que a chance de um candidato branco conseguir uma vaga em Oxford era de 24%, a chance de um candidato afro-descendente caía para 12.8% e um de descendência paquistanesa era apenas 4.9%.

Para mim, parece que o Brasil está bem mais avançado nesta área.

A implementação do sistema de cotas no Brasil, que ocorreu por iniciativa institucional, não apenas mudou o quadro do acesso à universidade no país, mas também deu um exemplo de algo que precisa ser feito na Grã-Bretanha.

Em primeiro lugar, que o governo e as universidades reconheçam que o racismo existe também no sistema educacional, e que juntos têm a responsabilidade - uma dívida histórica - de mudar essa situação.

Sei que o sistema de cotas - e não só raciais - tem gerado polêmica no Brasil e existem fortes argumentos pró e contra.

A minha intenção aqui não é mostrar o Brasil como um paraíso racial - ao contrário. Na minha opinião é preciso que haja uma plataforma política para reconhecer o problema e o tema tem que ser objeto de um amplo debate público.

Sistema de cotas não existe na Grã-Bretanha

Depois de estudar em Oxford, - onde a mera sugestão da adoção de um regime de cotas esbarra num verdadeiro tabu, e onde a desigualdade racial não consta na agenda do governo nem da universidade – e de ver o resultado da campanha -, ficou claro para mim que esse tipo de racismo nas universidades britânicas é uma realidade no país inteiro.

A minha impressão é de que o governo e as universidades daqui deveriam seguir o exemplo brasileiro: reconhecer que o racismo existe, que é uma consequência da história colonial do país, e assumir a responsabilidade para mudar essa situação.

E você, o que acha? É a favor das cotas nas universidades como uma iniciativa para combater o racismo e desigualdades?

- estatísticas Oxford:http://www.ox.ac.uk/media/global/wwwoxacuk/localsites/gazette/documents/statisticalinformation/admissionsstatistics/Undergraduate_Admissions_Statistics_2011.pdf

- estatísticas Reino Unidohttp://absentfromacademy.co.uk/

Comentários

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    Número do comentário 20.

    É hipocrisia pensar que a entrada em uma universidade é puramente meritocracia. Metidas inclusivas como as cotas são para tentar igualar uma condição histórica de inferioridade que negros estão submetidos. Logo após a abolição da escravatura nada foi feito para inclusão social dessas pessoas na sociedade, que de certa forma significa dar possibilidade de consumo às elas. A condição de pobreza se perpetua a cada geração, até que algo seja feito para reverter essa situação. Vocês, sinceramente, acham que depois que os escravos foram libertos eles tiveram as mesmas oportunidades que os brancos? E os filhos desses escravos? E os filhos dos filhos desses escravos? A única possibilidade de contestação da perpetuação da desigualdade de oportunidades poderia ser devido a ampliação do acesso a escola básica. Porém, a escola básica pública no Brasil não é de qualidade. A qualidade dessas escolas, mesmo as de ensino fundamental, é péssima. Resultado disso é notado nas médias baixíssimas do ensino público brasileiro. Isso, consequentemente, impede o ingresso dos pobres na universidade, visto que eles não possuem o mesmo conhecimento que qualquer outra pessoa que estudou nas escolas particulares, que apresenta uma média um pouco melhor. Sinceramente, entrar em uma universidade não é meritocratico. As cotas não melhoram o sistema educacional, mas ampliam a possibilidade de uma pessoa pobre, determinada historicamente e socialmente, de conseguir ingressar e assim diminuir aos poucos o abismo social entre negros e brancos. Agora reflita: você é preconceituoso? Muitos, talvez a maioria absoluta, dirá que não. Existe preconceito racial no Brasil? Muitos dirão que sim. A questão é: de onde está brotando esse preconceito que as pessoas reconhecem na sociedade, mas não reconhecem em si mesmas? Afinal, quem contra-argumenta contra cotas está revelando o preconceito existente na classe média e alta. De fato, as cotas raciais não é unicamente a única forma de construir uma sociedade mais igual. Mas é inconstestavelmente um modo, que amparado por outras políticas de igualdade social, pode facilitar a inserção da classe maioritariamente pobre e negra da população na sociedade. Só assim, construiremos um Brasil mais justo, igual e desenvolvido como nosso "majestosos colonizadores".
    Esse texto foi escrito por um estudante de 16 anos que estudou durante muitos anos em escola pública e teve que mudar de cidade para fazer ensino médio em escola particular, porque a escola pública não forneceria a esse estudante condições mínimas para disputar uma vaga em uma universidade pública.

