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Festa para a nova África

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Rogério Simões | 2010-06-10, 12:33

africafootball.jpgO futebol não tem o poder de mudar o mundo. Não acaba com a pobreza, não cura doenças, não encerra conflitos armados. Mas a primeira Copa do Mundo na África, que começa nesta sexta-feira, é uma oportunidade para que os africanos, especialmente da região ao sul do deserto do Saara, olhem para si mesmos com orgulho. O Mundial da África do Sul, se conduzido com segurança e competência, será uma referência futura para um continente que, aos poucos, vai encontrando o caminho da estabilidade.

A África é a região mais pobre do planeta, com incontáveis desafios na economia, saúde e política. Segundo a Organização Mundial da Saúde, a cada 45 segundos uma criança africana morre vítima de malária, doença responsável por 20% das mortes infantis no continente. Na África subsaariana estão quase 70% das pessoas vivendo com HIV/Aids em todo o mundo. Não há como subestimar o tamanho da missão que seus habitantes têm pela frente nas próximas décadas apenas para aproximar o continente do nível de vida encontrado em outras regiões. Mas o progresso ocorrido nos últimos 10 ou 15 anos é significativo. Basta olhar para nações como Ruanda, Serra Leoa, Congo e Zimbábue, entre outros, para ver que os africanos merecem aplausos por terem superado alguns dos capítulos mais tristes de sua história e criado bases para um futuro mais próspero.

Os anos 90 foram marcados por guerras em grande parte da África subsaariana, com destaque para Ruanda, Serra Leoa e Congo. O genocídio de 800 mil tutsis e hutus moderados em Ruanda, em 1994, aos poucos se transforma em uma distante lembrança em um país que hoje abraça a economia digital. Apesar de ainda ser uma nação basicamente agrícola, com a maioria da população abaixo da linha de pobreza, Ruanda tem registrado crescimentos anuais do PIB (Produto Interno Bruto) acima de 5%. A economia de Serra Leoa, país rico em diamantes e com grande potencial turístico, tem crescido em níveis semelhantes. Quase dez anos após o fim da guerra civil, cidadãos sem mãos ou braços, cruelmente cortados por tropas rebeldes, são lembranças de um recente passado de sofrimento. Mas Serra Leoa tem um governo relativamente estável e razões para olhar com otimismo para o futuro. A República Democrática do Congo, que nos anos 90 se transformou num palco de uma guerra africana que também envolveu Angola, Namíbia, Zimbábue, Uganda e Ruanda, desfruta de estabilidade política pelo menos na maior parte do seu território. Os confrontos entre milícias rebeldes e tropas do governo continuam levando o terror ao extremo leste, onde a violência contra civis, incluindo o estupro sistemático, ainda é uma constante arma de guerra. Mas é possível dizer que o país já deixou o pior da sua história para trás. Já o paupérrimo Zimbábue, vizinho da África do Sul, continua com Robert Mugabe no poder (há 30 anos). Mas hoje ele compõe uma coalizão com a antiga oposição, o que colocou um ponto final em boa parte das perseguições e assassinatos políticos e deu esperanças de uma futura recuperação econômica após a pacificação política.

Sobre os anfitriões, o que se pode dizer é que, como todo o continente, a África do Sul tem desafios monumentais. O país é a economia mais vibrante da África subsaariana e o único africano membro do G20. Comparada à situação em que se encontrava no início dos anos 90, quando Nelson Mandela herdou uma nação marcada pela divisão racial e extrema pobreza da maioria negra, a realidade de hoje é superior em muitos aspectos. A democracia sul-africana está consolidada, e o país se autodenomina uma "nação arco-íris". Tensões raciais ainda existem, mas os problemas de hoje são especialmente o desemprego, que atinge 25% dos sul-africanos, e a Aids. Nada menos que 11% da população sul-africana está contaminada com o HIV, taxa que chega a impressionantes 33% em mulheres de 20 a 34 anos de idade. Mas pelo menos o governo tem hoje uma atitude diferente da adotada pelo presidente anterior, Thabo Mbeki, que por muitos anos negou a ligação entre o vírus HIV e a Aids. O atual líder do país, Jacob Zuma, um polígamo convicto, na melhor tradição zulu, recentemente anunciou não ter o vírus da Aids e promoveu a realização de testes de HIV.

Na noite desta quinta-feira, Zuma apareceu ao lado do presidente da Fifa, Joseph Blatter, em Soweto, em um show que preparava o início da Copa do Mundo. O futebol chegou, finalmente, à África, e a alegria nas ruas da África do Sul é impressionante, mesmo testemunhada à distância, pela televisão. O continente parece feliz e certamente ficará orgulhoso de receber o mundo em tamanha festa esportiva. Espera-se que o torneio seja mais um passo no caminho rumo a uma vida melhor.

ComentáriosDeixe seu comentário

  • 1. às 03:42 AM em 11 jun 2010, carlos escreveu:

    VEJO QUE HOJE SE PODE DIZER QUE A ÁFRICA DO SUL É MAIS ADIANTADA QUE O BRASIL , TENDO ELIMINADO O RASCISMO , A HOMOFOBIA , O PRECONCEITO EM DIVERSAS FORMAS , COISAS QUE DEVIDO À RELIGIÃO O BRASIL AINDA SE ENCONTRA SÉCULOS ATRÁS !

  • 2. às 03:49 AM em 11 jun 2010, carlos escreveu:

    TER UM PRESIDENTE COM 5 ESPOSAS NÃO É PARA QUALQUER PAÍS CRISTÃO !
    UM LUXO !

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