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Irã, país da juventude

  • Rogério Simões
  • 18/06/2009, 03:35 PM

ira.jpgEm fevereiro deste ano, os iranianos, assim como o mundo exterior, lembraram os históricos acontecimentos de 1979 que levaram à queda do xá Mohammad Reza Pahlevi. As imagens da revolução que transformou o Irã em uma república islâmica não deixavam dúvidas da determinação do povo daquele país. Contra um aparato de repressão que não pensava duas vezes antes de atirar contra manifestantes civis desarmados, a população tomou seguidamente as ruas de Teerã e mudou o curso político do Oriente Médio. O movimento de 1979 mostrou que os iranianos sabem fazer uma verdadeira revolução popular contra um regime ditatorial. O povo persa provou não ter medo de mudança.

Uma semana depois da polêmica eleição presidencial que condedeu quatro anos a mais de mandato ao conservador Mahmoud Ahmadinejad, muitos manifestantes que colorem Teerã de verde começam a falar em uma nova "revolução". Não que o candidato oposicionista derrotado, Mir Hossein Mousavi, queira mudar o regime, longe disso. Mousavi é um político nascido na Revolução Iraniana, foi primeiro-ministro nos tempos do aiatolá Khomeini, e muitos de seus seguidores desfilam pelas ruas com cartazes em que sua foto aparece ao lado das dos líderes supremos Khomeini e Khamenei.

Mas Mousavi promete um Irã mais moderno, com menos restrições à forma de as mulheres se vestirem, uma administração mais profissional da economia e uma atitude um pouco mais amigável perante o Ocidente, especialmente os Estados Unidos. Seu discurso tem um forte apelo principalmente junto aos jovens, que formam a maioria da população iraniana (mais de 50% tem menos de 30 anos), resultado da política de incentivo à natalidade implementada pelo governo revolucionário. O Irã, que já não temia ir às ruas por mudança, é hoje ainda mais jovem.

Uma verdade sobre a juventude em qualquer parte do mundo é o fato de que ela costuma gostar de novidades. E as novidades tecnológicas têm sido um marco desse movimento de contestação ao resultado das eleições. O governo proibiu que a imprensa estrangeira cubra as manifestações, mas a medida não surtiu o efeito que teria uma década atrás. Se BBC, CNN e tantos outros têm seus movimentos controlados pela polícia, os próprios manifestantes viraram os repórteres. Os jovens insatisfeitos que nasceram com a revolução formaram um exército de telefones celulares e câmeras que registram cenas que o regime preferia esconder. Essas imagens têm lotado o YouTube e diariamente chegam às grandes redações do mundo afora, inclusive aqui na BBC. O regime dos aiatolás sabe que é inútil tentar controlar totalmente o fluxo de informações no super jovem Irã e parece estar esperando para saber até quando irá a resistência e determinação dos manifestantes.

A utilização da internet e outras novas tecnologias de comunicação para superar censuras locais não é novidade. Há pelo menos uma década que grupos dissidentes em nações onde há pouca abertura política recorrem ao protesto virtual ou à simples busca de informação online. Anos atrás, uma reportagem da BBC falava sobre como as iranianas usavam a internet para discutir temas banidos, como a relação com o sexo oposto. Outros países onde a possibilidade de uma oposição política organizada é praticamente nula, como a Coréia do Norte e mesmo a China, censuram permanentemente o fluxo de informação do mundo virtual. No Irã, no entanto, a informação consegue achar caminhos alternativos.

É possível que o regime iraniano se recupere da atual crise, e mesmo uma chegada de Mousavi à Presidência não mudaria significativamente a estrutura de poder no país. Mas a juventude iraniana tem mostrado que sabe muito bem como usar a sua capacidade de organização e o poder das novas tecnologias.

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AF 447: Nossa cobertura e nosso erro

  • Rogério Simões
  • 4/06/2009, 06:39 PM

airfrance.jpgA tragédia envolvendo o voo 447 da Air France, cuja viagem entre Rio de Janeiro e Paris terminou no fundo do oceano, atingiu e sensibilizou pessoas ao redor do mundo. Cidadãos de 32 países perderam a vida no acidente, cujas características ainda intrigam especialistas e chocam qualquer um que já tenha cruzado o Atlântico a bordo de uma aeronave.

Diante do desastre, leitores e jornalistas, ainda desprovidos de explicações técnicas para o raríssimo fato de que um Airbus havia simplesmente despencado do céu, buscaram o lado humano dessa triste história. A imprensa foi atrás de perfis das vítimas, informações que foram avidamente consumidas por um público sensibilizado pela perda repentina de mais de 200 vidas. Num momento como esse, o interesse pelas circunstâncias que colocaram cada passageiro dentro do voo da Air France, como o motivo de sua viagem, quem ficou para trás à espera de um telefonema na chegada ou quem se preparava para recebê-los na capital francesa, era imenso. Como uma forma de homenagem às vítimas, ou por simples curiosidade, o lado humano de uma tragédia é sempre um importante material jornalístico.

Além dos nossos repórteres no Rio de Janeiro e em Brasília, que registravam as últimas informações sobre as buscas e teorias para o destino do avião, inicialmente dado como desaparecido, a BBC Brasil dedicou parte de seus esforços de reportagem no exterior à obtenção de informações sobre passageiros, particularmente estrangeiros. O menino britânico de 11 anos
que voltava sozinho do Rio após visitar os pais, o grupo de franceses que havia ganhado a viagem ao Brasil de uma empresa, a espanhola que voltava de lua-de-mel em voo diferente do marido, todas essas histórias mostravam o caráter verdadeiramente internacional do desastre.

Entre elas estava a da família Schnabl. A sueca Christine Badre Schnabl e seu filho Philipe morreram na queda do Airbus A330, enquanto seu marido, o brasileiro Fernando Bastos Schnabl, e a filha Celine fizeram o mesmo trajeto a bordo de um voo da TAM, pousando com segurança em Paris. Mas ao noticiar tal história, nós da BBC Brasil erramos. Erramos por reproduzirmos, sem confirmação, a informação de que a separação do casal em dois voos diferentes se devia ao medo da família de acidentes aéreos. A informação havia sido publicada apenas por um jornal sueco, o Expressen, e ainda não havia sido confirmada pela nossa reportagem em Estocolmo. Mas mesmo assim o nosso texto foi ao ar, não apenas trazendo uma informação vinda de apenas uma fonte, mas também sem explicar no título e no primeiro parágrafo, como deveríamos ter feito, que se tratava de um fato apurado apenas por um outro veículo.

