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As bicicletas (e as dores de cabeça) de Boris Johnson

Camilla Costa | 2012-07-09, 16:06

Apesar do investimento propagandeado pela prefeitura, Londres ainda não é o paraíso dos ciclistas

O investimento em bicicletas como meio de transporte em Londres mostra que mesmo cidades grandes sem uma forte cultura local de ciclismo podem reverter o quadro. Desde 2008, a prefeitura da cidade, mesmo com as mudanças de governo, mantém a meta de crescimento de 400% do uso de bicicletas como transporte (e não somente para o lazer) até 2025.

Vias expressas para ciclistas foram criadas, assim como estacionamentos especiais em estações de transporte público. Em 2010, uma parceria da prefeitura com o banco Barclays colocou cerca de 6 mil bicicletas para alugar em 400 locais na cidade.

O site oficial de ciclismo da Transport for London também é de fazer inveja a qualquer grande capital. Nele, é possível encontrar as melhores rotas mapeadas por ciclistas, informações completas sobre aluguel de bicicletas na cidade e quais são as linhas de metrô, trem e ônibus em que é possível transportar sua bike.

Mas algo muito importante ainda parece fazer falta: a cooperação dos motoristas. Recentemente, a prefeitura foi alvo de duras críticas por causa do aumento de 33% no número de acidentes envolvendo ciclistas em um ano. É o índice mais alto de acidentes em uma década, acompanhado do maior número de mortes desde 2006.

Ciclistas e motoristas ainda são inimigos em Londres

Os críticos dizem que o problema está em um programa da prefeitura de Boris Johnson para "suavizar o fluxo do tráfico" - que significou retirar semáforos de diversos cruzamentos e rotatórias da cidade.


Coincidentemente, algumas das mortes mais comentadas de ciclistas em 2011 aconteceram nestes locais. Frequentemente, as acusações contra os motoristas são retiradas, porque eles alegam que as bicicletas estavam em seu "ponto cego" na hora do acidente.

Uma representante do Partido Verde na Assembleia Legislativa de Londres foi ainda mais assertiva ao criticar Johnson, dizendo que o prefeito disse aos engenheiros responsáveis pelo planejamento das ruas da cidade que priorizassem o tempo que os motoristas levariam para chegar onde queriam, ao invés da segurança de ciclistas e passageiros.

O debate rende. O aluguel de bicicletas rendeu imagens de uma prefeitura "cool" quando Boris Johnson levou o ex-governador da Califórnia, Arnold Schwarzenegger, para um passeio. Mas até que ponto o investimento no ciclismo em Londres deixou de ser superficial e se tornou uma prioridade do governo?

Pedestre e observadora, posso dizer que vejo com frequência acidentes e quase-acidentes envolvendo ciclistas e pedestres nas ruas mais movimentadas do centro. Mas aqui também é preciso dizer que a imprudência nem sempre é só dos motoristas.

Apesar de ser uma cidade mais organizada para ciclistas do que qualquer uma da América Latina - e menos do que muitas na Europa - é comum ver em Londres ciclistas sem capacete ou proteção. E a ideia de que são só os pedestres brasileiros que não sabem esperar o sinal ou atravessar na faixa também caiu por terra. Nas ruas daqui também tem um certo clima de "salve-se quem puder".

ComentáriosDeixe seu comentário

  • 1. às 06:48 PM em 09 jul 2012, Vitor escreveu:

    Olá, Camilla,

    Achei interessante sua análise, de uma forma geral, das ações com foco em bicicletas em Londres. Mas devo comentar um ponto: o impacto do uso do capacete em mortes e/ou acidentes graves envolvendo bicicletas é extremamente debatido em todo o mundo - e ainda não surgiu um estudo "definitivo" que sugira que esse é o melhor caminho, ao contrário do seu uso por motociclistas e o cinto de segurança em automóveis. Na Holanda e na Dinamarca, por exemplo, a maioria esmagadora dos ciclistas pedala sem capacete e isso não se traduz em mais acidentes fatais ou com graves sequelas.

    Além disso, o que seria a proteção que você sugere no texto?

    Sobre o assunto de capacetes, sugiro dar uma olhada no seguinte texto, que pondera a questão do ponto de vista do não uso (com um link para um texto que defende o uso).

    http://nossoquintal.org/2010/02/04/capacete-e-coisa-que-colocaram-na-sua-cabeca/

  • 2. às 07:53 PM em 09 jul 2012, Patrick Browne escreveu:

    Andei de bicicleta em Londres por cerca de 1 ano. Não acho nem um pouco perigoso, a regra é muito simples. O ciclista que quer ser respeitado deve merecer esse respeito, ao respeitar os outros também. Usar roupas com cores que chamem a atenção, que refletem luz de noite, luzes adequadas, capacete, respeitar os sinais, pedestres (bicicleta também tem que parar para o pedestre na faixa!!), etc.

    O desafio com as "Boris bikes" é que tem muito ciclista de primeira viagem que passeia com a bicicleta na rua sem a mínima noção de respeito com quem divide a rua. Principalmente de noite, quando pessoas bêbadas pegam as bicicletas para voltar pra casa... Já usei mtas vezes de noite (sem ter bebido), mas acho que infelizmente por causa destes, deveriam fechar as estações de bicicleta depois de meia-noite.

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