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Alerta! Temperatura passa dos 30ºC!

  • Iracema Sodre
  • 30/06/2009, 05:38 PM

A atual onda de calor na Grã-Bretanha só confirma que tudo é relativo na vida. Basta os termômetros londrinos chegarem perto dos 30 graus e as manchetes dos jornais já falam de "milhares de vidas em risco por causa das altas temperaturas".

O nível de alarmismo pode parecer exagerado para quem, como nós brasileiros, já passou por verdadeiras ondas de calor, debaixo de sol escaldante.

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Mas Londres não está preparada para o calor e muitos escritórios, ônibus, trens e metrôs não têm ar-condicionado e viram um inferno em dias como esses. Além disso, os ingleses, acostumados com chuva e tempo nublado, correm para torrar no sol assim que ele aparece.

Assista aqui a um vídeo sobre a onda de calor

Em 2003, numa onda de calor que durou nove dias e alcançou a temperatura de 38 graus, o recorde na Grã-Bretanha, houve cerca de 3 mil mortes além do número de óbitos normalmente registrado.

Segundo autoridades médicas, um fator que contribui para o alto número de mortes devidas ao calor é que os britânicos se preparam para o sol quando viajam, mas quando estão aqui acham que podem seguir com a rotina e abrir mão do protetor solar, das roupas leves e de beber muita água.

Na verdade, é tudo questão de costume. Nós brasileiros, aproveitamos qualquer temperatura abaixo dos 20 graus para tirar do armário as botas e jaquetas de couro.

Meu pai, que visitava Londres pela primeira vez na semana passada, já prometeu que nunca virá para cá no inverno. "Se no verão já faz esse frio!"

À noite, dava mesmo para colocar um casaquinho, mas frio, para quem está habituado ao clima londrino, aquilo não era...

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Notting Hill, muito além do sábado

  • Maria Luisa Cavalcanti
  • 16/06/2009, 12:45 PM

No último fim-de-semana, satisfiz uma das minhas maiores curiosidades desde que vim morar em Londres, há sete anos: conheci o jardim que serviu de cenário para o romance de Julia Roberts e Hugh Grant no filme Um Lugar Chamado Notting Hill.

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Graças ao Open Garden Squares, uma iniciativa que uma vez por ano abre aos simples mortais vários desses jardins particulares e secretos de Londres, pude ver de verdade o portão que Anna Scott e William Thacker pulam em seu primeiro encontro, o cantinho em que se beijam, o banco em que namoram pacificamente à espera do primeiro bebê.

Procurei o local por anos e anos, e cheguei até a acreditar em um boato internético de que ele não exisitiria, e que cada cena teria sido feita em um jardim diferente da cidade. Mas uma representante do Open Garden me garantiu: foi tudo filmado no Lansdowne and Elgin Crescent Gardens.

Notting Hill, o filme, e Notting Hill, o bairro, têm o poder de me fazer sonhar com uma vida perfeita, onde minha casa seria enorme e linda, onde eu teria grana para frequentar sem culpa os restaurantezinhos, as livrarias e as lojas fofas da região, onde haveria flores e romance a cada esquina e onde Londres seria eternamente ensolarada.

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Mas mesmo com os pés no chão e apenas alguns trocados na carteira, há muito o que se ver e curtir por ali.

O grande atrativo do bairro ainda é o mercado de Portobello Road, que acontece todos os sábados. Confesso que cansei um pouco deste programa, talvez pelo excesso de visitantes e também por ele parecer ter virado um grande "camelódromo".

Mas Notting Hill vai muito além do sábado: a feira de produtos orgânicos às quintas, os agitos às sextas, as matinês no Electric Cinema aos domingos - o melhor dia também para quem quer explorar as lojas com calma e silêncio.

E se você não quer esperar até 12 e 13 de junho do ano que vem para o novo Open Garden, pode olhar os jardins do alto dos ônibus 7, 23 e 52.

Ou fazer como Anna e Will e entrar sem ser convidado. Às vezes algum morador acaba esquecendo o portão aberto - o que já aconteceu comigo, by the way.