O suposto costume do casal de viajar em voos diferentes dava uma conotação ainda mais dramática e inusitada ao caso, e por isso nosso texto teve grande repercussão, recebendo grande destaque em nossos sites parceiros. No entanto, a separação da família na viagem à França tinha na verdade outro motivo. Quando conseguimos falar com Fernando Schnabl, ele desmentiu a versão do jornal sueco, reporoduzida no dia anterior pela BBC Brasil. A família não tinha medo de voar, apenas estava em aeronaves diferentes devido à necessidade de aproveitar os benefícios de milhas aéreas acumuladas.

A reportagem com o brasileiro, esclarecendo o que realmente havia motivado a separação da família, foi publicada um dia depois do texto anterior. Recebeu no nosso site o mesmo destaque que havia tido a informação errada. Mas nada apaga o fato de que divulgamos, equivocadamente, uma notícia de outro veículo sem a verificação devida, prevista nos princípios editoriais da BBC. Um erro, fruto de um esforço de levar aos leitores as histórias humanas por trás de uma terrível tragédia. Mas, mesmo assim, um erro. Do qual (o nosso leitor pode ter certeza) já tiramos muitas lições.

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Representantes do povo

  • Rogério Simões
  • 28/04/2009, 12:35 PM

commons.jpgOs membros do Legislativo estão sob pressão. A utilização de verbas públicas para benefício próprio, no que é descrito como abuso de regras mal definidas, abalou ainda mais a imagem de parlamentares diante do grande público. Diante disso, o governo e a oposição foram à TV dizendo que uma solução seria encontrada, mas idas e vindas adiaram uma decisão definitiva. Em meio à maior crise econômica mundial desde a década de 30, o Legislativo aparece ocupado debatendo a sua própria remuneração.

Pode parecer incrível que, com o parágrafo acima, eu esteja falando ao mesmo tempo de dois países tão distintos em termos de história, nível de desenvolvimento e poderio econômico: Brasil e Grã-Bretanha. Como se um espelho tivesse sido erguido no centro do Oceano Atlântico, num ponto equidistante entre as costas brasileira e britânica, parlamentares dos dois lados enfrentam constrangimentos semelhantes. E medidas tomadas para resolver tais problemas parecem incapaz de conter a constante perda de credibilidade do Legislativo junto ao eleitorado.

No Brasil, a Presidência da Câmara dos Deputados acaba de limitar a utilização de passagens aéreas pelos representantes do povo, proibindo que o benefício seja passado a parentes e amigos. Mas as irregularidades cometidas até agora foram perdoadas. Já aqui na Grã-Bretanha, os problemas recentes estão concentrados na ajuda fornecida aos membros da Câmara dos Comuns de fora de Londres para que tivessem uma segunda residência que facilitasse sua presença na capital durante a semana. Quando a ministra do Interior, Jacqui Smith, designou a sua casa como "segunda casa" e a casa da irmã, em Londres, como primeira, para garantir o benefício, o esquema foi bombardeado por todos os lados. O fato de o marido da ministra ter visto dois flmes pornôs em casa e colocado a conta nas despesas parlamentares da esposa não ajudou.

Como no Brasil, os parlamentares britânicos e o governo, que aqui é formado totalmente por membros do Legislativo, começaram a se mexer para mudar o sistema e melhorar sua imagem. Mas as emendas tentadas saíram, até agora, muito piores que o soneto. De início, o primeiro-ministro Gordon Brown fez o que sempre se faz nestas terras: passou a uma comissão, o Comitê de Padrões da Câmara dos Comuns, a tarefa de uma solução para o problema. Mas, antes que o comitê terminasse seu trabalho, Brown, de surpresa, apareceu sorridente num vídeo na internet com uma proposta que certamente considerava brilhante: a ajuda de custo para uma segunda casa seria substituída por um adicional no salário pago a cada dia que o parlamentar aparecesse no seu escritório em Westminster.

Não pegou bem. O país inteiro começou a dizer que os parlamentares seriam agora os únicos trabalhadores que, além do salário, ganhariam um extra apenas para dar o ar da graça no emprego. A proposa era para ter sido votada no Parlamento nesta semana, mas Brown, ao perceber que poucos o apoiariam, retirou o projeto. E também o seu time de campo, dizendo que quem cuidaria do assunto seria o tal comitê.

É lógico que temos de lembrar que, considerando-se as realidades brasileira e britânica, se tratam de grandezas bem diferentes. Se passagens aéreas de membros da Câmara dos Comuns tivessem sido usadas por amigos e namoradas de parlamentares ou jogadores de futebol, o regime parlamentar britânico estaria com os dias contados. Mas, proporcionalmente, o descrédito do Parlamento junto ao eleitorado, no Brasil e na Grã-Bretanha, é semelhante. A diferença é como os legisladores dos dois países parecem ver o problema.

Tanto aqui como no Brasil medidas estão sendo tomadas, diante da indignação popular. Mas os deputados brasileiros fizeram questão de reclamar da imprensa, que teria exagerado ao cunhar o termo "farra das passagens". Aqui os parlamentares são mais humildes, dizendo que o eleitorado tem direito de se indignar com qualquer abuso. Mas de uma realidade nenhum deles poderá fugir: em ambos os lados do Atlântico os parlamentares poderão perder seu emprego em breve, já que os dois países terão eleições gerais no ano que vem. Com base nas reações diante da exposição das crises pela imprensa, aparentemente os britânicos têm mais medo do veredicto popular.

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O fim do mundo

  • Rogério Simões
  • 15/04/2009, 05:15 PM

nagasaki.jpgO alerta está em vários lugares, para aqueles que circulam pelo maravilhoso mundo da internet: o mundo acabará em 2012. Uns dizem que não é exatamente o fim do mundo, mas o fim deste mundo que conhecemos, será na verdade apenas uma grande transformação em 21 de dezembro, no solstício de inverno desse fatídico ano. O fato é que tudo teria sido previsto pelos maias, que eram ótimos astrônomos e cujas profecias costumam gerar bons debates na internet ou conversas de botequim.

A tese de um cataclismo de grandes proporções também é abraçada por muitos ultrarreligiosos que esperam por algum tipo de armagedom planejado por ninguém menos que o grande criador do céu e da Terra. O comediante americano Bill Maher, no hilário filme Religulous, em cartaz aqui em Londres, passa pelo tema com todo o deboche possível e faz, ele mesmo, um alerta particular: a crença religiosa no fim do mundo pode um dia fazer com que a humanidade realmente ponha as mãos na massa e acabe de vez com a vida no planeta azul.

A verdade é que, infelizmente, não estamos imunes a isso. Uma destruição lenta e gradual poderá vir com a constante emissão de gases causadores do efeito estufa e o consequente aquecimento global. Mas o homem continua também detentor de meios para destruir o planeta de forma muito mais rápida. Desde a sua estreia no cenário internacional, em agosto de 1945, no Japão, as bombas atômicas nunca abandonaram completamente o papel de pesadelo coletivo da humanidade. Com isso em mente, Barack Obama falou, em sua recente vinda à Europa, de seu plano para "um mundo sem armas nucleares". O presidente americano afirmou que os Estados Unidos têm "responsabilidade moral" para liderar a comunidade internacional na direção desse objetivo, e as novas negociações com a Rússia nessa área seriam o primeiro passo. Um passo para prevenir o fim do mundo.

