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Irã: sucessos e limites do Brasil

Rogério Simões | 2010-05-17, 15:24

lulairablog2.jpgO acordo assinado entre o Irã, a Turquia e o Brasil, para troca de urânico pouco enriquecido por combustível nuclear, não transformou a crise que já se arrasta há anos. Primeiro, o próprio Irã tratou de colocar os pingos nos is: Teerã deixou claro que o acordo desta segunda-feira, comemorado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva como uma "vitória da diplomacia", não altera a questão central. O Irã continuará enriquecendo urânio dentro do seu território. O acordo foi um sinal de boa vontade, que pode evitar novas sanções da ONU contra o país e levar a novas negociações entre o regime iraniano e o grupo que reúne os membros permanentes do Conselho de Segurança e a Alemanha. Mas uma solução para o principal impasse está longe de ser alcançada no curto prazo.

As potências ocidentais já deram a sua reação aos esforços brasileiros e turcos: apesar do acordo, continuarão mantendo a pressão por novas sanções contra o Irã, por não confiarem no regime dos aiatolás. Querem que o Irã cumpra o que o Conselho de Segurança da ONU já determinou: que suspenda o enriquecimento de urânio em seu território. Brasil e Turquia conseguiram um avanço considerável, mas o poder principal nas relações internacionais continua nas mãos das potências tradicionais. É verdade que Estados Unidos, Grã-Bretanha, França, Rússia e China, apesar do seu poder de veto, precisam de votos de outros membros rotativos do Conselho de Segurança, grupo que hoje inclui Brasil e Turquia. Mas, se órgão da ONU acabar votando em favor de novas e mais duras sanções contra o Irã, o entusiasmo demonstrado pelo governo brasileiro nesta segunda-feira terá vida curta. A iniciativa diplomática do Brasil pode acabar expondo os limites da sua influência internacional.

Mas também há sinais de sucesso. Pouco antes da visita de Lula ao Irã, o governo americano demonstrou ceticismo quanto às chances de Brasil e Turquia conseguirem qualquer coisa, um avanço mínimo que fosse. O acordo demonstrou que os dois países, historicamente ausentes do centro de poder organizado no século 20, não podem ser ignorados como novas forças no atual arranjo político internacional.

A Turquia, diante da apatia diplomática e falta de união dos países árabes, tem adotado uma política externa mais agressiva no Oriente Médio. Hoje critica abertamente Israel, um antigo aliado, e ofereceu-se para dialogar com o Irã. O Brasil transformou-se num incontestável líder regional que estabeleceu contatos importantes com praticamente todas as regiões do mundo e é respeitado como voz representativa do mundo emergente. Brasil e Turquia são aliados tradicionais dos Estados Unidos e da Europa ocidental, politicamente ambos são parte do Ocidente, mas agora mostram ter força para traçar caminhos alternativos. Há limites para a ação dessas emergentes potências, mas os sucessos começam a ser reconhecidos. Não se trata exatamente de uma revolução, mas é um movimento irreversível.

ComentáriosDeixe seu comentário

  • 1. às 09:21 PM em 17 mai 2010, Carlos escreveu:

    Os EUA manterão sua posição porque apostam no confronto e na força. A posição do Brasil é diferente, de negociação. É o que fica claro no noticiário e nas análises. Os EUA exigem "ações", não aceitam apenas "palavras". Isso não passa de jogo de palavras para confundir a plateia. Um acordo é uma ação, é assim que os EUA fazem sua política externa o tempo todo, com declarações, comunicados conjuntos e acordos. O Brasil (com a Turquia) se colocou numa posição acima neste momento, indicando o caminho. E fez isso de um ponto de vista de credibilidade internacional, pois o presidente Lula vem recebendo prêmios sucessivos como paladino da paz. O Irã demonstrou que aceita negociar, não negociou com os EUA porque com os EUA não é possível negociar, com o Brasil e a Turquia é. Os EUA exigem submissão, mas não poderão manter sua posição sem o custo de demonstrarem intransigência.