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Caça aos esquilos

  • Fernanda Nidecker
  • 12/06/2009, 12:04 PM

Uma das minhas surpresas quando vim morar em Londres foi descobrir que os ingleses detestam esquilos.

Para tentar explicar melhor, diria que o mesmo sentimento de nojo e raiva que os brasileiros têm por ratos e baratas, os ingleses expressam pelos pequenos roedores.

Lembro que a primeira vez que vi um esquilo cinza achei lindo e fui logo querendo passar a mão.

esquilo300.jpg
Para meu espanto, meu marido inglês me repreendeu e começou a "dar uma aula" sobre como os esquilos cinzas tinham sido importados no século 19 da América do Norte e exterminado os nativos de cor vermelha.

E que, além disso, eles se reproduzem como uma praga, vivem fuçando o lixo e espalham doenças que podem matar as árvores.

Eu nunca levei o papo do meu marido muito a sério até perceber que o discurso dele refletia um fenômeno na sociedade britânica.

Prova disso foi o envolvimento do príncipe Charles no assunto, ao virar patrono da recém-criada Red Squirrel Survival Trust (Fundação pela Sobrevivência dos Esquilos Vermelhos), que defende o extermínio de toda a população de esquilos cinzas.

E parece que o príncipe está praticando o que prega. Segundo alguns jornais daqui da Grã-Bretanha, qualquer esquilo que dê bobeira na sua casa de campo acaba morrendo.

A notícia provocou a indignação de grupos de defesas dos animais e levou os assessores de Charles a emitirem um comunicado dizendo que os roedores morrem "humanamente". O documento não revela que métodos são aplicados para dar fim à vida dos bichinhos, limitando-se a dizer que "não é por envenenamento".

Eu ainda continuo achando os esquilos uma graça. Não me incomoda em nada chegar ao meu prédio e ver vários deles subindo e descendo das árvores atrás de nozes e frutinhas. Lá perto de casa tem tanto esquilo, que a rua embaixo da minha, que também dá nome a um ponto de ônibus, se chama "The Squirrels" (Os Esquilos).

Nunca fizeram mal a ninguém. Às vezes eles até vêm pegar comida na mão. Se depender de mim (e de vários outros brasileiros que pensam como eu), os esquilos vão continuar por aí, soltos pelos parques e ruas, correndo de um lado para o outro.

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Bom, bonito e de graça

  • Neli Pereira
  • 27/05/2009, 04:48 PM

lixo.jpg Que tal acessar a internet, entrar em um site, escolher o seu próximo guarda roupa, celular ou carro, enviar um email e ir buscar no dia seguinte. Isso tudo sem tirar a carteira do bolso, dar o número de seu cartão de crédito ou gastar um tostão?

Parece bom demais pra ser verdade, mas não é. Ao chegar em Londres e ver todo o tipo de eletrônico, mobílias e roupas no lixo, jogados na rua e ainda com um aviso escrito "FUNCIONANDO" ou "POR FAVOR, PEGUE", fiquei abismada.

Depois, a cena virou rotina e tenho que confessar que usei durante muitos anos uma dessas televisões de 42 polegadas que encontrei num desses lixões. Sem contar a vez que encontrei 700 discos de vinil de 7", que ficaram novinhos depois de um bom banho na banheira.

Por isso, quando descobri que algumas pessoas, em vez de jogarem as coisas no lixo, colocam em sites da internet para trocar ou simplesmente doar o que não querem mais, não fiquei tão surpresa, apesar de ter achado a ideia genial.

Um desses sites é o gumtree, que tem versões locais em diversas cidades além de Londres. Ali dá pra encontrar casas para alugar, coisas para vender, vagas de emprego e até os músicos que faltam para montar uma banda. Mas é na seção Freebies (Brindes, em tradução livre) que dá para escolher as coisas de graça. Hoje, por exemplo, as ofertas incluem um corte de cabelo, um colchão de casal, dois monitores de computador, uma impressora com cartuchos, entre outras coisas.

Outra opção para quem está disposto a procurar coisas de graça pela internet é o site freecycle. A diferença é que neste você pode procurar as coisas por bairro, o que facilita na hora de buscar o que você escolheu. Recentemente, uma amiga pegou um armário que custava, novo, cerca de 700 libras (R$2,1 mil) na loja.