Poucos especialistas, entretanto, acreditam ser possível eliminar todas as armas nucleares do planeta. Muitos alertam que seria inclusive perigoso, já que bombas atômicas têm também a capacidade de garantir a paz, servindo como instrumento para deter a possível ação de grupos ou líderes fanáticos que quisessem, deliberadamente, causar a maior destruição possível. Sem armas nucleares, o mundo estaria à mercê de qualquer um que voltasse a fabricá-las. As palavras de Obama seriam, então, apenas uma fonte de inspiração, não devendo ser levadas ao pé da letra. Até porque mal elas haviam sido pronunciadas, a perspectiva da destruição total e inconsequente voltou a preocupar uma pequena faixa de terra no extremo leste do planeta, a Península coreana.

A crise envolvendo a comunista Coreia do Norte e o resto do mundo voltou com força total. O recluso regime suspendeu as negociações sobre o seu programa nuclear e retomou o trabalho em suas usinas. Disse que a decisão do Conselho de Segurança da ONU, de condenar o seu lançamento de um foguete, havia sido uma "declaração de guerra". Como o regime norte-coreano não segue os mesmos parâmetros de raciocínio que normalmente se vê em política internacional, é difícil saber o que pode sair da cabeça do seu líder supremo, Kim Jong Il.

O agravamento da crise reforça os argumentos dos que defendem que tanto os Estados Unidos como as outras potências devam manter seus arsenais, já que sem eles perderiam sua capacidade de pressionar ou até mesmo se defender de regimes fanáticos e imprevisíveis. Com isso, permanece viva a tese de que as armas nucleares vieram para ficar, e o Irã, assim como Paquistão e Índia anos atrás, vê-se no direito de, pelo menos, dominar sua tecnologia. As palavras de Barack Obama seriam uma fonte de inspiração, mas, ao pé da letra, não passariam de uma utopia impossível. Visto dessa maneira, o perigo pode não estar em 2012, mas a profecia maia ainda pode um dia se confirmar.

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O nascimento da nova ordem

  • Rogério Simões
  • 30/03/2009, 01:49 PM

g20blog.jpgDepois da tempestade, espera-se pela bonança. Mas, mesmo que ela nunca dê o ar da graça, já é possível identificar, no fim do túnel em que o mundo se encontra, um cenário bem diferente do que temos hoje.

Após um incêndio ter quase destruído o sistema financeiro internacional, numa crise iniciada em 2007, arquitetos já trabalham em uma nova estrutura, enquanto bombeiros ainda lutam contra as chamas. Líderes das 20 principais economias do mundo reúnem-se nesta semana, em Londres, com a missão de dar início à criação de uma nova ordem econômica e política mundial, em substituição àquela surgida após a Segunda Guerra Mundial. Muitos céticos duvidam que se consiga mais do que uma simpática carta de intenções para lidar com os atuais problemas da economia. Mas vários líderes do mundo desenvolvido já admitem: o tempo em que as nações ricas decidiam o futuro do mundo acabou.

Foi o que disse o premiê britânico, Gordon Brown, que passou pelo Brasil e pelo Chile antes de receber os colegas do G20 em sua capital. Apesar de considerado por muitos um dos responsáveis pelos efeitos da crise em seu próprio país, ninguém nega que Brown, ministro das Finanças por dez anos no governo Tony Blair, entende do assunto. Ele fala com a autoridade de quem viu, dos corredores do poder, a globalização se intensificar sem limites por mais de uma década e agora vê seu próprio futuro político ameaçado por suas incongruências (uma eleição no ano que vem ameaça tirá-lo do poder). Por isso o que ele diz merece crédito, mesmo que não seja exatamente uma novidade.

Há muito se fala em aumento do poder dos países emergentes e a transformação do mundo em uma realidade verdadeiramente multipolar. Mas a atual crise econômica parece estar acelerando esse processo, com empresas e governos de países antes considerados subdesenvolvidos ganhando poder e influência. Essa pelo menos é a tese de vários especialistas, entre eles Jim O'Neill, do Goldman Sachs, entrevistado na nossa série especial "BRICs 2020", publicada a partir desta segunda-feira aqui no site da BBC Brasil. O'Neill, que no início da década previu a consolidação de Brasil, Rússia, China e Índia como potências em 2050, afirmou à nossa reportagem que esse processo já estará muito mais claro daqui a 11 anos. A crise global estaria, na sua visão, tirando mais rapidamente dos países desenvolvidos um poder econômico a ser distribuído entre as nações emergentes mais fortes.

Quatro meses atrás, quando resolvemos produzir uma série especial explorando como devem estar os BRICs em 2020, essa realidade não era tão clara. Se tivéssemos entrevistado O'Neil em novembro, quando a série começou a ser produzida, talvez o economista americano não falasse desse processo com tanta convicção. Mas a velocidade do agravamento da crise aumentou a crença de muitos de que, em meio à atual tempestade, o cenário global está mudando de forma mais veloz do que o esperado. A revista The Economist traz inclusive um texto na atual edição que corrobora tal avaliação, mostrando que grandes empresas de países emergentes, a nova geração de multinacionais, continuam se destacando e crescendo apesar da crise.

A BBC Brasil não teve a intenção de prever o futuro. Nossos repórteres foram a vários locais no Brasil, na Rússia, Índia e China para identificar onde está o maior potencial desses países para o ano de 2020 e onde se encontram seus maiores desafios. A força da Rússia na última década, seu potencial energético, pode ser seu calcanhar de Aquiles daqui a 11 anos caso o país não diversifique sua economia. A China aposta na educação, mas acumula uma imagem negativa de vilão do aquecimento global. A Índia pode ter suas ambições prejudicadas se não combater de forma decisiva a pobreza absoluta de grande parte da sua população. O Brasil tem uma chance única em sua história de combinar potencial energético e produção agrícola para se tornar uma potência, enquanto é cada vez mais cobrado na área ambiental.

O G20 pode assumir as rédeas da futura nova ordem internacional a partir do encontro desta semana em Londres. Os quatro BRICs, como maior força dentro da turma dos emergentes, têm muito a ganhar com essa mudança. Talvez até já negociando de igual para igual com os atuais chefes do mundo no ano de 2020.

