Inglesa leva susto com paquera: “Você fala português como computador, mas é linda!”

  • 14 março 2014
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Como britânica, confesso que tenho dificuldade para me relacionar com pessoas que não conheço de modo tão aberto como os brasileiros e, mais especificamente, como os cariocas.

Quando cheguei ao Brasil, vivi na prática o que antes conhecia pela teoria.

Os britânicos são mais reservados e preservam sua individualidade. Isso cria, de maneira geral, um espaço privado no qual cada um pode ser do jeito que quiser. Ninguém se mete, e isso é muito bom.

Mas, hoje, vejo que essa característica – que nunca pode ser generalizada, claro - impede que nós, britânicos, aproveitemos coisas boas como conversar com quem não se conhece, ajudar e ser ajudado sem que a intromissão incomode.

Vou ser mais clara. Quando cheguei ao Brasil, fiquei surpresa com o jeito direto do povo.

Nos meus primeiros dias de praia, cometi o erro clássico do turista desavisado e não protegi minha pele contra o sol. Virei motivo de piada nas ruas. “Nossa, você está vermelha como um camarão!!”, ouvi várias vezes.

Eleanor curtiu o carnaval no RIo

Na Inglaterra, um comentário assim tão aberto sobre a aparência de alguém é considerado uma grosseria e poucos ousam fazer.

Outra coisa são os comentários que ouço sobre o meu português.

Dos que tentam passar uma cantada… “você fala português como um computador, mas é muito linda!”

Dos que mentem apenas para agradar…. “você fala português muito bem!”

Não importa a intenção, o que me impressiona é a vontade dos cariocas de puxar conversa.

Fico pensando que o clima quente pode explicar parte dessa diferença. É mais fácil ser aberto sob o sol e o calor, que impõem e estimulam uma vida ao ar livre. E é quase natural ser trancado no frio e na chuva. Mas será que a explicação está aí? Sei que muitas teorias que usam o clima para explicar sociedades não são muito levadas a sério.

Admiro as duas mulheres que, sem me conhecer, me vendo em dificuldade para sair de um bloco de carnaval, começaram a abrir caminho para mim distribuindo cotoveladas na multidão.

Sou grata aos vendedores de quiosques que vivem me ajudando, me indicando como chegar aonde quero. Mesmo que ainda ache um pouco estranho ser chamada por eles de “minha filha”, “meu amor”.

Sinto que, aos poucos, vou me adaptando e me abrindo. O jeito aberto do brasileiro já não me incomoda e já consigo ver o lado não apenas generoso como engraçado.

Já nao peço desculpas por coisas de que nem sou culpada como fazia quando cheguei. Aquela mania dos ingleses de dizerem ‘sorry’ por qualquer coisa.

Minha agenda, que antes era toda programada, já é livre, dando margem ao acaso, ao que der e vier.

Meu próximo objetivo é incorporar o ritmo brasileiro não só no dia a dia mas também na dança.

Gostaria de aprender a dançar forró como brasileira. Não sei se um dia vou conseguir, mas de uma coisa tenho certeza, não quero mais ser reservada como uma britânica.