Em época de crise, a ideia de encontrar coisas úteis e de qualidade de graça já é muito inteligente. Se além disso, você levar em consideração que quem está doando também está reciclando e não jogando fora o que não quer mais, a ideia fica ainda melhor.

Eu estou usando e abusando dos freebies e ainda economizando um bom troco. Assim como a ideia, reciclo aqui a dica, pra quem quiser seguir.

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A outra Londres

  • Neli Pereira
  • 18/05/2009, 04:55 PM

epping_206.jpg Antes de vir para Londres cogitei fazer um mestrado na cidade de Nottingham. Uma das coisas que todo mundo falava quando eu comentava a probabilidade de morar lá era a tal da "floresta do Robin Hood".

O famoso inglês que roubava dos ricos para dar aos pobres vivia, diz a lenda, na Sherwood Forest, pertinho da cidade.

Depois de cinco anos por aqui, não cheguei a visitar a floresta de Robin e também não encontrei nenhum personagem parecido aqui na capital. Mas descobri, aliviada, que Londres abriga, além de parques maravilhosos, florestas, com ou sem lendas.

Farta da vida urbana, de férias e em Londres, conversei com um amigo interessado em acampamentos e caminhadas e ele me convidou para passar um domingo em Epping Forest. Soava como uma ótima pedida para escapar da selva de pedras e cheirar um pouco de mato, pra variar.

Pela primeira vez na vida cheguei a uma floresta de metrô. Central Line até Epping. De lá, uma caminhada de dez minutos até um campo de críquete e logo atrás começa a trilha para a floresta.

A floresta é imensa, possui áreas de conservação, lagos e até um camping bem ajeitado. Passamos cinco horas andando e vimos apenas uma pequena parte, mas já foi o suficiente para respirar ar puro e fugir da correria da cidade.

Na mesma semana, ainda curti uma caminhada no Parkland Walk, que acompanha uma antiga linha de trem já desativada e começa em Finsbury Park e vai até Alexandra Palace, passando por um bosque, o Highgate Wood.

Uma semana de caminhadas, sol e uma Londres um pouco menos cosmopolita me fizeram um bem danado. Fica aqui a dica para quem, assim como eu, anda precisando ficar mais perto da natureza e olhar a cidade com outros olhos.

E você, conhece alguma floresta ou caminhada bacana aqui em Londres? O que faz quando quer escapar da cidade?

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O jardim dos britânicos

  • Iracema Sodre
  • 21/04/2009, 07:17 PM

Eu não sabia muito sobre a paixão dos ingleses pelos jardins até vir morar aqui em Londres.

Hoje, tenho um vizinho, já velhinho, que dedica todo o seu tempo a cuidar dos canteiros ao redor do prédio onde moramos. Os pais de outra vizinha também acham um jeitinho de plantar tomates e podar plantas todas as vezes que vêm visitar.

cottagegarden226283.jpg

Eles cuidam da minha parte dos canteiros também e eu acho ótimo. Apesar de adorar flores, não tenho a menor ideia de como cuidar das plantas, usar adubos etc. Mas quando a primavera chega e o tempo vai esquentando, até que me dá vontade de começar a aprender.

O meu chefe aqui na BBC também disse hoje que está interessado em umas aulas de jardinagem, depois de ter destruído o gramado da casa dele colocando remédio demais para as ervas daninhas e exagerando na potência do cortador.

Mas quem mora em Londres e não tem seu próprio espaço verde para cultivar pode apelar para uma alternativa: alugar um lote (allotment). Você paga uma taxa anual (que pode chegar a 100 libras, ou R$ 325) e se compromete a passar pelo menos quatro horas semanais com as mãos na terra.

Os mais experientes podem ousar e enviar ideias para um jardim que está sendo criado no Parque Olímpico, para os jogos de 2012.

Jardineiros amadores de todo o país podem mandar propostas, já que o objetivo é fazer com que os visitantes se sintam como se estivessem passeando pelo jardim da casa de alguém.

Os dois vencedores, um jovem e um adulto, vão ser escolhidos pelo público e vão ter uma equipe de paisagistas à disposição para ajudá-los no trabalho. Alguém se habilita?

