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'Marmiteiros' do mundo, uni-vos!

Thomas Pappon | 12:27, sábado, 28 maio 2011

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Proibiram o Marmite na Dinamarca. Aquela pasta de fermento, já mencionada neste blog, que vem em um estiloso potinho e divide os britânicos em dois extremos – os que a amam e os que a odeiam.

As autoridades do país que nos deu Helena Christensen, Lars Von Trier, os blocos Lego e The Killing (o seriado policial que ganhou o Bafta de melhor série estrangeira exibida na TV britânica, batendo Mad Men!) resolveram pegar pesado com alimentos com vitaminas adicionadas, que são considerados - ali, pelo menos - uma ameaça à saúde.

Já tinham proibido alguns cereais e bebidas há alguns anos sob essa mesma legislação, mas nenhuma medida causou tanta indignação como o recente veto à famigerada pasta escura, geralmente passada no pão com um pouco de manteiga.

Britânicos residentes na Dinamarca chiaram horrores, lançaram campanhas e ameaçaram com um boicote contra produtos dinamarqueses.

Os protestos também vieram de australianos, neo-zelandeses e sul-africanos, que também são chegados a uma torrada com Marmite (ou Vegemite, o quase-equivalente australiano) no café da manhã.

“Não vamos mais assistir a The Killing!” não foi a pior ameaça. O que pode pesar mesmo é um “não” generalizado ao bacon dinamarquês, como o que, segundo o jornal The Guardian, estava sendo organizado pelo Facebook.

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Os britânicos amam bacon, a produção local não dá conta da demanda e os criadores dinamarqueses tiram aproveitam desse nicho há décadas.

Não está claro ainda se vai ser possível entrar na Dinamarca com Marmite na bagagem, ou se os ‘marmiteiros’ de Copenhague terão que apelar para o mercado negro – e se o tráfico de Marmite será punido com cadeia.

Mas a pergunta que não quer calar nessa história toda é essa: qual é o problema com alimentos industriais ‘fortificados’ com adição de vitaminas? Por que a Dinamarca diz que eles fazem mal à saúde?

É aqui que a discussão esquenta. Segundo nota divulgada pela Embaixada da Dinamarca em Londres (que teve que se pronunciar por causa da ampla cobertura dada ao caso), os dinamarqueses acreditam que “é melhor para nós obter as vitaminas de frutas e vegetais (legumes e verduras)”, e que por isso o marketing de produtos fortificados não é autorizado no país.

Ou seja, tecnicamente, o produto em si não é “proibido”, mas sua distribuição e divulgação não foram autorizados, pelo menos ainda (e talvez não venham a ser) .

Marmite, rico em vitaminas B e ácido fólico, foi desenvolvido a partir de sobras da produção de cerveja, na virada para o século passado.

Pessoalmente, acho que o produto assusta as autoridades da Dinamarca por ser um arquétipo de alimento inventado em laboratório. Lembra o pavor que muitos tem de alimentos geneticamente modificados – afinal, não foi a natureza (ou, sei lá, Deus) que criaram o Marmite: foi um cientista alemão.  

Não há evidências de que o Marmite faça mal a saúde. Muito pelo contrário. Mas pela reação exacerbada da mídia inglesa, pela onda de indignação e pelas ameaças de protesto por parte de consumidores, me pergunto se não há algum ingrediente ‘estranho’ e extremamente viciante em uma pasta que, cá entre nós (e por mais que a ame) parece graxa de bicicleta.

Cozinha Holandesa

Thomas Pappon | 17:10, terça-feira, 17 maio 2011

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Recentemente passei um fim de semana visitando amigos em Amsterdã (isso é que chamo de ponte aérea: o avião sobe, você mal termina de beber um café e o avião já está descendo), e constatei que a Holanda é o raro caso de um país praticamente sem  tradição gastronômica.

Alguém aí já ouviu falar em cozinha holandesa?

Pelo que observei, quando querem comer fora, os moradores de Amsterdã vão a restaurantes vietnamitas, indonésios, surinameses ou árabes.

Ou se aproveitam da vasta oferta de fast food, dos vários quiosques de shawarma – conhecido como doner, em turco, e gyros, em grego – que servem o sanduíche de pão árabe com salada e fatias do que conhecemos - pelo menos lá em São Paulo - como churrasco grego (normalmente aqui a carne é de carneiro ou porco).

Ou vão de “pizza turca”. Comi uma, ao preço praticamente simbólico de 1,5 euros (R$ 3,4), achei uma delícia. É basicamente uma esfiha aberta grande (com bem menos recheio de carne) enrolada com salada no meio.  

Ou vão a um rede bizarra de fast-food chamada Febo, em que são vendidos salgadinhos oferecidos individualmente em compartimentos automatizados.

O esquema é totalmente self-service. Você entra, escolhe o salgadinho, deposita uma moeda, a janelinha se abre, você pega o salgadinho.

