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O caráter simbólico da visita de Obama

Alessandra Correa | 00:31, quarta-feira, 23 março 2011

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Como já era esperado, a primeira viagem do presidente Barack Obama à América do Sul não teve grandes resultados práticos. No Brasil, principal destino do presidente americano, nem mesmo na área comercial - descrita pelo governo dos Estados Unidos como o foco principal da agenda, em uma tentativa de justificar a visita para seu público doméstico - houve anúncios de muito destaque, apesar dos 10 acordos firmados.

Obama conquistou o público brasileiro com sua simpatia, fez elogios ao desempenho da economia e à crescente importância do país no mundo e disse que o Brasil é um exemplo de liberdade e progresso, em um recado aos países árabes e muçulmanos que enfrentam revoltas populares, em especial a Líbia.

No Rio - onde também visitou a favela de Cidade de Deus e o Corcovado, acompanhado da primeira-dama, Michelle, e das filhas, Sasha e Malia - Obama fez um discurso bonito, mas longe dos pronunciamentos memoráveis do Cairo, em 2009, ou de Nova Déli, no ano passado. E o desejado apoio explícito à entrada do Brasil como membro permanente em um Conselho de Segurança da ONU ampliado - como o oferecido na visita à Índia - não veio. Restou uma manifestação de "apreço à aspiração" brasileira, incluída no comunicado conjunto de Obama e da presidente Dilma Rousseff sobre a visita.

O presidente americano reconheceu que "está na hora" de os Estados Unidos tratarem o Brasil "de maneira tão séria" como com a China e a Índia nas questões comerciais. Mas, apesar dos avanços ressaltados pelo presidente, o Brasil - e a América Latina - não têm para os Estados Unidos a importância estratégica da China ou da Índia.

A viagem também acabou ofuscada pela crise na Líbia. Obama deu a ordem para a participação americana nos bombardeios ao país durante a visita a Brasília, no sábado. Nos Estados Unidos, a oposição criticou o presidente americano por manter o roteiro - que passou também por Chile e El Salvador - em meio às crises na Líbia e no Japão.

Mas se faltaram resultados imediatos - o que é comum em viagens do tipo -, a visita de Obama foi bem-sucedida em seu principal objetivo: cumprir o papel simbólico de marcar uma nova etapa nas relações bilaterais. Apesar de Estados Unidos e Brasil manterem uma boa relação, houve irritações de ambos os lados nos últimos dois anos do governo de Luiz Inácio Lula da Silva, motivadas por posições divergentes em temas como o programa nuclear iraniano.

Com a visita a Brasília logo nos primeiros meses do mandato de Dilma Rousseff, os dois presidentes tiveram a oportunidade de conversar sobre as diferenças e sobre as possibilidades de cooperação e, como disse a analista Julia Sweig, do Council on Foreign Relations, ajustar o tom da relação.

Michelle Obama terá agenda própria no Brasil

Alessandra Correa | 21:39, quarta-feira, 16 março 2011

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Enquanto o presidente americano, Barack Obama, tem prevista uma intensa agenda política e comercial nos dois dias de sua visita ao Brasil, a primeira-dama, Michelle, deverá cumprir um roteiro próprio em solo brasileiro.



A programação da primeira-dama na capital inclui uma apresentação cultural de jovens brasileiros que participaram de programas de desenvolvimento de liderança patrocinados pelos Estados Unidos.

Segundo a Casa Branca, nesta viagem - que inclui também Chile e El Salvador - Michelle quer dar continuidade "a seus esforços de engajamento com jovens ao redor do mundo".

"Ela vai levar uma mensagem de encorajar os jovens a buscar a distinção acadêmica, ajudar suas comunidades e adotar um papel ativo na construção de laços mais fortes entre seus países e os Estados Unidos", disse nesta quarta-feira o vice-conselheiro nacional de comunicações estratégicas da Casa Branca, Ben Rhodes.