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As praias daqui e as de lá

  • Iracema Sodre
  • 15/04/2009, 06:15 PM

Os britânicos passam os muitos meses de "inverno" obcecados com a ideia de fugir para algum lugar ensolarado, uma praia em um paraíso tropical.

Não é que não haja balneários interessantes aqui nas terras da rainha. Na verdade, há praias lindíssimas. O problema é que você só consegue curtir essas praias de biquíni ou calção uns três dias no ano.

Nos outros, só vestindo roupa de mergulhador para aguentar as águas congelantes. Ou ficando na areia, atrás de um daqueles troços para te proteger do vento (foto), com uma garrafa térmica cheia de chá ao lado.

praiamargate386.jpg


Aliás eu sempre achei curioso como a nossa expressão "isso não é a minha praia" em inglês vira "it's not my cup of tea", que significa "não é a minha xícara de chá".

E foi justamente esta comparação entre as duas culturas que o jornal The Guardian usou na apresentação de seu ranking das dez melhores praias do Brasil.

A lista deles, feita por "especialistas", vai de uma praia de rio, no Pará, a outra em Florianópolis, passando por várias partes do país.

Eu não estive em todas elas, é claro, mas meu voto iria para a Baía do Sancho, em Fernando de Noronha. Vocês têm alguma preferência?

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"E esse tempo, hein?"

  • Carolina Oliveira
  • 10/04/2009, 06:53 PM

Quem já não passou meia hora conversando com um estranho em uma festa, para depois perceber que, no final das contas, não passou de conversa fiada e nada muito interessante foi falado ou descoberto?

Aqui em Londres uma coisa que se respeita muito é o espaço de cada indivíduo. Sendo assim, conversas com estranhos podem ser um pouco limitadas a assuntos mais superficiais. Conversas do tipo "Então, o que você faz?", "Há quanto tempo está morando em Londres?" e outras trivialidades impessoais estão sempre no cardápio social.

Com o objetivo de reeducar as pessoas na Arte da Boa Conversa, a School of Life, em Londres, organiza jantares em restaurantes bacanas com direito a três pratos, vinho e um cardápio de conversas. conversationmenu_blog.gif

Eu, curiosa, fui conferir. Sentei em uma mesa com uma senhora escritora, um organizador de festas e um menino muito perdido, recém-chegado da África do Sul.

Para cada prato, o cardápio de conversas sugere um tema e várias perguntas para começar o papo, com a seguinte instrução: "Pergunte coisas que você realmente quer saber. Arrisque no que você está disposto a dividir com a pessoa. Diga coisas que nunca disse antes. Ouça com compaixão e a cabeça aberta."

O primeiro prato foi acompanhado, já de cara, por uma conversa bem pessoal, sobre família e como a infância influenciou a vida de cada um.

Durante o prato principal, conversamos sobre o amor, sobre como o medo pode ser um grande incentivador, sobre sonhos não concretizados, e até sobre vermes (sim, vermes - não me pergunte como!).

A sobremesa foi mais descontraída. Recebemos alguns cartões-postais com diversas cenas e tínhamos que imaginar o que estava acontecendo em cada um deles e que tipo de conversa os personagens poderiam estar tendo em cada cena.

Foi uma experiência enriquecedora e as conversas que tive pareceram fluir muito naturalmente. Poderia ser assim sempre.

Agora, toda vez que o assunto 'tempo' (o favorito nas terras da Rainha) aparece na conversa, lembro do menu. Pode ser que esteja perdendo a oportunidade de aprender algo fascinante ou fazer uma boa amizade.

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Minhas férias

  • Maria Luisa Cavalcanti
  • 1/04/2009, 12:42 PM

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Quem não sonha em passar duas semanas de férias em Londres?

Eu, que moro aqui há sete anos, sempre aproveitei as folgas para viajar. Mas desta vez, me vi com duas semanas livres, marido trabalhando, grana curta, família vindo visitar logo e nada planejado. Fiquei por aqui mesmo.

Só que a Londres de quem mora na cidade é bem diferente da Londres dos turistas.

Começa que a primeira coisa que tratei de colocar em dia não foi a agenda cultural, mas sim o meu sono - quem tem filho pequeno vai me entender.

