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A temida voz dos árabes

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Rogério Simões | 13:31, sexta-feira, 28 janeiro 2011

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egitoblog.jpgOs ventos revolucionários da Tunísia chegaram ao Egito. Depois da derrubada do regime do tunisiano Zine Al-Abidine Ben Al, que desfrutou de poder quase absoluto por 23 anos, a fúria das chamadas "ruas árabes" se dirige agora contra o líder egípcio. No controle da terra dos faraós há 29 anos, Hosni Mubarak é o alvo da revolta e desejo de mudança da população local. As cenas de caos em vários pontos do país, especialmente no Cairo, sugerem uma nação transformada. De forma espontânea, sem necessariamente ligação com grupo político algum, cidadãos das mais diferentes tendências e ideologias tomaram as ruas para dizer "basta" a um regime autoritário. Mas, ao contrário dos protestos que derrubaram o comunismo na Europa na virada da década de 80 para a de 90, no exterior os movimentos populares árabes geram tanto otimismo quanto preocupação.

O regime de Mubarak é um dos principais aliados dos Estados Unidos no mundo árabe. Recebe de Washington quase US$ 2 bilhões anuais em ajuda econômica e militar, ficando atrás apenas de Israel. Nos últimos anos os Estados Unidos vêm dizendo que essa ajuda precisa ser acompanhada de abertura política e econômica, mas Mubarak nunca sinalizou intenção de mudar as regras do jogo. Pelo contrário: aos 82 anos, o líder egípcio vinha indicando sua intenção de passar o poder para seu filho, Gamal, repetindo o ritual dinástico de nações como Síria ou Jordânia.

Os Estados Unidos nunca condenaram abertamente o modelo político do Egito nem os planos de Mubarak para o país, e o presidente Barack Obama tem sido cauteloso ao defender o direito da população de se manifestar. Obama e seus antecessores nunca esqueceram as circunstâncias em que Mubarak chegou ao poder, em 1981. Ele ocupava a vice-Presidência quando o presidente, Anwar Sadat, que dois anos antes havia assinado o histórico e polêmico acordo de paz com Israel, foi assassinado. Fundamentalistas usaram granadas e metralhadoras contra o presidente e convidados durante uma parada militar. Outras 11 pessoas morreram, e o próprio Mubarak foi ferido. Já na Presidência, Mubarak enfrentou um ressurgimento das ações de fundamentalistas, especialmente nos anos 90, quando um grande atentado em Luxor deixou mais de 50 turistas estrangeiros mortos. A resposta de Mubarak foi um regime cada vez mais fechado, sem direito a dissidências ou manifestações, comandado por truculentas forças de segurança sobre as quais sempre houve a suspeita do uso sistemático da tortura.

A receita sempre foi tolerada por Washington, que teme as consequências para a região da derrubada de regimes autoritários, mas aliados ao Ocidente. Exemplos passados aumentam tal preocupação. Em 1991, as eleições na Argélia foram vencidas no primeiro turno pelo partido islamista, a Frente Islâmica de Salvação, o que levou as autoridades a cancelar a segunda votação. O Exército assumiu o poder, o que levou a uma guerra civil marcada por massacres de civis e um saldo de 200 mil mortos. As eleições palestinas de 2006 resultaram na vitória do Hamas e a consequente divisão política da Palestina, com a Faixa de Gaza nas mãos do grupo religioso e a Cisjordânia sob controle da Autoridade Nacional Palestina. No próprio Iraque, onde uma tentativa de democracia foi imposta militarmente pelos Estados Unidos, a situação interna segue muito mais instável e violenta do que nos tempos de Saddam Hussein.

Com os recentes aumentos de preços dos alimentos, que impôs dificuldades extras a populações já sofrendo com a estagnação econômica, tornou-se ainda mais difícil para regimes autoritários árabes controlarem seus cidadãos. Depois de Tunísia e Egito, protestos foram registrados também no Iêmen. Somada a décadas de frustração e repressão, uma realidade de desemprego e inflação solapa as estruturas do tradicional modelo político local. Estados Unidos, Israel e líderes de outras autocracias locais acompanham os acontecimentos no Cairo com apreensão. Mas sabem que barrar os ventos de mudança é missão quase impossível, e a única opção parece ser ajustar a direção para a qual eles sopram. Isso se não estivermos diante de um verdadeiro furacão.