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Caso Paula e o poder da dúvida

  • Rogério Simões
  • 18/02/2009, 05:35 PM

paula.jpgHá quem não acredite na imprensa. Sei que algumas pessoas dizem não acreditar em praticamente nada do que lêem em jornais, revistas, ouvem no rádio ou vêem na televisão. Tal pensamento representa para nós, jornalistas, um desafio. Mas também deveria servir de inspiração. Afinal, a dúvida, ou muitas vezes até o ceticismo, é uma das maiores armas do bom jornalismo. Qualquer repórter, ao receber no colo uma informação nova, deveria fazer duas coisas: em primeiro lugar, duvidar; em segundo, correr atrás das fontes pertinentes para saber se sua dúvida tem, ou não, fundamento. É preciso se mexer, mas sem abandonar seu papel de questionador.

O caso envolvendo a brasileira Paula Oliveira, que afirmava ter sido atacada por três neo-nazistas na Suíça, deixou o governo brasileiro e boa parte da imprensa do país em situação delicada. O episódio chocou a opinião pública por causa da tortura que teria sido aplicada, com cortes em várias partes do corpo da vítima, e porque o suposto ataque teria provocado o fim de uma gravidez de gêmeos. Mas pouco depois peritos suíços comprovaram que Paula não estava grávida no dia em que disse ter sido agredida e disseram que os cortes podem ter sido infligidos por ela mesma. Na terça-feira, dia 17, a advogada foi indiciada e impedida de deixar a Suíça, sob acusação de "induzir autoridades ao erro".

O problema da maioria da cobertura jornalística desse caso no Brasil foi a falta de dúvida de muitos jornalistas. As palavras ditas pelo pai da suposta vítima foram apresentadas por grande parte da mídia como a verdade absoluta. Para piorar, o governo brasileiro as abraçou completamente e as revendeu a veículos de imprensa, entre eles a BBC Brasil, como um fato comprovado e digno do selo presidencial.

Nós, aqui na BBC, somos pagos para duvidar. Constantemente a BBC se vê no dilema entre dar uma notícia rapidamente ou esperar alguma confirmação adicional. Nossa obrigação é optar pela confirmação, o que faz com que a BBC pareça "lenta" em algumas notícias levadas ao ar imediatamente por outros veículos. No caso da brasileira na Suíça, nós ficamos sabendo do suposto ataque na noite de quarta-feira, dia 11. "Quem está dando a notícia?", perguntei ao redator que me ligara de São Paulo para a redação aqui de Londres. "Está na TV." Fomos checar em agências de notícias, e nada. A parte em inglês da BBC desconhecia. Aqui, se o caso não foi apurado diretamente por nós, precisamos de pelo menos duas fontes para publicá-lo no site ou levá-lo ao ar. Ou alguma fonte de credibilidade a que possamos atribuir as informações. Mas não tínhamos nada isso e não podíamos nos basear apenas num canal de televisão, que por sua vez se baseava em um blog. Preferimos esperar para saber se o governo brasileiro se pronunciaria sobre o assunto.

Ainda naquela noite, depois de falar com um porta-voz do Itamaraty, publicamos nosso texto. Atribuímos tudo ao Ministério das Relações Exteriores. Em nove curtos parágrafos, nosso redator Caio Quero teve o cuidado de dizer seis vezes que o Itamaraty era o responsável pelas informações. O texto ainda se referia aos agressores como "supostos neonazistas". Foram cuidados editoriais importantes, que resultaram em um texto correto. O governo brasileiro estava divulgando um caso chocante como verdade, o que era uma notícia que não poderíamos ignorar. Mas não apresentamos nada como fato consumado. Tudo o que descrevemos eram hipóteses, tudo era "segundo o Itamaraty". Onde poderíamos ter feito melhor foi no título. "Brasileira grávida de gêmeos é agredida na Suíça e perde bebês", dissemos. Mas o melhor teria sido algo como "Brasileira diz ter sido agredida na Suíça e perdido bebês" ou "Itamaraty denuncia agressão a brasileira na Suíça".

Na manhã seguinte, ao chegar à redação fui informado que nosso repórter em Berlim, Marcio Damasceno, nos alertava para o fato de que na Alemanha uma mulher havia sido condenada por acusar neonazistas de atacá-la, quando na verdade ela mesma tinha se cortado. Não publicamos isso, mas a informação serviu como um fator a mais para alimentar nossa dúvida. Confesso que fui pego de surpresa. Apesar do cuidado da noite anterior, minha tendência naquele momento era achar que a história fosse verídica. Ficamos então ainda mais atentos para não abraçá-la indevidamente. O caso segue sendo investigado na Suíça, e ainda não está provado se o suposto ataque ocorreu ou não.

O episódio traz certamente muitas lições para a imprensa. No caso da BBC Brasil, olhando para trás sempre se pode dizer que poderíamos ter feito melhor. Mas acredito que fizemos, em grande parte do processo, o que todo jornalista deveria quando se depara com um fato novo em suas mãos: duvidar sempre, enquanto corre atrás dos fatos para esclarecer sua dúvida.

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Ainda o novo site

  • Rogério Simões
  • 17/02/2009, 12:02 PM

Uma rápida mensagem em resposta a novos comentários deixados no nosso fórum. Várias ferramentas e funções de que alguns leitores estão sentindo falta serão aos poucos introduzidas neste nosso novo site. Entre elas, links para as principais matérias do dia, informações sobre os textos mais lidos e dados do mercado financeiro. Novos blogs também estão a caminho, nos quais contaremos com a sempre bem-vinda participação de vocês. Mais uma vez, obrigado pelos elogios, críticas e sugestões.

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O leitor e a nova BBC Brasil

  • Rogério Simões
  • 10/02/2009, 05:05 PM

bbcbrasilsite.jpgNós pedimos, e nossos leitores responderam. Após cinco dias, mais de 400 internautas já participaram do nosso fórum para dizer se gostaram ou não do nosso novo site, lançado no último dia 4. Li com atenção cada um dos comentários e agradeço, em nome da nossa equipe, por todas as opiniões expressadas.

Não chegamos a fazer ainda um levantamento científico, mas aparentemente o novo site foi aprovado pela maioria dos que colaboraram. Entre 60% e 70%, acredito. Mas isso é menos importante. O que interessa mesmo é que os nossos internautas, sejam eles novos leitores ou companheiros de muitos anos, nos deram valiosos pontos de vista sobre as mudanças, em que pontos acertamos, onde erramos e o que ainda pode melhorar.

Aqueles que já o aprovaram, destacaram o aspecto visual do site e algumas mudanças na oferta do conteúdo. Lindo, limpo, moderno, claro, de fácil navegação, leitura mais fácil, com mais vídeos e mais espaço foram comentários comuns entre os internautas satisfeitos com nosso novo visual. Os que não gostaram reclamaram do fundo branco (seria claro demais), disseram ter dificuldade em navegar pelo conteúdo, acham o novo site desorganizado e sentem saudade da antiga versão. Como muitos carinhosos leitores escreveram, em time que estava ganhando nós não deveríamos ter mexido.