E como minha segunda prioridade foi cuidar da casa, gastei um dia na Ikea. Para quem não conhece, a loja é um planeta de móveis e objetos de decoração superbaratos. Fica fora do centro e é daqueles programas que você passa o ano todo adiando. Mas em dia de semana, sem hora marcada, sem marido e sem criança, é o Paraíso.

Aproveitei também a ida à "periferia" para fazer compras em um desses mega-supermercados que a gente não vê no centro e que são bem mais baratos.

O resto do tempo se completou com visitar amigos, ir ao médico, organizar contas, levar o filho para vacinar e para cortar o cabelo, terminar a temporada 4 de Housewives, e aproveitar um pouquinho o sol nos parques perto de casa. Tudo sem sair da zona 2, que, em meus tempos de turista, eu achava que devia ser o fim do mundo.

Como eu não poderia passar sem um pouquinho de glamour, me joguei um dia nas lojas da Oxford Street. Em uma loja de departamentos, deixei que me fizessem uma supermaquiagem de graça. Saí de lá com uma sacolinha cheia e sem culpa - há três anos não comprava nem um batom.

Também saí uma noite para encontrar amigos em uma galeria de arte alternativa no agitado bairro de Clerkenwell, que, apesar de central, também fica fora do circuito turístico das baladas.

No fim, as duas semanas passaram voando. Ficou faltando organizar um montão de coisas e curtir mais a vida cultural londrina. Uma semaninha a mais teria caído bem. Mas aí, com três semanas, melhor ir para o Brasil, né?

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As boas 'armas' de Brixton

  • Neli Pereira
  • 23/03/2009, 04:23 PM

Conheci Brixton, assim, de nome, antes mesmo de colocar os pés aqui em Londres. Fã confessa da banda inglesa The Clash, a faixa Guns of Brixton, do clássico álbum London Calling, fez com que esse lendário bairro do sul de Londres fosse uma das primeiras coisas que eu aprendi sobre a cidade.

A primeira vez que saí da estação de metrô de Brixton, na Victoria Line, foi em 2004, quando fui assistir a um filme seguido de uma entrevista com o diretor argentino Fernando Solanas, no charmoso cinema Ritzy.

Ao sair da estação, a mistura de gente é a primeira coisa que chama a atenção. Com uma imigração caribenha que chegou na década de 50 para ficar, Brixton se tornou um dos bairros mais multiculturais e interessantes da cidade. Além de um dos mais famosos - por bons ou maus motivos.

Palco de protestos violentos na década de 80 e alvo de também violentas incursões policiais - lembrem-se do caso da morte de Dorothy Cherry Groce - o bairro se tornou sinônimo de diversidade cultural, protesto, mas também de drogas, violência e um baita preconceito de gente que acha o bairro "perigoso", "sujo" ou coisa que o valha.

Pra mim, felizmente, a impressão é completamente inversa. Além de ser um pólo cultural interessantíssimo e bem diferente aqui em Londres, Brixton é o berço de ninguém menos que Mr. David Bowie, que nasceu ali pertinho da Brixton Academy, e abriga uma diversidade cultural bem parecida com a que nós, brasileiros, estamos bem acostumados.

Por sorte minha, um casal de bons amigos brasileiros que moram em Londres há muito tempo se mudou para Brixton há uns três anos e eu passei a frequentar bastante a região, que para mim, se tornou também sinônimo de boa música.

Numa das primeiras vezes que saí por ali, esse casal me levou ao Windmill, um pub perto de um conjunto habitacional numa ruazinha escondida perto de Brixton Hill. Cinco bandas independentes excelentes numa noite de bom rock n'roll marcaram um St. Patrick's Day de primeira. Depois disso, ir ao Windmill é sempre bom programa - boa música e gente despretensiosa. E de todo tipo.

Ontem, fui andando até lá da minha casa, também ao sul de Londres. Quando a noite chegou, o mesmo casal de amigos me levou para conhecer o Effra Hall Tavern, onde, segundo eles, rolava uma jam session de jazz imperdível. E pra variar, eles tinham razão.