Espionagem jornalística

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Rogério Simões | 11:42, sexta-feira, 21 janeiro 2011

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coulsonblog.jpgA renúncia de um assessor do primeiro-ministro britânico não deveria despertar muito interesse fora do país. No entanto, a queda de Andy Coulson, agora ex-diretor de Comunicação do governo, tem implicações muito além da política. Os limites da imprensa, o direito a privacidade das celebridades, o poder do maior conglomerado de mídia do mundo, as relações entre governo e magnatas das comunicações, tudo isso está ligado à ascensão e à derrocada de um dos mais próximos assessores de David Cameron.

O jornalista Andy Coulson tem 43 anos de idade. Fez sua carreira no mundo dos tablóides, como são conhecidos aqui na Grã-Bretanha os jornais mais sensacionalistas, opinativos e populares. Sejam de direita (The Sun, The Daily Mail) ou de esquerda (Daily Mirror), os tablóides britânicos são comprados diariamente por milhões de pessoas, impulsionadas por coberturas apaixonadas de esporte e política e constante acompanhamento da vida particular de celebridades. Coulson destacou-se e subiu rapidamente no The Sun, do grupo News International, de propriedade do australiano Rupert Murdoch, dono de jornais e redes de TV em diversas partes do mundo. Mudou-se logo para o News of the World, tablóide do mesmo grupo que substitui o Sun aos domiingos. Durante os quatro anos em que Coulson esteve no comando, o jornal trouxe diversas reportagens exclusivas envolvendo a vida particular de pessoas famosas. Mas, em 2007, uma investigação policial descobriu que notícias envolvendo a família real haviam sido obtidas de forma ilícita, por meio do grampeamento de telefones de assistentes do príncipe William. O correspondente de assuntos da realeza do jornal foi preso e condenado pelo grampo. Andy Coulson renunciou ao cargo, apesar de negar ter conhecimento das atividades do repórter.

Apesar do revés, sua carreira teve uma guinada surpreendente: meses depois da saída forçada do News of the World , ele assumiu o posto de diretor de Comunicações do Partido Conservador, que na época já se preparava para voltar ao poder. Para muitos, seu passado de influência dentro do grupo de Ruper Murdoch explicou a escolha. No final do governo de Gordon Brown, Murdoch mudou de lado na política britânica. O The Sun, que havia apoiado o "novo trabalhismo" de Tony Blair, resolveu bancar a oposição conservadora. Coulson seria, na avaliação de analistas e dos trabalhistas, a ligação entre o Partido Conservador e os interesses de Murdoch. Com Cameron eleito primeiro-ministro em 2010, Andy Coulson tornou-se diretor de Comunicações do governo. Para infelicidade do premiê, no entanto, logo o caso da espionagem ilegal voltou a assombrar seu assessor. Em 2009, o jornal The Guardian, de centro-esquerda e concorrente das empresas de Murdoch, publicou que o esquema de grampeamento de telefones particulares havia ido muito além da família real. Personalidades do futebol, políticos e celebridades, como a atriz Sienna Miller, também teriam sido vítimas. O caso cresceu, e no início deste ano um editor-assistente do News of the World foi suspenso, depois que uma ação legal, supostamente feita por Miller, o associou aos grampos. A especulação e a pressão aumentaram até que Andy Coulson finalmente entregou seu cargo.

As perguntas levantadas pela saga são muitas. Até onde a imprensa, movida pela sede de novidades sobre a intimidade de pessoas famosas, admite ir para obter um novo furo? Quanto tempo e dinheiro jornalistas deveriam investir em assuntos que despertam a curiosidade do leitor, mas não são exatamente de interesse público? Até onde vai, ou deveria ir, a relação entre políticos e grupos de comunicação, cujos interesses muitas vezes passam por decisões governamentais? Andy Coulson sempre disse não ter conhecimento dos grampos praticados na redação que comandava, mas sua carreira meteórica se beneficiou da cultura de investigação da vida privada de terceiros. Tal cultura não mudará em decorrência do caso, que ainda pode ter novos capítulos na Justiça. Mas o fim talvez deixe de justificar alguns dos meios utilizados.

Guerra e paz na política

Rogério Simões | 17:44, quarta-feira, 12 janeiro 2011

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euapoliticablog.jpgEm 2010, brasileiros e americanos foram às urnas. Nos dois países, a coisa esquentou. O passado de candidatos, alusões a Deus, referências a temas polêmicos e de foro individual, como homossexualismo ou aborto, foram transformados em armas de campanha. Ambas as disputas, pela Presidência, pelo Congresso e por Estados no Brasil e pelo Congresso e governos estaduais nos Estados Unidos, foram tratadas pelas facções políticas como batalhas decisivas. Eram casos de vida ou morte. Se o adversário vencesse, o mundo acabaria, ditaduras seriam estabelecidas, liberdades seriam confiscadas, conquistas sociais seriam interrompidas. A derrota estava fora de cogitação, e a palavra era vencer ou vencer. O clima era de tensão e confronto.