  • 2. às 11:25 PM em 17 mai 2010, Lucifer escreveu:

    O EUA, estão numa encruzilhada inesperada. Jamais primaram pela diplomacia.Essa sempre foi praticado com uma porrete,ou ostensivamente exibido ou discretamente oculto.Às vezes,nem tanto.Lula ,invés de porrete,substitui-o,buquê de flores. Quem de resistir ,há? A truculência WASP, está com seus dias contados.Até ,porque, Obama , de WASP,não tem nada.

  • 3. às 09:41 AM em 18 mai 2010, Jorge Eduardo escreveu:

    Considerando as investidas do Irã junto ao Ditador Chaves, e por via de conseqüência a postura desse, de Ivo Morales e do paraguaio Lugo, em relação ao Brasil e Amazônia Brasileira a diplomacia do governo Lula tentando aproximação com o Pais dos Aiatolás, marcou um belo tento. Jorge Eduardo, Dr.

  • 4. às 06:59 PM em 18 mai 2010, Grilo D escreveu:

    O que as potências ocidentais fazem questão de não entender é que as negociações são sim um processo longo, e que praticamente nada se resolverá no curto prazo. O acordo diplomático envolvendo o Brasil e a Turquia não resolve tudo, mas é certamente um avanço.
    Os EUA vão, claro, jogar areia no esforço pacificador porque nunca quiseram a paz. E, claro, porque há muito petróleo no Irã, então este precisa ser mantido sob o controle ianque. Nem que pra isto, eles precisem repetir a insanidade cometida no Iraque e em outros países.
    É só questão de escolher um lado: o da negociação ou o da agressão.
    Abraços,
    Grilo D

  • 5. às 03:44 PM em 19 mai 2010, Magno escreveu:

    As informações são desencontradas.
    A proposta que as potencias nucleares fizeram em 2009 foi de enriquecimento de urânio fora do Iran, retorno do urânio enriquecido ao país com monitoração rente da Agência Internacional de Energia (AIE) em relação a sua aplicação.
    Algo bem razoável: atende as necessidades energéticas, industriais e médicas sem colocar em risco a destinação militar. É como ocorre no Brasil, que enriquece a até 3,5% – 4% e adquire em concentrações maiores para aplicações em medicina nuclear, tudo monitorado pela AIE.
    O Iran não aceitou na época e continua não aceitando, a partir da afirmação que pretende continuar a fazer enriquecimento sem o controle da AIE.
    Tecnicamente, obter o enriquecimento até 20% é algo complexo.
    Dar um salto de 20% para 90% é algo menos complexo, embora tecnicamente mais perigoso em relação a acidentes operacionais.
    Ou seja, pelas intenções marcadas pelo Iran, Brasil e Turquia, o Iran receberia urânio já enriquecido a 20%, podendo desviá-lo para a continuidade do processo de enriquecimento para fins militares.
    Isto é inaceitável.
    O Governo brasileiro, por ingenuidade ou cegueira ideológica que nem países como China e Rússia aceitam, caiu numa armadilha iraniana que levará ao seu descrédito internacional.

  • 6. às 04:46 PM em 19 mai 2010, Juvenal Melvino da Silva Neto escreveu:

    Impressionante como as potências nucleares, antes céticas, desqualificaram imediatamente o acordo patrocinado pelos países emergentes Brasil e Turquia com o Irã. Em que o Irã deposita 1200 kg de urãnio levemente enriquecido (a 3%) na Turquia num prazo de 30 dias em troca de 120 kg combustível nuclear (a 20%) num prazo de um ano.
    Vale destacar, nunca houve por parte das potências nucleares disposição para o diálogo de fato, o que sempre houve foi pressão. O clube fechado das potências nucleares não respeitam a soberania de outras nações. Por que Israel pode ter armas nucleares e outros países não podem ter o mesmo direito? Esta sanção é semelhante a aplicada nos anos 90 no Iraque, baseada na falsa suposição de que o Iraque tinha armas de destruição em massa. Infelizmente, alguns países e mídias são subserviente a ideologia imperialista americana.

