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UE, Mercosul e a crise global

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Rogério Simões | 2008-10-22, 17:11

nicolas.jpgO crescimento da União Européia, que nos últimos cinco anos avançou de 15 para 27 países membros, fez com que muitos imaginassem um futuro de blocos econômicos e políticos ao redor do mundo. O Estado nacional perderia em importância por causa da expansão de entidades políticas supranacionais e do avanço da globalização, que aumenta a interdependência entre países e regiões do mundo, assim como os riscos da interação entre os povos. Juntas, diferentes nações estariam mais bem preparadas para enfrentar os desafios deste ainda jovem século 21.

Momentos de crise representam grandes testes para essa nova forma de organização política. Os atentados de setembro de 2001 nos Estados Unidos levaram os países europeus a colaborar mais em operações anti-terrorismo, e a crescente conscientização sobre os efeitos do aquecimento global têm forçado governos a trabalhar juntos na área do meio ambiente. Agora, a crise econômica global coloca mais uma vez sobre pressão as estruturas supranacionais. Aqui na Europa, inicialmente houve uma corrida desesperada, um salve-se quem puder, em que nações como Irlanda, Grécia e Alemanha fizeram anúncios unilaterais para proteger seus sistemas financeiros. Bancos corriam risco de fechar, e governos nacionais se viram obrigados a agir e anunciar que garantiriam depósitos bancários, independentemente do que ocorresse do outro lado da fronteira.

A globalização do final do século 19 terminou de forma sangrenta: nações européias disputavam colônias mundo afora e tiveram de lidar unilateralmente com os desafios do aumento populacional nas grandes cidades. O resultado foram cinco anos de guerra, com mais de 40 milhões de mortos. Ninguém imagina que países europeus peguem em armas uns contra os outros por causa da quebradeira de bancos, essa estratégia parece ter sido definitivamente deixada para trás. Mas as reações unilaterais colocaram vários pontos de interrogação sobre a capacidade da entidade supranacional, a União Européia, de lidar com o problema. Governos sinalizaram claramente que, se necessário, agirão sozinhos, independentemente dos interesses do vizinho.

Essa reação tem sido, até agora, predominante no Mercosul, que ainda está anos-luz atrás da União Européia em termos de integração econômica ou política. O bloco não avançou nas poucas discussões sobre uma estratégia única para combater os efeitos da crise, pelo contrário: Argentina e Brasil já ameaçam uma guerra comercial, com a Argentina limitando a entrada de produtos brasileiros. Os dois países chegaram a discutir a adoção conjunta de limites a produtos asiáticos, mas o interesse nacional imediato parece falar mais alto até o momento.

Na Europa, alguns governos agora tentam usar a crise para fortalecer o bloco. O presidente francês, Nicolas Sarkozy (foto acima), acaba de pedir a criação de uma espécie de "governo econômico" na zona do euro, que reúne 15 dos 27 membros da UE. Sarkozy quer uma coordenação maior das ações para combate da crise, por meio do Banco Central Europeu. O FMI elogiou as recentes medidas de socorro ao bancos europeus e diz que a zona do euro deve se recuperar rapidamente da fase mais difícil da crise. Se a previsão do FMI se cumprir, o bloco sairá fortalecido, tendo sobrevivido a mais uma prova de resistência. Mas o interesse nacional deve se manter e poderá voltar a ameaçar a unidade européia se governos agirem baseados em seus interesses individuais.

Abaixo do Equador, Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai podem ter interesses e fronteiras comuns. Mas, se a crise global começar a mexer no emprego dos trabalhadores desses países, as necessidades de cada um podem atropelar mais uma vez o blogo regional. Dependendo do tamanho do estrago, há sempre o risco de vermos o retorno do salve-se quem puder no Mercosul.

ComentáriosDeixe seu comentário

  • 1. às 10:31 PM em 24 out 2008, Nenê Osutei escreveu:

    Pelo que eu vi, parece que os paises desenvolvidos com muitos recursos naturais como Brasil, Mexico, até Canada, acham que eles não serão afetadas muito sério pelo esta crise global.

    Mas na verdade, estes paises estão se sentindo as mesmas consequências como o mundo inteiro. Os problemas estão sendo discutido pelo o povo nestes países, na mídia também, mas os governos não prestam muito atenção.

    Talvez estes políticos estejam ocupado acompanhando as eleições nos EUA!