A primeira visita de Obama à América do Sul será uma viagem em família. O presidente e a primeira-dama chegam a Brasília na manhã de sábado, acompanhados das duas filhas, Sasha e Malia. No domingo, no Rio, a família deverá visitar a estátua do Cristo Redentor, no Corcovado.

Os EUA apostam na popularidade de Michelle - em muitos lugares maior do que a do próprio marido - como fator adicional para garantir o sucesso da viagem.

"Ela é extraordinariamente popular no Exterior e é um grande ativo para os Estados Unidos em termos de sua habilidade de se aproximar dos povos desses países", disse Rhodes.

Visita de Obama tem significado mais simbólico do que prático

Alessandra Correa | 05:58, quarta-feira, 16 março 2011

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O presidente Barack Obama desembarca em Brasília neste sábado em uma viagem cercada de significado simbólico. Depois de dois anos marcados por episódios de irritação mútua entre Brasil e Estados Unidos durante o governo de Luiz Inácio Lula da Silva, a visita é vista como uma oportunidade de recomeço nas relações bilaterais.

Como observa Paulo Sotero, diretor do Brazil Institute do centro de pesquisas políticas Woodrow Wilson Center, em Washington, está é a primeira vez que o diálogo bilateral começa no mais alto nível, com o presidente americano viajando ao Brasil. Antes, eram sempre os brasileiros, muitas vezes na condição de presidentes-eleitos, que rumavam a Washington.

As visitas de líderes americanos também eram encaradas de maneira diferente pelos brasileiros. "Antigamente, quando o Air Force One (o avião presidencial dos Estados Unidos) aterrissava em Brasília, parecia que Deus estava chegando", brinca Sotero.

O fato de Obama fazer a viagem no início do mandato de Dilma Rousseff indica, para alguns analistas, não somente a disposição de ambos em retomar a relação, mas também o novo papel do Brasil no mundo, deixando a condição de emergente, com economia forte e atuação destacada em temas não apenas regionais, mas globais.

Se o Brasil antes era visto apenas como parte da América Latina, nesta viagem terá uma agenda separada, com discussões em torno de questões como arquitetura financeira mundial, mudanças climáticas, segurança alimentar e governança. Os temas regionais serão deixados para o Chile e El Salvador, que completam o roteito de Obama.

"Não há dúvida em Washington de que o Brasil é um ator global de grande importância", disse a analista Julia Sweig, do Council on Foreign Relations, em entrevista à BBC Brasil nesta semana.

O presidente americano também chega ao Brasil com o objetivo de ampliar o comércio e os investimentos bilaterais e de olho no potencial energético do país, especialmente após as descobertas de petróleo na camada do pré-sal.

Mas apesar de todo o simbolismo, poucos apostam em resultados práticos imediatos. O mais esperado deles seria o apoio público de Obama à ambição brasileira de conquistar uma vaga permanente no Conselho de Segurança da ONU, assim como o oferecido a outro grande emergente, a Índia, em visita no ano passado.

O endosso americano poderia coroar a pretensão do Brasil de ocupar um papel de mais importância no cenário global. No entanto, alguns analistas consideram essa uma expectativa alta demais.

O mais provável é que apenas seja incluída no comunicado final da visita uma referência à necessidade de reformar o Conselho de Segurança.

No Rio, Obama terá desafio de combinar discursos do Cairo e de Nova Déli

Alessandra Correa | 22:52, quinta-feira, 10 março 2011

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Enquanto se costuram os últimos detalhes da agenda do presidente Barack Obama em sua visita ao Brasil, uma das principais dúvidas permanece sendo o tom do discurso que o líder americano pretende fazer no Rio.

Obama deve escolher um lugar em que possa estar em contato direto com o povo. Já se falou na praia de Copacabana, no Maracanãzinho, na sacada do Teatro Municipal, no Monumento aos Pracinhas e na Marina da Glória, entre outras opções de palco para o discurso.