A dona do bar abre a jam e incorpora um misto de Aretha Franklin, Nina Simone e Della Reese que me deixou boquiaberta. Semana que vem estarei lá de novo, pra experimentar a comida caribenha que eles servem no bar e curtir mais do bom jazz.

Aliás, de opções gastronômicas, Brixton também não deixa nada a desejar, mas aqui tem assunto pra mais pelo menos mais meia dúzia de posts. Aguardem.

Brixton tem realmente e historicamente, muitas armas. Pra mim, uma tradição de música de qualidade é apenas uma delas.

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A maternidade em tempos de crise

  • Iracema Sodre
  • 20/03/2009, 06:56 PM

Há aspectos muito interessantes de ser mãe em Londres. Um deles é a cara de surpresa das outras mães do meu bairro quando eu digo que trabalho em tempo integral.

Como meu emprego aqui na BBC tem horários pouco convencionais, eu acabo tendo tempo de levar minha filha de 2 anos a aulas de música e sessões de histórias na biblioteca. E se eu estou lá, elas assumem que também sou uma "full-time mum". Quando descobrem que não é bem isso, vêm com comentários como: "Você deve morrer de saudades dela! Ela vai para a creche? Coitadinha!"

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Confesso que, às vezes, tenho uma pontinha de inveja daquelas mães com seus carrinhos de bebê tomando um café despreocupado na mesinha da calçada, jogando conversa fora com outras mães, com tempo de sobra para levar as crianças para mil passeios, enquanto eu corro descabelada para levar minha filha para a creche, para pegar o trem para o trabalho, e às vezes ainda fico cozinhando até altas horas da noite.

Mas devo dizer que, na maioria das vezes, me sinto mesmo é privilegiada por poder exercer a profissão que escolhi, ter um tempo saudável longe das mamadeiras e bonecas e saber que o tempo que tenho com a minha filha tem que ser aproveitado minuto por minuto.

De qualquer maneira, acho que o importante é que as mulheres possam tomar a decisão de ficar em casa ou de voltar ao batente depois que têm filhos. Aqui, antes da crise, era comum que as mães parassem de trabalhar por dois ou três anos, às vezes mais, e depois retomassem as carreiras.

Agora, em tempos mais difíceis, tenho lido reportagens que mostram que essa opção está se tornando cada vez mais complicada, já que muitos maridos, antes bem sucedidos, estão agora desempregados e dependendo das mulheres para o sustento da casa.

Além disso, as britânicas agora têm mais medo de não conseguirem voltar ao mercado de trabalho depois de tanto tempo afastadas, coisa que há muitos e muitos anos já acontece no Brasil...

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No berço do futebol, é proibido jogar bola

  • Neli Pereira
  • 16/03/2009, 02:42 PM

noball_226.jpg"No ball games" (Proibido jogos de bola) é uma expressão que você vai ver muitas vezes ao andar por qualquer bairro londrino. Aqui no berço do futebol, jogar bola, uma pelada qualquer com os amigos, é estritamente proibido nos conjuntos habitacionais construídos pelo governo e nas áreas comuns e - atenção - de lazer de muitos condomínios e parques.

Neste final de semana, o sol finalmente deu as caras por aqui e esquentou um pouquinho o clima que andava pra lá de frio e que judiou muito brasileiro (inclusive eu) nesse inverno.

Aproveitei o sol raiando para dar uma volta na beira do rio Tâmisa e curtir um pouco o bairro onde moro, que é cheio de marinas. Achei que, assim como eu, bastante gente ia curtir o final de semana de sol e aproveitar para sair da toca e abrir as janelas, já que o termômetro passava dos 14o C e a região é cheia de decks e pontes onde a paisagem é bem bonita.

Nada disso. Cruzei com uma meia dúzia de pessoas pelo bairro e vi muitas janelas fechadas. Ao passar por um condomínio, observei novamente a placa de "No ball games" e vi um garotinho olhando pela janela de um dos apartamentos.

Fiquei surpresa e triste ao mesmo tempo. Pode ser que em outros bairros a situação seja diferente, mas não ver os parquinhos cheios de crianças, a grama cheia de garotos correndo atrás da bola e o pessoal varrendo a varanda de casa me deu uma certa tristeza. E um pouco de saudade da terra onde o sol brilha com mais freqüência e os jogos de bola já são mais do que parte da cultura da nossa infância.