  • 7. às 07:28 PM em 19 mai 2010, Jose Pedro escreveu:

    Muito bom o acordo dos paises emergentes não ter tido efeito, os governos desses países, como vimos aqui, são imaturos em relação a diplomacia com países rebeldes, não tem a idéia de como profunda e radical são os ideais dos iranianos que comandam desde 79, não se negocia com alguém que não quer nada mais que mentir para o ocidente e se aproveitar do nosso ingenuo presidente.

  • 8. às 07:29 PM em 19 mai 2010, Roberto Küll Júnior escreveu:

    Obama conhece como poucos a farra do boi que a CIA aprontou no regime iraniano. É evidente que aja rancor por parte dos iranianos, que não aceitaram e não aceitarão um atestado internacional de incompetência em administrar o seu próprio país.

    Já para nós ocidentais, o regime dos aiatolás é um regime que esmaga a liberdade de expressão. Não deixa de ser um regime tirânico, que pune com cadeia e provavelmente tortura, os jornalistas que violem os interesses erradamente ditos islâmicos.

    Quanto à provável manipulação do Brasil por parte da República Islâmica do Irã, acredito pouco provável. O pouco que sei do Ministro Celso Amorim é que, ele conhece bem o terreno que está pisando e não deixaria o “campo” sem procurar fazer um “gol”. E quer queiram ou não, o “gol” foi feito, mesmo que alguns árbitros (ONU) o dêem num futuro próximo, por anulado.

    A questão nuclear do enriquecimento do urânio está longe de acabar. Segundo a Agência Internacional de Energia Atômica, o Irã tem apenas cinco quilos de urânio enriquecido a 20% e o seu uso é para tratamento de câncer. Não se há notícias, de fontes confiáveis, que o Irã tenha conseguido, ou querido fazer, o enriquecimento do urânio a 90%, seria o combustível para a guerra.

    Os países que têm assento permanente na ONU devem fazer de tudo para buscar o entendimento com o Irã, usar todo o diálogo possível e que fique claro para opinião pública internacional, que se houver uma guerra, não será por vaidades feridas.

  • 9. às 06:11 PM em 22 mai 2010, Guilherme Scalzilli escreveu:

    Os EUA sabotam a paz

    O acordo com o Irã é uma vitória histórica da diplomacia brasileira, quaisquer que sejam seus desdobramentos. A mídia oposicionista sempre repetirá os jargões colonizados de sua antiga revolta contra o destaque internacional de Lula.
    O governo de Barack Obama atua nos bastidores para destruir essa conquista. É uma questão de prestígio pessoal para Obama e Hillary Clinton, que foram desafiados pela teimosia de Lula. Mas trata-se também de uma necessidade estratégica: num planeta multipolarizado e estável, com vários focos de influência, Washington perde poder. E a arrogante independência do brasileiro não pode se transformar num exemplo para que outros líderes regionais dispensem a tutela da Casa Branca.
    Em outras palavras, a paz não interessa aos EUA. E, convenhamos, ninguém leva a sério os discursos pacifistas do maior agressor militar do planeta. Será fácil para os EUA bloquear a iniciativa brasileira, utilizando a submissão das potências aliadas na ONU ou atiçando os muitos radicais de variadas bandeiras, ávidos por um punhado de dólares. Mas alguma coisa rachou na hegemonia estadunidense, que já não era lá essas coisas.

  • 10. às 02:25 AM em 27 mai 2010, Gustavo escreveu:

    O Brasil foi pelo caminho da diplomacia e não da imposição. Fica claro, que ficou no ar, um susto do grupo dos "tradicionais" sobre conquista da diplomacia turco-brasileira. Fica visível o pensamento, não de unidade mas, de imposição ao prório Brasil e Turquia em sua frase "o poder principal nas relações internacionais continua nas mãos das potências tradicionais". Pensando assim vocês negam a própria essência da ONU transformando essa em "clubinho dos magnatas", ou seja, em uma espécie de "Rotary Club" de países. Não tem negociação com os EUA e nem com Israel. Agora o que me deixa mais triste é ver que Israel, o país do meu coração possui tal posição, aliás, ultimamente suas posições estão totalmente insensatas.

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