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Rastros portugueses

Thomas Pappon | 2011-06-13, 12:08

Instigado por uma galeria publicada recentemente na BBC Brasil sobre Hiroshima, fui parar no site da Wikipedia em inglês sobre Nagasaki, a outra cidade que foi completamente destruída por uma bomba atômica jogada por americanos no final da Segunda Guerra.

Ali fiquei conhecendo alguns fatos interessantíssimos – partindo do pressuposto de que as informações ali são corretas, pelo menos não achei motivo para duvidar delas. São fatos que não têm nada a ver com a tragédia de 9 de agosto de 1945, mas com o surgimento da cidade portuária no extremo sul do Japão.

Nagasaki era uma pequena aldeia de pescadores, até a chegada , em 1543, de navegadores portugueses. Estes transformaram a aldeia em uma cidade, em um importante pólo comercial e um dos mais importantes portos na rota entre o Japão e o resto do mundo.

Transformaram Nagasaki também em um enclave cristão. Assim como fizeram no Brasil, os portugueses se apressaram em tentar catequizar os japoneses, enviando missionários jesuítas para convertê-los à religião ‘Kirishitan’(!).

Mas o cristianismo não conseguiu se enraizar, ele era apenas tolerado por lordes feudais locais. Em 1614, o catolicismo foi proibido e os missionários expulsos – assim como os portugueses, em algum momento na primeira metade do século 17. 

peixinho.jpg

Não sei se hoje ainda há, em Nagasaki, rastros da passagem dos portugueses pela região.

Mas fiquei sabendo que eles foram diretamente responsáveis pela introdução de um prato que acabou se tornando um dos símbolos da culinária japonesa: o tempura.

“Tempura deriva de uma receita popular portuguesa conhecida originalmente como peixinho-da-horta”, diz a Wikipedia.

E mais: “o nome (tempura) vem da palavra portuguesa ‘tempero’ “.

Em sites portugueses, encontrei várias receitas de "peixinhos-da-horta", que consistem de vagens (‘feijao verde’) empanada em um ‘polme’ – massa  – feito de farinha, água, ovo e cebola picada,  e frita em óleo. Outros legumes, como abóbora e pimentão, também são fritos desse jeito.

Não consegui descobrir a origem do nome "peixinhos da horta", mas o sagaz colega Rogerio Wassermann observou a semelhança visual de tempura com porções de ‘peixinho frito’;  ou seja, é bem provável que o nome surgiu de uma alusão visual a uma versão ‘vegetariana’ de uma porção de peixes empanados fritos.

Há outra versão para a origem do nome ‘tempura’, que diz que o nome deriva do hábito dos jesuítas de não comer carne vermelha “no tempo da Quaresma”, em latim "ad tempora quadragesimae".

Li ainda que os japoneses também se encantaram com vários doces portugueses. Ainda hoje, são populares as pequenas balas conhecidas localmente como kompeito (o nome deriva de ‘confeito’) e o bolo kasutera (uma versão do 'bolo de Castella’, um tipo de pão-de-ló).

Navegando ainda mais longe, descobri ainda que o curry vindaloo – um dos mais populares pratos servidos nos restaurantes indianos aqui na Grã-Bretanha – deriva de “carne de vinha d’alhos”, levada pelos portugueses a  Goa. 

Para mim isso tudo é novo e incrível: entre os rastros mais fortes da passagem dos gloriosos navegadores portugueses, séculos atrás, por vários cantos do mundo, estão pratos típicos da "terrinha".

Nós ficamos com a feijoada, os japoneses com o tempura e os indianos com o curry vindaloo.

ComentáriosDeixe seu comentário

  • 1. às 05:49 PM em 13 jun 2011, Ana Rito escreveu:

    Sabe que não só "contagiámos" outros com as nossas receitas, como recriámos as nossas. O famoso prato ex-libris da cidade do Porto - Tripas à moda do Porto - surgiu aquando dos Decobrimentos! Todas as rezes criadas em Portugal eram para abate e, depois do desmanche, postas em salgadeiras para seguirem dentro das naus e alimentar os navegadores. Em terra apenas ficavam as visceras dos animais! ... é caso para dizer que a fome aguça a arte culinária!!

  • 2. às 08:13 PM em 13 jun 2011, João Coelho escreveu:

    Feliz iniciativa de divulgar cultura e História de Portugal. Parabéns!

  • 3. às 04:02 PM em 14 jun 2011, Suen escreveu:

    Pappon,
    Somente como informação (e curiosidade) complementar.
    Sabia que no Japão também se come fios de ovos? Chamam-se Keiran Somen e o que nos chama a atenção é esse perfeccionismo japonês que fez dos fios de ovos um doce todo organizadinho com fios mais lisos e retos que os que vemos por aqui. Será que eles penteiam os fio? Rs. São vendidos em caixinhas em doces individuais ou uma porção de fios de ovos.Veja uma amostra aqui: http://kyotofoodie.com/wagashi-angel-hair-keiran-somen-fios-de-ovos/
    Também é muito popular o curry no tradicional raiscarê (rice + curry).
    Na época em que foi proibido o culto católico, muitos jesuítas foram perseguidos e mortos, daí muitos deles terem se tornados mártires e, posteriormente, santificados. Apesar de hoje ter muito menos católicos no Japão que no Brasil, tem mais santos japoneses que santos brasileiros.

  • 4. às 01:34 AM em 15 jun 2011, Ane Elizabeth Kawajiri escreveu:

    Adorei sua reportagem. Lembrei-me que no sul do Brasil é muito popular as carnes de vinha d'alhos, assadas na brasa em espetos feitos de bambu. E são simplesmente deliciosas. Quanto à Nagasaki, meus sogros vieram de lá e sempre contaram muitas histórias sofre a influência dos portugueses que por lá passaram, inclusive algumas delas são as mesmas que você citou aqui.

  • 5. às 07:21 PM em 15 jun 2011, sérgio de carvalho junqueira escreveu:

    E a propósito, o 'pan' japonês é de pão, em português. Afora outras coisas que não têm a ver com comida, como "rampu" (lanterna, de lâmpada; beranda (de varanda) etc.
    Os portugueses esparramaram pelo mundo não apenas a forma de preparo, mas muitas coisas de comer, como milho, cana-de-açúcar, manga, mandioca, cítricos e galinhas em profusão!
    Além disso, os piratas portugueses do Caribe aprenderam com os índigenas do Brasil a conservar a carne de caça, para levar a bordo, assando/defumando no "moquém". Os moqueadores viraram, em francês,"boucanier" e em inglês "buccaneer", que voltou ao português como bucaneiro, sinônimo de pirata. Rastro tupi/português!

  • 6. às 04:51 PM em 19 jun 2011, Amélia escreveu:

    Adorei!...

    Estava sentindo falta de algo assim... Parabéns pela iniciativa e tomara que essa iniciativa tenha proseguimento.

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