Àqueles que pediram o retorno ao modelo anterior, sinto dizer que o novo site da BBC Brasil veio para ficar. A mudança atende a uma necessidade de oferecermos aos internautas um conteúdo mais amplo, com mais vídeos, mais interatividade e um desenho gráfico que reúne as mais recentes inovações na internet, abraçando e melhorando o que já havia de bom nos novos padrões de sites de notícias, sem abandonar a qualidade BBC. Mas o novo site da BBC Brasil está apenas engatinhando. Nos próximos dias, semanas, meses e anos, estaremos melhorando o nosso endereço na rede constantemente, buscando outras formas de acrescentar conteúdo, flexibilizar ainda mais o desenho das páginas e oferecer novas ferramentas aos leitores.

Algumas dessas melhorias devem chegar muito em breve. Muitos internautas reclamaram da falta de agrupamento dos textos por temas, o que já estava previsto no projeto e está sendo finalizado por nossa equipe técnica. Isso atenderá a um outro pedido de muitos leitores: o agrupamento das colunas antigas de Ivan Lessa e Lucas Mendes. Outros pediram mais interatividade, com a possibilidade de o leitor comentar qualquer matéria. Temos isso como objetivo, mas ainda demorará um pouco mais por depender de questões técnicas mais difíceis. Mas teremos em breve informações sobre quais foram os textos mais lidos e links para reportagens de outros sites brasileiros, além de outros pequenos avanços que os desenhistas e técnicos seguem desenvolvendo.

O fórum sobre nosso novo site continua aberto, e a opinião de todos será sempre bem-vinda. O nosso site passará a oferecer cada vez mais alternativas de desenho e conteúdo: manchetes poderão ter um vídeo próprio, galerias de foto poderão ocupar a Primeira Página, e novos blogs, como o recém-criado BBC Tendências e os futuros blogs sobre Brasil e economia global, aumentarão ainda mais nosso contato direto com o leitor.

Essa grande mudança que fizemos, após um trabalho de muitos meses das nossas áreas editoral e técnica, visa oferecer ao público brasileiro um produto melhor, mais moderno, mais rico em informação e opções, mantendo os valores de equilíbrio, precisão e imparcialidade da BBC. A BBC Brasil, na essência, continua a mesma. Mas trabalharemos sempre para produzir um site cada vez melhor.

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Tempos de guerra

  • Rogério Simões
  • 4/02/2009, 10:37 AM

francagreve.jpgPrimeiro foram as bolsas de valores, que em meados de 2007 começaram a registrar algumas quedas acentuadas. Alguns bancos viram-se em maus lençóis, como o britânico Northern Rock, que quebrou ainda naquele ano. Era a crise do crédito, que derrubaria também o gigante americano Bear Stearns. Outras megafalências vieram, especialmente no setor financeiro e de hipoteca dos Estados Unidos, até que o banco Lehman Brothers ruiu, em setembro de 2008. A crise agora englobava praticamente todos os aspectos do sistema financeiro. Com a falta geral de dinheiro, exportações e importações mundo afora encolheram, e taxas de crescimento despencaram. O problema passou a afetar a economia global.

A crise agora chegou às ruas. Trabalhadores, estudantes e aposentados vêm realizando protestos, enfrentando a polícia ou simplesmente cruzando os braços na França, Grécia, Grã-Bretanha, China. O regime comunista/capitalista chinês teme pelo futuro do país, em meio a uma crescente onda de manifestações em várias cidades, geralmente não registradas pela imprensa local. Na Europa, um ano atrás líderes nacionais falavam da necessidade de reformas para modernizar seus Estados. Hoje o medo é que tais mudanças não apenas sejam impensáveis, mas que protestos de desempregados e de trabalhadores temendo perder sua vaga causem verdadeiras convulsões sociais. Na França, uma greve geral mostrou ao presidente Nicolas Sarkozy que o país pode viver novos momentos de grave tensão nacional.

Os motivos da insatisfação crescente estão geralmente ligados ao drama de se acabar no olho na rua. Na Espanha, a crise econômica já elevou a taxa de desemprego nacional para além dos 14% da população economicamente ativa. Poderá chegar a 20%. Muitos culpam a globalização, esse fenômeno tão debatido nas últimas duas décadas que faz com que uma decisão política ou econômica na China tenha impacto na periferia da Cidade do México. Tanto capital financeiro como empregos têm pulado de um canto do mundo para outro com uma rapidez nunca antes vista, num processo que elevou a riqueza em praticamente o mundo todo, mas aumentou os riscos.

A situação mudou, e muitos agora rejeitam a idéia de um mundo globalizado, sem fronteiras, sem muito controle, sem proteção. Os trabalhadores de refinarias britânicas que cruzaram os braços nos últimos dias protestam contra a chegada de empregados de outros países europeus, que na sua visão têm tomado seus empregos no setor, invadido por empresas estrangeiras. Cobram do premiê Gordon Brown a promessa de "empregos britânicos para trabalhadores britânicos". O presidente Barack Obama prometeu, no pacote econômico que espera ver colocado em prática em breve, o incentivo para que consumidores americanos "comprem produtos americanos". Em entrevista exclusiva ao repórter Gary Duffy da BBC, publicada aqui na BBC Brasil, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva criticou a medida. A Comissão Européia também e já ameaça com retaliações. A China acusa os Estados Unidos de se render ao protecionismo, e Washington rebate dizendo que a China mantém sua moeda artificialmente desvalorizada para elevar suas exportações.

Primeiro o crédito se foi, os bancos quebraram, e o mundo ficou sem dinheiro. Depois milhões perderam seus empregos. Agora os trabalhadores vão às ruas, enquanto todos os países tentam vender, mas ninguém quer comprar. Alguns líderes políticos e organismos internacionais tentam colocar panos quentes, pedem calma e acenam a bandeira branca. Mas nas ruas e nas relações comerciais, muitos já se preparam para tempos de guerra.


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Uma semana de Obama

  • Rogério Simões
  • 29/01/2009, 10:09 AM

obamapresidente1.jpgDe que serve uma semana? Muitas vezes, ela passa voando, e tem-se a impressão de que não foi possível fazer nada. Mas há quem acredite que sete dias foram suficientes para se criar o mundo... E o presidente Barack Obama? O que conseguiu fazer em sua primeira semana na Casa Branca?

Primeiro, a posse de Obama foi repleta de imagens memoráveis. Os milhões nas ruas de Washington, Aretha Franklin cantando, Obama gaguejando no juramento, músicos clássicos tocando sobre um play back. E um discurso presidencial que deveria ter comovido até os mais céticos, mas deixou muitos se perguntando o que exatamente Obama queria dizer com o que disse. Diante daquele 20 de janeiro de 2009, que já havia entrado para a história mesmo antes de ter acontecido, o mundo só queria saber agora como seria o novo governo Obama. Havia chegado a hora da verdade.