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    Número do comentário 19.

    Yara, sua abordagem racialista não procede! Este é um caso exemplar onde ganha-se mais tratando-o com objetividade do que com chavões ideológicos da década de 1960.
    A causa da gritante desigualdade no contexto brasileiro é social e não racial-étnico. O problema passa pela precariedade e escassez da oferta de serviços educacionais, por conseguinte, insuficientes para atender à população. Há uma demanda reprimida e crescente que não tem merecido o devido tratamento ou atenção por parte do Estado. Neste caso, cotas não resolvem, ao contrário, servem de estratégia dissuasiva e política de baixo custo (basta uma canetada), funcionando como maquiagens, improvisos ou paliativos demagógicos que mascaram a triste realidade infraestrutural da educação pública disponível aos cidadãos.

    No caso do seu país, ou no de nações anglófonas, parece-me, o diagnóstico é o inverso, o problema se dá no acesso (interdito por questões de segregação racial) e não na oferta. Não obstante, será que não haveriam outras variáveis, como a própria formação dos candidatos, os quais você afirma que são recusados simplesmente por pertencerem à alguma origem específica? O risco de leituras "racialistas" é a forte tendência em reduzir uma realidade complexa a um único fator.

    São países diferentes, contextos socioculturais diferentes, portanto, necessitam de análises pontuais para balizar a adoção de políticas públicas eficazes que possam tratar de forma adequada as distorções que açulam desigualdades.
    .
    Fica a dica para uma reflexão:
    http://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2014/05/1448949-editorial-social-nao-etnico.shtml

    Saudações,

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    Número do comentário 18.

    Seu texto põe o dedo em uma das mais doloridas feridas da classe média brasileira, que é o falso mito da meritocracia. Sob essa bandeira, uns poucos lutam para manter seus privilégios, enquanto fomentam, na maior parte das vezes sem perceber, a exclusão dos mais frágeis.
    É uma estupidez acreditar que as condições são iguais para todos e que só não ocupam os melhores lugares quem não quer. Se há desigualdade de saída, é preciso criar mecanismos que reduzam esse desvio, afinal a equidade e a solidariedade são princípios fundamentais da República do Brasil, conforme expresso na nossa Constituição.
    Cotas não tiram vagas do rico que é bom, mas abrem portas para o pobre que é MUITO bom e não teve as mesmas oportunidades que aquele. Cotas servem assim para equalizar as oportunidades de ascensão e diversificar a ponta da pirâmide social. Como outras políticas sociais focalizadas, não devem durar para sempre, somente enquanto as desigualdades de acesso à educação perdurarem. É natural que provoque conflitos, pois interfere, ainda que minimamente, na estrutura de privilégios de uns poucos.
    No Brasil, a política de cotas é um sucesso. Segundo indicadores de universidades públicas, como a Unicamp, os cotistas em geral têm desempenho superior aos não cotistas. É o mesmo que acontece com cientistas de países emergentes que conseguem bolsas em universidades de ponta na Europa ou EUA. Os caras dão o máximo de si, porque sabem que não terão outra oportunidade como essa de novo na vida.
    Enfim, como disse no início, é um tema polêmico e trará aqui, para a caixa de comentários do seu post, muitas vozes indignadas e discordantes.
    Sobre o falso mito da meritocracia, há duas discussões muito boas aqui (http://goo.gl/pWDmkT) e aqui (http://goo.gl/nr63pp). Recomendo a leitura. Abraços.

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    Número do comentário 17.

    Yara, este texto seu foi produzido com a intenção de fazer algum teste de comportamento nos leitores brasileiros? Por que sinceramente não acredito que você possa estar falando sério quando você propõe que a Grã-Bretanha deveria adotar um sistema de quotas como forma de evolução social.

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    +4

    Número do comentário 16.

    Depende muito da eduacacao oferecida por cada governo, outro ponto a se pensar é se essa diminuicao de aprovados negros e paquisaneses e por questoes racistas ou nao.

 

Comentários 5 de 20

 

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