Britânica no Brasil diz que 'choque de preços' foi maior que o cultural

  • 19 fevereiro 2014
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Quando cheguei ao Rio, levei um choque. Maior do que o cultural foi o "choque de preços".

Por ser estrangeira, muita gente parte do pressuposto de que dinheiro não é um problema para mim. Quando veem o telefone celular simples que carrego, sempre se surpreendem e perguntam se não vou comprar um melhor.

"Talvez", respondo, sabendo que, na verdade, não vou. Artigos eletrônicos no Brasil custam quase o triplo do preço cobrado na Inglaterra, mas as pessoas sempre me dizem que dá-se um jeito pagando em parcelas.

Mas não confio muito em preços que desfilam na sua frente fantasiados de barganha. Vai sempre sair mais caro no fim das contas. Juros embutidos, diriam os de mente mais matemática.

Além de minha falta de confiança no sistema de parcelas, já estourei meu orçamento deste mês com uma conta médica astronômica para os meus padrões. Tive um caso simples de infecção alimentar e saí de um médico em Ipanema com uma conta de R$ 600.

Coco vendido no Rio | Foto: Luiza Calandra-Jugdar
Eleanor se surpreendeu com os preços elevados cobrados no Rio de Janeiro

Outros custos menos abonadores também pesam no meu bolso. Das saídas noturnas ao biqu[ini absurdamente caro apesar da pouca lycra usada. Moro no Brasil há dois meses, mas ainda me pergunto constantemente qual o preço "certo" a se pagar em situações do dia a dia.

Talvez o que eu identifique como uma dificuldade por ser estrangeira também seja uma sensação que mesmo vocês sintam. O fato é que a frase "Eu moro aqui. Não me cobre preço de turista, por favor!" está virando meu mantra.

Outra coisa que me deixa chocada é o alto preço do metrô. Antes o chão não fosse de granito e o preço fosse mais baixo.

Na estação Arcoverde, no Rio de Janeiro, pago até R$ 3,50 por um bilhete único. É menos do que um bilhete em Londres, mas talvez a melhor comparação venha da própria América Latina.

Na Cidade do México, onde vivi nos últimos seis meses, pagava menos de um terço deste valor, ou seja, o equivalente a R$ 0,90. E isso depois de um aumento que gerou uma série de protestos em dezembro.

E as surpresas não param por aí. No Brasil, o preço de um bilhete de ônibus pode ser quase tão caro quanto o de um bilhete aéreo em distâncias mais longas.

Fiz uma pesquisa de preços para ir do Rio a Salvador no dia 21 de março e encontrei uma passagem da GOL por R$ 325,90, portanto, apenas um pouco mais cara do que os R$ 320 que a Viação Itapemirim cobrava pela passagem de ônibus no mesmo dia.

Em todos os países que já conheci, passagens de ônibus são mais baratas do que passagens aéreas. Onde está a opção econômica no Brasil?

Diante de toda esta minha frustração, foi um grande achado descobrir a campanha $urreal, uma ótima ferramenta para consumidores.

Só espero que a campanha e as iniciativas de boicote a estabelecimentos que cobram preços abusivos não sejam apenas uma moda de verão.

Isoporzinhos e farofas deveriam virar um elemento constante na cultura da cidade. Pechinchar e reclamar de preços precisam ser a "norma". Se não, preços surreais é que serão.