  • 2. às 07:11 PM em 25 out 2008, Luiz M. de Barros escreveu:

    A Humanidade já tem uma longa historia. A Europa já tinha 1500 anos quando o Brasil começava a sua. Hoje temos 508 e ela 2008 anos! E daí? Se essa crise não obrigar todos nos a uma mudança, o planeta continuaria a uma extinção mais rápida. Eu estou otimista! O que deve ser priorizado é o TRABALHO. O aquecimento global é causado pelo consumismo acima do necessário. O tal deus MERCADO com os tais dogmas de liberdade de especular são CRIMES CONTRA A HUMANIDADE. Essa história de ESTADO mínimo criada no ocidente , principalmente nos EUA não poderia perdurar. O consumismo mundial estava sendo incentivado pela especulação e eu tenho certeza de que na América Latina, com os governos de esquerda do Brasil, Argentina, Chile, Paraguai, Bolívia, Equador, e Venezuela, nosso progresso econômico é baseado na riqueza natural e no TRABALHO DECENTE. Assim quando há divergências entre nos e mesmo na Europa quanto ao TRABALHO (EMPREGO), o nível de dialogo é honesto. Não se trata de um querer impedir que o outro TRABALHE. Trata-se de todos nos protegermos da vida virtual dos cassinos financeiros. Vamos usar a crise como freio aos excessos cometidos no mundo do TRABALHO, não atendendo uma demanda irreal. A maioria das pessoas do planeta são honestas e trabalhadoras, a Praga é o tal de Mercado. Infelizmente aqui na América Latina temos uma mídia e uma oposição que continua a apregoar as vantagens fictícias do Mercado. A produção deve se ajustar as necessidades reais das pessoas e ser obtida com preservação do meio ambiente, ou não?. Quem não se lembra daquele livro que dizia que os americanos consomem 45% de toda energia gerada no planeta e se todos nós fossemos querer consumir por igual, onde estaria o planeta?

  • 3. às 10:33 PM em 25 out 2008, Mrs Z. escreveu:

    Os países da América do Sul parecem sofrer mais com instabilidade da política interna do que os países europeus, talvez por serem democracias mais jovens. Sem o amadurecimento do regime democrático e participação mais ativa de diferentes grupos sociais é bastante difícil para os governos sul-americanos concordarem com ações coletivas no âmbito internacional.

  • 4. às 12:48 PM em 28 out 2008, anderson escreveu:

    A questao nesses paise sul americanos não se resume a desatenção por parte do governo.trata-se tao somente de tentar apaziguar os animos entre população ,q acompanha assustada e com olhar leigo para a situação,e os meios de comunicação q expoem o fato de uma forma sensacionalista e,assim,tornam a crise visível aos olhos da populacão.É fato que todos nós sentimos o impacto.Contudo esse sentimento e agravado pela falta de olhar crítico e pela consequente ignorancia atrelada a isso.o governo sim esta agindo de forma cautelosa mas de nada pode fazer a não ser "dançar de acordo com a musica".antigamente eramos espostos a um furacao com qualquer sopro no mercado externo.hoje a economia fortalecida nos permite até fazer especulações e nao entrar em desespero ante uma das maiores crises desde a de 30.É bem verdade também que o consumismo desenfreado pautado no crédito fácil que os bancos davam a custo do endividamento financeiro da populaçao bem como de governos,foi um dos responsaveis por tal crise.o capitalismo é uma relacao de troca nao de escravidão.quando essas sao confundidas ocorre o que nós vemos atualmente.quando se contrai uma divida passa-se a depender cada vez mais do "patrao".e é ai que reside o perigo.nao honrrar com os compromissos nao passa a ser uma questao de desonestidade ,mas sim de manter a propria sobrevivencia.o efeito cascata é iminente nesses casos é,na minha opiniao,o que vem ocorrendo.há de se retomar o livre comércio de bens e serviços mas sem a falsa impressao de dinheiro fácil como muitos oportunistas apregoam.o crédito deve ser dado com cautela até para aqueles que sempre foram adimplentes,porque até mesmo estes nao estão livres de um colapso financeiro.

  • 5. às 12:23 AM em 19 nov 2008, jose maria galharreta mendizabal escreveu:

    Gostaria de dar uma opinião sobre brasil e argentina que gostam de brigar entre si na area comercial e esportiva se criasem uma moeda unica na america do sul seriamos uma das maiores potencia ao contrario morreremos abraçados e terminaremos nas lamentacões.

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