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O parto do passado é o do futuro

  • Andrea Wellbaum
  • 2/03/2009, 01:59 PM

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Esta é minha última semana de trabalho antes de entrar de férias e licença-maternidade, então achei que deveria deixar aqui meu post de despedida, já que devo voltar ao batente apenas no ano que vem.

Aqui na Grã-Bretanha, temos uma licença remunerada (porém não com o salário integral) durante seis meses e outros seis meses de licença não-remunerada. Para as mães brasileiras, pode parecer uma maravilha, mas as licenças em outros países da Europa costumam ser ainda mais generosas!

Quando cheguei em Londres, há 4 anos e meio, tinha jurado que nunca teria meu bebê neste país. Tinha ouvido várias experiências extremamente traumáticas, de midwifes (as responsáveis por fazer seu parto quando você não tem de ter uma cesárea) grossas e desatenciosas, de procedimentos errados adotados em situações de emergência, de mães machucadas depois do uso de fórceps... a lista era interminável.

E uma das práticas mais inimagináveis para a maioria das brasileiras era o parto sem nenhum tipo de anestesia. Quando a possibilidade de ter um bebê ainda estava distante, ficava me perguntando por quê eu deveria passar por este sofrimento.

Porém, os anos foram passando, me informei mais e mais sobre o assunto e há pelo menos dois anos a idéia de parir nesta terra já não era algo tão assustador. Em relação à anestesia peridural para aliviar a dor, mudei de lado: quero fazer o máximo para não ter de tomá-la.

Sei que posso me arrepender amargamente do que vou escrever aqui, mas pelo menos neste momento, a menos de um mês do parto, estou bem feliz de dar à luz na Grã-Bretanha.

Se tudo correr conforme o planejado (o que já sei que poucas vezes acontece), terei um parto natural, sem anestesia, dentro da água. Sei que poderia ter um parto destes no Brasil, mas provavelmente teria de pagar caro para ter um serviço que aqui terei pelo sistema público.

Aliás, outra tendência que vem aumentando por aqui são os partos em casa. Muitos ainda são feitos por midwifes particulares, mas todos os hospitais públicos também disponibilizam o serviço e tenho ouvido algumas experiências fantásticas pelo sistema público.

O que se percebe aqui é uma volta ao passado, uma valorização da forma mais antiga de dar à luz. Menos intervenções médicas e mais respeito aos instintos naturais da mulher durante o trabalho de parto.

Não é preciso ser nenhum especialista para saber que quando uma mulher está deitada em uma cama o bebê não conta com a ajuda da gravidade para sair do útero e pode demorar mais em sua jornada para o mundo. Por isso, existe um incentivo cada vez maior ao partos verticais, com a mulher de pé ou de cócoras.

Também não é preciso parar para pensar muito para saber que ficar de pernas abertas em frente a um monte de pessoas desconhecidas sob uma poderosa luz fluorescente de hospital ouvindo a palavra: "Empurra! Empurra!", como se fosse um grito de guerra de estádio de futebol não é a experiência mais prazerosa do mundo e tem tudo para potencializar uma dor que talvez seria menos intensa em um lugar calmo, menos iluminado, com uma música tranquila de fundo e o menor número de pessoas olhando para você. Estes lugares são chamados de "birthing centres", locais que contam apenas com midwifes (não existem obstetras nem anestesistas), que tentam fazer a grávida ter uma experiência parecida com a que teria se estivesse em sua casa.

Não sei como será minha experiência e confesso que estou cada vez mais ansiosa para a hora H. Continuo achando que o sistema de saúde daqui tem lá suas falhas e que como brasileira sinto falta de um acompanhamento pré-natal mais pessoal. Mas no fim das contas, até agora tive todo o tratamento necessário e se tudo culminar com uma bela experiência de parto, que resulte em um bebê e uma mãe saudáveis, melhor ainda!