Quem esperava por uma mudança clara de rumo não se decepcionou. Nos seus primeiros oito dias de expediente no Salão Oval, Obama interrompeu os julgamentos na prisão de Guantánamo, anunciou seu fechamento definitivo em até um ano, suspendeu a proibição de ajuda a entidades que apoiem o aborto, introduzida por George W. Bush, mudou várias políticas de Bush na área ambiental (sob aplausos de ambientalistas e do governador californiano, Arnold Schwarzenegger), enviou ao Oriente Médio seu representante para a região, deu uma entrevista a uma TV árabe para dizer que os Estados Unidos não são inimigos do mundo islâmico e conseguiu aprovar na Câmara um pacote de ajuda econômica de mais de US$ 800 bilhões. Ah, Obama ainda teve tempo de ligar para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e elogiar o trabalho do Brasil na área de biocombustíveis. Ufa.

Se a expectativa em torno do novo presidente americano já era grande, após uma semana repleta de ações de destaque ela deverá crescer ainda mais. Fim do embargo econômico a Cuba, normalização das relações com o Irã, paz definitiva entre Israel e palestinos, saída rápida para a maior crise econômica desde a Segunda Guerra Mundial, redução da emissão de gases poluentes, pacificação definitiva do Iraque e do Afeganistão... Os mais otimistas acham que Obama dará ao mundo tudo isso e muito mais. Sua inicial contribuição, entretanto, não foram as medidas, mas a sensação de que na Casa Branca existe hoje alguém claramente tomando decisões, trabalhando.

Pode-se esperar que as próximas semanas não repetirão a dose, especialmente diante dos entraves que costumam surgir na vida de qualquer governante e cuja superação não depende necessariamente dele. No Oriente Médio, o comportamento do governo americano tem enorme peso, mas o futuro próximo das relações entre Israel e palestinos depende muito mais das eleições israelenses, daqui a poucos dias. A economia ainda dará muito trabalho a Barack Obama, e combater o aquecimento global é uma tarefa muito mais difícil do que a sedutora fala do presidente americano muitas vezes dá a entender.

De qualquer forma, o mundo já vê uma grande diferença entre a nova gestão e o governo Bush, desacreditado e pouco operante em seus últimos meses e indeciso e dividido em boa parte de seus oito anos. A sensação que fica após uma semana é a de um governo com sede de realizações. Sabe-se, entretanto, que tal ritmo dificilmente será mantido. Apenas no longo prazo será possível avaliar o verdadeiro impacto de Barack Obama e seu prometido governo de mudança.

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Boa sorte, presidente Obama

  • Rogério Simões
  • 19/01/2009, 04:09 PM

obamaportrait.jpgAdeus, George W. Bush. Bem-vindo, Barack Hussein Obama. A mudança de comando nos Estados Unidos não poderia ser mais radical nem acontecer num momento mais dramático da história americana. O ano de 2009 começou com notícias ainda mais negativas no cenário econômico doméstico, assim como em outros países desenvolvidos ou em desenvolvimento. Também começou com mais um sangrento capítulo da guerra entre árabes e judeus na Terra Santa. Se o mote da campanha do candidato Obama foi "esperança", ou a "audácia da esperança", como diz um dos seus livros, este ano novo já mostrou o tipo de desafio que espera esse sentimento.

"Sim, nós podemos", dizia Obama. Inicialmente, a frase estava ligada à hercúlea tarefa de colocar pela primeira vez um negro na Casa Branca. Mas e agora? O que poderá mesmo fazer o presidente Barack Obama? Por pouco o presidente da esperança não teve sua posse prejudicada por frescas imagens de corpos de crianças palestinas mortas pelos tanques israelenses. Israel concordou com a tese de um cessar-fogo unilateral, seguido por uma trégua do grupo Hamas, e o mundo pode agora concentrar suas atenções nas festas em Washington DC. Mas o conflito na Faixa de Gaza foi apenas interrompido. Não foi vencido, nem perdido. Por ninguém. O que sobrou foram as imagens de devastação. Palestinos e israelenses continuam em compasso de espera. À espera de Obama.

O presidente Bush talvez tenha sido o maior amigo que Israel já teve, como políticos israelenses gostam de lembrar. Mas também abraçou oficialmente a idéia de um Estado palestino existindo ao lado de Israel. E fez várias viagens ao Oriente Médio, encontros, conferências, reuniões. A última, no final de 2007, em Annapolis (EUA), visava obter um acordo sobre a criação do Estado palestino em 12 meses. Não chegou nem perto. Vem Obama, e com ele a esperança. Mas um lugar onde o discurso do novo presidente ainda custa a ter efeito é o Oriente Médio. Israelenses, que perdem o amigo Bush, não sabem direito o que esperar do sucessor. Palestinos, com seus mais de 1.200 mortos em Gaza, seguem sem motivos para confiar em um futuro melhor.

Obama pode dar aos americanos e a grande parte do mundo um futuro melhor, de mais diálogo, numa nova relação entre o governo americano e seus cidadãos e entre a Casa Branca e a comunidade internacional. Ele pode até acabar repetindo Franklin Roosevelt e conseguir, com o tempo, recolocar a economia dos Estados Unidos nos trilhos. Mas resolver o conflito entre Israel e os palestinos poderá ser ainda mais difícil. As fronteiras indefinidas de Israel, os assentamentos judaicos em terras palestinas, as divisões internas palestinas, os mísseis do Hamas, os bombardeios israelenses, a polêmica sobre o futuro de Jerusalém... Tantos problemas teriam de ser solucionados nos próximos quatro (ou oito) anos. Esperança, infelizmente, não será suficiente. Boa sorte, presidente Obama.

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A imprensa longe de Gaza

  • Rogério Simões
  • 9/01/2009, 06:19 PM

gazaescombros.jpgHá poucos jornalistas hoje na Faixa de Gaza. Duas semanas depois de Israel lançar uma ampla campanha militar contra o território palestino, com bombardeios aéreos e invasão terrestre, com o declarado objetivo de interromper lançamentos de misseis do grupo Hamas, a imprensa estrangeira segue vetada. BBC, CNN, ITV, ABC, NBC, CBS, The New York Times, The Times, The Guardian, Le Monde, El Pais, a imprensa brasileira, argentina, japonesa etc, as agências internacionais, enfim, os grandes veículos de mídia estão limitados ao trabalho dos seus poucos correspondentes locais já baseados em Gaza.

Israel alega proibir a entrada de jornalistas estrangeiros por uma questão de segurança. Mas, quanto mais complexos tornam-se os eventos dentro do território, maior a necessidade de que jornalistas tenham acesso aos fatos, em um conflito que dia-a-dia desafia a política e a diplomacia. Acusações são feitas, pontos de vista conflitantes são apresentados, e a imprensa não pode cumprir o seu papel de tentar mostrar ao mundo o que realmente acontece no campo de batalha.