Brasil e Estados Unidos são democracias estabelecidas, mesmo que a brasileira tenha apenas 25 anos. Como tais, sobreviveram à abertura das urnas. Todas as disputas do ano passado nas duas maiores potências das Américas tiveram vencedores e perdedores, e a vida seguiu em frente. Uma certa paz estabeleceu-se após a guerra eleitoral. No Brasil, especificamente, uma relativa reconciliação pôde ser vista na imprensa, com veículos e articulistas antes críticos de Dilma Rousseff recebendo positivamente os primeiros pronunciamentos da nova presidente. Dilma foi elogiada por comprometer-se com a estabilidade econômica e o combate à inflação, por defender a liberdade de imprensa e por seu discurso comedido. O "estilo Dilma" chegou a ser descrito como gerencial, priorizando a eficiência e os resultados, bem diferente da figura essencialmente política que é Luiz Inácio Lula da Siliva. A relativa pacificação também pôde ser vista nas relações partidárias, com adversários aparentemente dando tempo e espaço para a nova ocupante do Planalto acostumar-se com a cadeira. O novo governador tucano de São Paulo, Geraldo Alckmin, até declarou seu apoio ao trem-bala federal, projeto várias vezes criticado por José Serra na campanha. O espírito de colaboração também parece prevalecer, pelo menos por enquanto, diante das tragédias provocadas pelas chuvas no Sudeste.

Os Estados Unidos têm um calendário eleitoral diferente do brasileiro. A maioria das cadeiras do Legislativo federal é renovada no meio do mandato do presidente, em uma disputa que dá o tom do que será a luta pela Casa Branca dois anos depois. Para Barack Obama, o embate com republicanos com sede de vingança foi apenas um aperitivo para o que promete ser uma sangrenta batalha em 2012. A trégua americana parece ter sido breve, e o período pós-eleitoral é também preparatório para a próxima guerra. Mas, mesmo para os que compreendem ou até mesmo apreciam o caráter apaixonado do jogo político americano, o conflito pode ter ido longe demais. O atentado contra a deputada democrata Gabrielle Giffords, no Arizona, em que outras seis pessoas foram mortas, parece ter servido de alerta para muitos americanos sobre o perigo dos discursos políticos radicais. É verdade que a ligação entre o detido pelo ataque, o jovem Jared Loughner, e as disputas políticas nos Estados Unidos não está estabelecida. Tamanha violência, no entanto, envolvendo uma líder política em ascensão durante evento com seus eleitores, foi suficiente para iniciar uma discussão no país sobre a qualidade do seu debate político.

O principal alvo das críticas tem sido a ex-candidata a vice-presidente Sarah Palin. Giffords havia condenado a propaganda política de Palin que marcava com alvos de rifles os deputados democratas que ela esperava ver derrotados no ano passado. Giffords era um deles. Sarah Palin reagiu e, em uma mensagem em vídeo, condenou o que chamou de "calúnia de sangue", referindo-se a insinuações de que sua atuação teria inspirado os atos do assassino do Arizona. A mensagem de Palin sugere que a possível futura candidata a presidente esteja preocupada com as consequências da tragédia. Muitos acreditam que suas chances de ser indicada para enfrentar Obama daqui a dois anos se evaporaram. Numa tentativa de aliviar as tensões, Obama pediu união e o fim das acusações partidárias.

A política americana, que já vinha de uma década de polarização, fruto da Era Bush, ficou ainda mais radicalizada com a crise na economia. O momento nos Estados Unidos é delicado e exige que moderados assumam o controle se quiserem evitar o avanço da intransigência. Já o Brasil vive um cenário de prosperidade econômica, com boas perspectivas para o futuro, o que favorece o entendimento. Mas nada garante que a trégua dada a Dilma Rouseff seja duradoura ou que seu governo não enfrente percalços. A democracia prevê o confronto de ideias, propostas e interesses, e a unanimidade é um conceito perigoso para qualquer sociedade que almeja ser livre. Se mantida dentro das regras da civilidade e do jogo democrático, a guerra política pode ser tão importante quanto a paz.

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