Mas a ideia do presidente americano de fazer um pronunciamento histórico, como foi o discurso do Cairo, em 2009 - em que relançou as bases do relacionamento dos Estados Unidos com o mundo árabe e muçulmano -, esbarra no fato de que os brasileiros querem ouvir Obama falar do Brasil, e não da América Latina em geral.

A opção, então, seria fazer o discurso sobre a nova fase no relacionamento entre Estados Unidos e América Latina no Chile, segundo país do roteiro - que inclui ainda El Salvador. Nesse caso, porém, o Brasil perderia o papel de cenário do discurso mais importante da viagem.

O presidente emérito do instituto de análise política Inter-American Dialogue, Peter Hakim, resumiu o dilema: "Seu desafio é unir o discurso do Cairo ao discurso de Nova Déli", disse o brasilianista, referindo-se ao pronunciamento feito na Índia, em novembro do ano passado, em que Obama falou dos laços entre os dois países e manifestou seu apoio à candidatura indiana a uma vaga permanente no Conselho de Segurança da ONU.

E é nessa comparação que está o segundo problema do pronunciamento de Obama no Rio: caso ele não diga aquilo que os brasileiros mais querem ouvir - uma manifestação pública de apoio à entrada do Brasil como membro permanente do Conselho de Segurança, assim como a oferecida à Índia - o discurso, por mais inspirado que seja, corre o risco de ser uma decepção.

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O número de visitas de presidentes americanos ao Brasil foi motivo de uma disputa em tom de brincadeira entre diplomatas dos países que irão receber Barack Obama, reunidos em um evento na Heritage Foundation, em Washington.

O embaixador brasileiro, Mauro Vieira, lembrou a longa história de visitas bilaterais, ao afirmar que Obama será o 14º presidente americano a visitar o Brasil. O próximo a falar, o representante chileno, Roberto Matus, brincou com a informação: "O Chile, por diferentes razões, muitas vezes teve inveja do Brasil. Uma nova razão acaba de surgir. Para nós, esta será a terceira visita, e já nos contamos felizes."

Dois anos depois, fechamento de Guantánamo parece cada vez mais distante

Alessandra Correa | 02:38, terça-feira, 8 março 2011

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Dois anos depois de ter assinado um decreto determinando o fechamento - em um prazo de 12 meses - da prisão militar americana da Baía de Guantánamo, em Cuba, o presidente Barack Obama parece cada vez mais distante de cumprir aquela que foi uma de suas promessas de campanha.

O presidente americano acaba de revogar a suspensão de julgamentos militares para os detentos, em vigor havia dois anos. Também anunciou novos procedimentos para manter encarcerados indivíduos sem acusação formal ou condenação, mas considerados perigosos. Eles terão seus casos revisados, segundo a Casa Branca.

Prometeu ainda que não haverá tratamento "desumano ou cruel" na prisão - que se tornou símbolo de abuso de direitos humanos por suas técnicas de interrogatório e por manter suspeitos de terrorismo presos sem acusação formal.

Obama disse que continua comprometido com o fechamento de Guantánamo e com o julgamento de suspeitos de terrorismo em tribunais civis. Hoje a prisão abriga 172 detentos - já foram mais de 700.

Mas os planos do presidente esbarram na resistência do Congresso e de parte da opinião pública. A ideia de trazer suspeitos de terrorismo para julgamento em território americano provocou polêmica e críticas daqueles que diziam temer um aumento dos riscos para os cidadãos do país.

A transferência de prisioneiros de Guantánamo para julgamento nos Estados Unidos acabou bloqueada pelo Congresso - medida que interrompeu os planos do governo de julgar o suposto mentor dos ataques de 11 de setembro de 2001, Khalid Sheikh Mohammed, em um tribunal civil.

A decisão desta semana foi encarada por alguns como uma derrota para Obama, após suas promessas de início de mandato. No momento em que já começa a movimentação para as eleições presidenciais de 2012, poucos acreditam que o presidente irá arriscar alguma medida que possa aumentar a polêmica sobre o tema.

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