Nas mais recentes polêmicas, aparece, de um lado, o governo israelense. Do outro, as Nações Unidas, a Cruz Vermelha Internacional e outras entidades humanitárias, como a Oxfam. A ONU abandonou a assistência a civis palestinos, alegando que funcionários seus foram mortos pelas forças israelenses enquanto tentavam fazer seu trabalho. No mesmo dia, a Cruz Vermelha acusou Israel de não cumprir sua responsabilidade de ajudar civis sobreviventes de confrontos, depois que crianças palestinas foram encontradas junto aos corpos de suas mães, mortas em um ataque. Bombardeios mataram dezenas de civis ao atingir duas escolas da Organização das Nações Unidas, que também acusa Israel de bombardear um abrigo de refugiados, matando outras 30 pessoas, depois de tê-los evacuado de suas casa e os dirigido para o local. A Anistia Internacional acusou os dois lados de abusos contra a população civil palestina.

O governo israelense tem rebatido as acusações, mas promete investigá-las. Israel diz ainda que o Hamas tem usado civis palestinos como escudos humanos e que membros do grupo, ou pessoas ligadas a ele, têm interesse em associar o país a supostos crimes de guerra. Israel não chega a acusar a ONU ou a Cruz Vermelha de associação com o Hamas, mas sabe-se que os organismos internacionais de ajuda são vistos com suspeita pelo governo israelense. E a imprensa internacional? Continua proibida de entrar na Faixa da Gaza, limitada a um pequeno número de bravos repórteres locais, sem recursos suficientes para verificar o que realmente acontece no território.

Toda grande potência militar tenta, durante uma guerra, controlar o fluxo de informação nas áreas que domina. Na Guerra da Bósnia (1992-1995), os sérvios impediam a entrada de jornalistas ocidentais a leste de Sarajevo. No Iraque, os Estados Unidos praticamente exigiram que repórteres estivessem com suas tropas para poder trabalhar. Quem agisse de forma independente corria o risco de ser morto, como aconteceu com o britânico Terry Lloyd. Mas nesses conflitos, como em muitos outros, jornalistas seguiam fazendo o possível para cobrir os conflitos, circulando por áreas de combate, mesmo sabendo que poderiam perder a vida.

A diferença em Gaza é que se trata de uma área mínima, cercada pelo mar, por Israel e pelo Egito, que não quer problemas em seu território e mantém suas portas fechadas. Neste conflito, Israel define quem entra e quem sai. A população civil não sai. Jornalistas não entram. Israel fechou a Faixa de Gaza para jornalistas porque pode fazê-lo, porque seu controle sobre o território lhe permite esse poder sobre a informação. Outros países provavelmente fariam o mesmo, porque controlar a informação é vital em uma guerra. Pode definir seu resultado. Vence com isso a lógica militar, mas perdem a opinião pública, os feridos e as famílias dos mortos, que gostariam que as acusações de atrocidades, possíveis crimes de guerra e supostos erros cometidos em Gaza fossem devidamente, e rapidamente, esclarecidos.

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As razões da guerra em Gaza

  • Rogério Simões
  • 5/01/2009, 11:34 AM

gaza.jpgOs defensores da ação militar de Israel contra a Faixa de Gaza, entre eles membros do seu governo, têm há dias repetido o mesmo discurso: nenhum país do mundo aceitaria ser atingido diariamente por dezenas de mísseis lançados por um grupo inimigo. Israel, segundo esse raciocínio, foi obrigado a reagir a uma provocação do palestino Hamas. Algo tinha de ser feito.

No século 19, o general da Prússia Carl von Clausewitz desenvolveu, em seu livro Da Guerra, a idéia de que a guerra não é um fim em si mesmo, mas um meio pelo qual um ator político impõe sua vontade sobre outro. Seria a "continuação da política por outros meios", considerando que por trás de uma operação militar estaria uma decisão consciente, racional, de se adotar um projeto de Estado para derrotar um oponente. Trata-se do conceito tradicional de guerra, abalado pelos inúmeros conflitos das últimas décadas envolvendo atores não-governamentais e soldados irregulares, em confrontos assimétricos e imprevisíveis na Europa (Bósnia), África (Congo, Ruanda, Uganda etc) e Ásia (Afeganistão, Chechênia).

Mas o raciocínio de Clausewitz continua vivo, ou deveria, nos casos de conflitos que envolvem Estados constituídos, especialmente os democráticos. Pelo menos é o que imaginam os analistas que, em artigos em jornais e revistas e aparições na televisão, têm tentado entender a verdadeira razão pela qual Israel lançou sua ira sobre a Faixa de Gaza, um lugar onde 1,5 milhão de pessoas vivem praticamente sem comida, sem remédios e agora sob chuvas de bombas. E sem ter para onde fugir. Seria a necessidade de reagir aos mísseis do Hamas, assim como o bloqueio a Gaza, parte de uma política de Estado, como imaginava Clausewitz? Ou estaria essa guerra ligada à necessidade de um governo de se fortalecer semanas antes das eleições gerais no país? Seria o bombardeio de Gaza benéfico para o próprio Estado de Israel e para a região? Para as negociações de paz com a Autoridade Nacional Palestina? Para o futuro das relações entre israelenses e seus vizinhos palestinos, dois povos condenados a viver eternamente lado a lado?

Os que criticam o governo e o Exército de Israel dizem que essa ação militar não levará a lugar algum. Ou melhor, levará ao fortalecimento do grupo Hamas entre os palestinos, da mesma forma como o xiita Hezbollah foi elevado à categoria de grupo militante herói após os bombardeios israelenses no Líbano, em 2006. Certamente haverá custos desagradáveis. Jonathan Freedland, do The Guardian, diz que Israel não tem estratégias para a paz, apenas para a guerra. Ou seja, a razão israelense seria uma razão militar e não política. A guerra seria um fim em si mesmo, uma reafirmação do poderio bélico de um país que nasceu sob o ataque dos seus vizinhos e vê na sua sobrevivência a necessidade de um eterno embate com o mundo exterior. A política e a democracia israelenses viriam do conflito armado, e não o contrário. Clausewitz ao inverso: a essência da existência de uma nação seria a guerra, e a política existiria como sua continuação.

Israel sabe que não pode simplesmente aniquilar o Hamas, e se o fizesse poderia surgir em seu lugar um outro grupo, ainda mais radical. A ocupação do sul do Líbano, no início dos anos 80, visava derrotar um inimigo palestino, a OLP de Yasser Arafat. Acabou resultando no surgimento do Hezbollah. As razões da guerra em Gaza são legítimas sob os olhos de uns, mas insuficientes sob os olhos de outros. Parecem mais ligadas a uma necessidade de reagir, ao curto prazo, ao imediatismo determinado pelo medo. O raciocínio de Clausewitz, baseado numa lógica política, sugere que uma guerra deve ser buscada quando se pretende atingir uma vitória absoluta e, conseqüentemente, conquistar um posterior estado de paz. Com sua ação militar em Gaza, centenas ou milhares de mortos depois, não importa, é bem possível que Israel não consiga nem uma coisa nem outra.

