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Iraque: inquérito e eleição

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Rogério Simões | 2010-03-05, 12:23

brown2.jpgO primeiro-ministro britânico, Gordon Brown, depôs nesta sexta-feira no Inquérito sobre o Iraque, aquele que investiga as razões pelas quais a Grã-Bretanha se aliou aos Estados Unidos na invasão do país árabe. Repetiu o que já havia dito seu ex-chefe, Tony Blair: a decisão de ir à guerra contra Saddam Hussein foi, na sua opinião "correta, tomada pelos motivos certos". Brown, que na época era ministro das Finanças, ainda afirmou que "Estados fora-da-lei" não poderiam livremente desrespeitar a legislação internacional. Ou seja, a guerra contra o Iraque serviria como um aviso para outros Estados considerados criminosos, especialmente aqueles do chamado "Eixo do Mal" do então presidente George W. Bush.

Sete anos depois, o que sobrou desse aviso da aliança anglo-saxã para o resto do mundo? A chamada Doutrina Bush foi definida em documento de 2002, segundo o qual os Estados Unidos consideravam ter o direito de agir preventivamente contra possíveis inimigos. Mas a tragédia do Iraque, que revelou a incapacidade dos Estados Unidos de derrotar inimigos mesmo em nações muito pobres, fez com que a doutrina fosse abandonada. No segundo mandato de Bush, ela nem era mais mencionada em Washington. Com a chegada de Barack Obama à Casa Branca, a estratégia tornou-se apenas um documento histórico.

As respostas de Gordon Brown ao inquérito remetem a um tempo em que outros valores imperavam na política internacional, mas que, em poucos anos, desapareceram. Brown afirmou que, se nenhuma ação fosse tomada contra Saddam Hussein, "a nova ordem mundial que nós estávamos tentando criar seria colocada em risco". Que nova ordem seria essa? Uma ordem baseada no incontestável poderio político e militar dos Estados Unidos, com apoio incondicional da Grã-Bretanha, num processo financiado por um expansionista capitalismo financeiro. Sem questionar se esse caminho era positivo ou não para o mundo como um todo, o fato é que ele ruiu muito antes de se estabelecer. O poder militar americano foi destruído por bombas de fabricação caseira, acionadas por telefones celulares nas beiras das estradas iraquianas e afegãs. O poder político de Washington mostrou-se pífio, com sua incapacidade de levar avanços ao conflito entre israelenses e palestinos ou de impedir que Coréia do Norte e Irã tornassem-se mestres no domínio da energia nuclear. O capitalismo financeiro que financiava esse projeto, como sabemos muito bem, desabou em 2008 e ainda mal consegue se reerguer. A "nova ordem mundial" envelheceu, e em seu lugar parece surgir um mundo muito mais multipolar, em que China, Índia, Brasil e outros conquistam cada vez mais espaço.

Enquanto isso, muito longe das confortáveis salas do Inquérito sobre o Iraque, o próprio Iraque vai às urnas. As eleições deste fim de semana devem consolidar um processo de pacificação política, apesar das insistentes bombas que alguns suicidas seguem detonando no país. O Iraque que parece surgiu neste pós-guerra, do qual os Estados Unidos pretendem retirar suas tropas até o final do ano que vem, é um Iraque sem dúvida mais democrático do que nos tempos de Saddam Hussein. Mas nem por isso é mais próximo de Washington ou do Ocidente. Os iraquianos xiitas devem consolidar seu domínio político no Iraque, possivelmente aproximando o país ainda mais de seu vizinho e ex-inimigo, o Irã dos aiatolás. Irã, por sinal, também uma força significativa, neste mundo que se parece cada vez menos com a "nova ordem mundial" que Gordon Brown "tentava criar".

ComentáriosDeixe seu comentário

  • 1. às 06:38 PM em 05 mar 2010, Jose Pedro escreveu:

    Brown está certo, mais ainda ao citar, a famosa frase sectária, cunhada na nota de um dóllar, "Nova Ordem Mundial", já citada em 80 por George Bush, e em 1919 por outro presidente Americano, John Woodrow, no qual se refere as sociedade secretas e como de seu submundo arquiteta e na superfície (sociedade) surge o efeito desejado.

  • 2. às 08:13 PM em 09 mar 2010, Adroaldo escreveu:


    Justificar a participação de cidadãos Britânicos, numa guerra embasada nas mentiras de Bush sobre as inexistentes Armas de destruição em Massa ou combate ao terror e outras tramóias explícitas, é a coisa mais absurda que a humanidade, por covarde apatia, terá que registrar em sua história.

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