Em geral são croquetes de carne (kroket), risole de queijo (kaassouflé) e salsichas de carne de boi (frikandel), todos eles decepcionantes, por sinal.

Tive a impressão que os holandeses não ligam muito para tradição culinária e que, em Amsterdã, pelo menos, a comida oferecida nas ruas é quase toda estrangeira. 

Acho que o mais perto que cheguei da cozinha tradicional holandesa foi numa visita a um açougue, onde serviam arenque cru com cebola e pepino em conserva e uma variedade interessante de salsichas secas ou defumadas. 

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Pesquisando na internet vi que é isso mesmo, que os holandeses não têm tradição na chamada alta cozinha, e que isso se explicaria pelo espírito pragmático e educação massificada que tomaram conta depois que o país enfrentou um empobrecimento generalizado na virada para o século 20.  

Grosso modo, existem três cozinhas regionais distintas, mais ou menos influenciadas pelos vizinhos Bélgica e Alemanha, em que os destaques são cozidos, ensopados e panquecas, pratos substanciais – pelo que li – e frugais.

Nada disso é um problema. Os holandeses certamente são gente que sabe curtir a vida e gosta de compartilhar com turistas o seu savoir fair, mesmo que este não esteja necessariamente ligado a tradição culinária ou alta cozinha.  

Compartilho com os holandeses de um grande apreço por queijos, salsichas e aspargo fresco - e confesso ter ficado decepcionado quando descobri que o principal acompanhamento do broto, o famoso molho hollandaise (o molho mais complicado que já tentei fazer e nunca consegui), é criação da alta cozinha francesa.

E Amsterdã tem um lugar imperdível para quem gosta de cerveja: a cervejaria Brouwerij’t IJ (só holandês consegue pronunciar esse nome), localizada num moinho à beira de um canal, em que só é servida cerveja feita ali mesmo, distinta, cremosa, maravilhosa.

E tem os famosos coffee shops, que sempre me fazem sonhar com um mundo melhor e mais tolerante. Como disse, os holandeses sabem viver.

Venha jantar comigo

Thomas Pappon | 16:25, terça-feira, 10 maio 2011

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É uma coisa bem britânica: a dinner party. Trata-se basicamente de um jantar organizado em casa para convidados, com entrada, prato principal e sobremesa.

Aqui, a ocasião é levada muito a sério. Garantir o sucesso de uma dinner party e defender a reputação de cozinheiro e organizador de eventos é visto como uma questão da maior importância.

Tenho a impressão até que o desgosto causado por uma dinner party fracassada ou mesmo meia-boca pode levar meses para ser superado.

Pude observar melhor esse fenômeno acompanhando um programa de TV sensacional chamado Come Dine With Me (Venha Jantar Comigo).

Ele funciona assim: quatro convidados se revezam em organizar dinner parties - cada um recebendo os outros em sua casa – depois de obter 125 libras (R$ 329) para cobrir os custos da comida e das bebidas.

Cada participante dá uma nota de 0 a 10 julgando a comida e o ‘clima’ do evento de cada dinner party. Quem levar a soma de notas mais alta ganha o prêmio, de mil libras (R$ 2,6 mil).

Uma voz em off  traz humor para a coisa toda em uma narração com pitadas generosas de sarcasmo. 

Transmitido pela primeira vez em 2005 pelo canal privado Channel 4, em meio a expectativas modestas, o programa foi se transformando em um fenômeno de audiência.

Está na 24ª temporada, é transmitido em horário nobre para uma audiência fiel de 3 milhões (em um país de 60 milhões de habitantes) e o formato foi exportado para 25 países (na Alemanha chama-se Das Perfekte Dinner).

O segredo desse sucesso todo – e a razão que me fisgou – é a ‘schadenfreude’ da classe média, grosso modo, o prazer que as pessoas têm em ver a desgraça dos outros.

Uma coisa é você organizar uma dinner party para convidados desconhecidos, tentar impressioná-los com uma receita nova e ambiciosa, eles chegarem atrasados, a carne e os legumes passarem do ponto e tudo dar errado.

Outra coisa é isso ser filmado, transmitido em rede nacional e acompanhado por 3 milhões de pessoas.

É um show de humilhação. Choro, convidados falando mal dos outros ou sendo levados de táxi embriagados, temperos sendo exagerados ou esquecidos, arrogância ou autoestima elevada dando lugar a desespero, receitas bizarras, idéias ruins, idéias boas, planos que dão certo, planos que dão errado e muitos planos ficando no meio do caminho.

Na verdade, cansei um pouco do formato, de tanto sentir pena da decepção de um cozinheiro ao descobrir que o jantar não ficou do jeito que ele queria.

Mas o programa tem outra qualidade. Como os participantes são gente comum (exceto em episódios especiais com chefs profissionais), vejo o Come Dine With Me também como uma ótima forma de você ter parâmetros para avaliar a própria habilidade.

Afinal, verdade seja dita, confiança é fundamental na cozinha.

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