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Tiros da polícia

  • Rogério Simões
  • 9/12/2008, 12:28 PM

atenas2.jpgA capital da Grécia, Atenas, foi transformada em palco de guerra. De um lado manifestantes, muitos deles armados com paus e pedras, e do outro a tropa de choque da polícia local. O motivo dos violentos protestos: a morte de um garoto de 15 anos, Alexandros Grigoropoulos, atingido no fim-de-semana por um tiro disparado por um policial.

Muito longe dali, em Brasília, pouco antes do jogo decisivo do Campeonato Brasileiro, um outro rapaz, Nilton César de Jesus, de 26 anos, levava um tiro da polícia na cabeça. Em coma induzido, nesta terça-feira ele continuava entre a vida e a morte. Um comandante da Polícia Militar apareceu na segunda-feira na TV dizendo que se tratava de um erro pessoal, de um sargento. Nada que possa ser associado à corporação como um todo, disse ele. O uso de armas de fogo em situação de protestos ou tumultos, ainda segundo o comandante da PM, não era recomendado.

Dois jovens, dois tiros da polícia. Duas histórias bem diferentes. Na Grécia, o caso ameaça o governo. O primeiro-ministro, Costas Karamanlis, tem discutido com o presidente, Karolos Papoulias, como sair da crise gerada pelo assassinato. No Brasil, onde tiros são dados e recebidos com uma chocante naturalidade, o incidente em Brasília foi apenas mais um fato do cotidiano.

Logicamente, os gregos são uma sociedade muito mais combativa do que a brasileira, inventaram a democracia, apesar de a própria ser bastante conturbada, e estão descontentes com vários aspectos do governo atual, entre eles o impacto da crise econômica global no país. A morte do jovem pode ser apenas a gota d'água para uma população já há muito insatisfeita. Mas nada muda o fato de que, pelo menos em tese, policiais que enfrentam tumultos não deveriam nem portar armas de fogo, quanto mais dispará-las. Na Grécia, um deles usou e matou. Provocou dias de fúria em vários pontos do país. No Brasil, o policial responsável foi detido. Caso (aparentemente) encerrado.

Com mais esse exemplo de como o mundo constantemente nos apresenta realidades diferentes, ou incrivelmente opostas, eu me despeço de 2008. Daqui a poucas semanas teremos um novo ano, com um novo presidente americano, uma crise econômica ainda mais aguda e certamente muitas surpresas. Que venha 2009. Até lá.

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Instável mundo novo

  • Rogério Simões
  • 27/11/2008, 12:04 PM

tajmahal.gifDias atrás falei aqui sobre o mundo emergente, cuja influência econômica e política deverá aumentar ainda mais nos próximos anos. Pouco depois, o Conselho Nacional de Inteligência (NIC), que coordena o trabalho das agências de inteligência americanas, admitiu o que vários analistas já dizem há anos: o poder dos Estados Unidos diminuirá progressivamente,, dando lugar a novos atores políticos.

O que o relatório também diz é que esse mundo novo traz muito mais riscos e incertezas, à medida que regiões instáveis adquirem mais influência. Quanto a riscos, muitos diriam que demasiado poder nas mãos de apenas uma potência, como os Estados Unidos, também é algo arriscado (guerra do Iraque, por exemplo). Mas poucos discordam a respeito das novas incertezas, sendo que os ataques na cidade indiana de Mumbai são seu mais recente exemplo.

A Índia, ao lado da China, tem sido um dos maiores motores de crescimento na economia mundial. Mesmo em tempos de crise global, a economia indiana avança a uma taxa de 7,5% por ano (queda significativa em relação aos 9% que vinha registrando, mas ainda impressionante). Mumbai é hoje um dos maiores centros financeiros do mundo, atraindo empresários e investidores de todos os cantos do planeta. Ao lado de Brasil, Rússia e China, os outros três integrantes do Bric, a Índia representa o futuro, uma das novas faces do poder econômico e político internacional. Mas o que uma ação terrorista como a desta semana, em nove pontos da sua capital financeira, com duração de dias e pelo menos 140 mortos, representa para um mundo em transformação?

Dos quatro países do Bric, apenas Brasil e Índia são democracias relativamente consolidadas. Desde a década de 90 os russos escolhem seus líderes pelo voto direto, mas anos de Vladimir Putin no comando garantiram o que ele mesmo chama de democracia no estilo russo, em que o poder tem dono, é centralizado e não deverá ser compartilhado tão cedo. Na China, não é preciso nem dizer: o Partido Comunista não pretende abrir o regime num futuro próximo. Essas duas novas potências mundiais não têm os princípios ocidentais de democracia como parte de seu DNA. Isso não deve ser visto necessariamente como um problema grave, mas torna o novo cenário global mais difícil de ser previsto.

Entre as democracias do Bric, o Brasil tem grandes problemas internos (criminalidade, pobreza, corrupção, infra-estrutura deficiente...), mas suas instituições têm demonstrado significativa maturidade. Nenhum grupo armado pretende derrubar o governo brasileiro, não há conflito gerado por diferenças religiosas, e eleições diretas tornaram-se uma rotina bem organizada. Já na Índia, atentados sangrentos têm sido uma constante (um mês antes dos ataques em Mumbai, dezenas de pessoas foram mortas no nordeste do país), e há graves conflitos religiosos. A Índia tem um arsenal de armas atômicas e uma relação delicada com um vizinho, o Paquistão, também uma potência nuclear.

Nos últimos anos, a Índia vem se integrando à economia global, abrindo suas portas para investimentos. Um acordo nuclear com os Estados Unidos parecia aproximar ainda mais Nova Délhi da política do Ocidente. Mas, como os atentados em Mumbai sugerem, o crescimento do poder da Índia vem com inúmeros riscos. O caderno G2 do jornal britânico The Guardian nesta sexta-feira traz o título "O fim do sonho de Mumbai". Dentro, uma reportagem do escritor Amit Chaudhuri fala sobre os problemas sociais da cidade, em que pobreza e riqueza extremas convivem lado a lado, numa combinação explosiva. Comunidades muçulmanas na Índia sentem-se discriminadas, a aproximação do governo com os Estados Unidos gera ódio em alguns grupos locais e regionais, e o vasto país, com 1 bilhão de habitantes, é um alvo fácil para radicais que queiram cruzar suas fronteiras e desestabilizar o status quo político ou econômico. E nunca é demais repetir: o país tem um arsenal de armas atômicas. Um quadro no mínimo preocupante para uma das novas grandes forças deste nosso instável mundo novo.

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