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O Show de Goody

  • Neli Pereira
  • 23/02/2009, 02:19 PM

goody_226.jpg O casamento da ex-Big Brother Jade Goody, que sofre de câncer e recebeu recentemente dos médicos a notícia de que tem apenas alguns meses de vida, foi destaque na mídia britânica nesse final de semana - como prevê o contrato.

Goody, que foi diagnosticada com câncer no colo de útero enquanto participava da versão indiana do Big Brother e anunciou a doença no confessionário do programa, vendeu os direitos de imagem do casamento a uma revista por £700 mil (R$ 2,5 mil) e a uma rede de televisão por £100 mil (R$350 mil).

Além disso, seus últimos dias de vida estão sendo registrados pela mesma rede de televisão e serão transformados em um programa.

O casamento de Goody, se não fosse apenas porque ela está internada e sendo tratada com quimioterapia, ainda tem outro grande apelo público: o marido está sob liberdade condicional e foi liberado por uma noite com autorização da ministra do Interior para passar a noite de núpcias com a esposa. Ele cumpre pena por ter agredido um rapaz de 16 anos com um taco de golfe.

Apesar de toda a atenção da mídia, Goody afirma que não é fama que está buscando, nessas alturas do campeonato, mas um pé de meia para seus filhos, de quatro e cinco anos. Até o premiê Gordon Brown aplaudiu a decisão.

Jade defende a decisão e diz que apenas decidiu fazer, nos últimos meses de vida, o que vinha fazendo nos últimos anos. O que muda, segundo ela, é que ao invés de falar da sua vida à imprensa, estará falando sobre sua morte. E assim como o personagem de Jim Carey no filme O Show de Truman, a vida da ex-Big Brother parece continuar sendo vigiada por uma câmera. Ou, no caso, várias.

Freqüentadora assídua dos reality shows - ela participou de pelo menos outros oito depois do BB3 - Jade se habituou a dividir os momentos íntimos e particulares da sua vida com o público e os britânicos seguiram a sua trajetória nas telas e nas páginas dos tablóides como quem acompanha uma novela.

O drama da luta de Goody contra o câncer e seus últimos meses de vida não serão diferentes. Isso me leva a pensar onde está a linha, já tão tênue, que divide o público e o privado. E para onde essas celebridades instantâneas e alguns setores da mídia levaram o limite da exposição pública. E até que ponto nossas televisões não viraram, de fato, um grande buraco da fechadura, por onde se acompanha a vida alheia.

Já dizia o sábio Itamar Assumpção: "quem cuida da vida alheia, da sua não pode cuidar".

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A crise e o dia dos namorados

  • Neli Pereira
  • 16/02/2009, 12:10 PM

namo_226.jpg Enquanto os tambores começam a esquentar para o Carnaval no Brasil, os britânicos celebraram, no último sábado, o Dia dos Namorados, ou Valentine's Day.

Na semana que antecedeu o grande dia, os principais jornais, revistas e websites do país publicaram dicas e mais dicas sobre a melhor maneira de passar o sábado, sozinho ou acompanhado.

Os já bem tradicionais presentes como flores, cartões, noites em hotéis diversos, e as festas para solteiros ou pra quem não quer comemorar, todos vieram com um diferencial nesse dia dos namorados de 2009: como agradar o parceiro ou celebrar o dia da maneira mais barata?

Em meio à crise, o romantismo normalmente associado à data deu lugar a guias e recomendações sobre como celebrar sem gastar muito. Para tentar incentivar o consumo, restaurantes, floriculturas e outros segmentos do comércio bombardearam o consumidor com promoções, descontos e a promessa de um Valentine's Day mais econômico.

Ainda não sei se a tentativa funcionou. O que deu pra perceber é que os restaurantes mais populares estavam cheios e não foi assim tão difícil encontrar uma menina com flores nos braços ao andar pela cidade.

Eu economizei e ainda tive um dia dos namorados pra lá de brasileiro. Feijoada na casa dos amigos, com direito a fogueira pra esquentar e boa companhia - nada de bombons, cartão cor-de-rosa ou flores. E ainda tudo por um precinho bem camarada na onda da vaquinha pra dividir as despesas.

De um jeito ou de outro, brasileiro sempre acha um jeitinho de economizar, se divertir e curtir um carnaval, ou um dia dos namorados, fora de época.

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