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Obama e McCain: exemplos para o Brasil

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Rogério Simões | 2008-10-14, 16:43

mccain.jpg"O senador Barack Obama é uma pessoa decente, que você não deveria temer como presidente dos Estados Unidos." A frase acima não foi dita por um seguidor do senador democrata ou um comentarista progressista da mídia americana. Ela saiu da boca do adversário de Obama, senador John McCain, o candidato do Partido Republicano à Casa Branca. Em um encontro com eleitores, dias atrás, McCain foi obrigado, mais de uma vez, a defender o líder nas pesquisas de opinião quando pessoas na platéia faziam acusações pessoais contra ele. Uma eleitora de McCain chegou a dizer: "Eu não confio em Obama, ele é um árabe". O candidato republicano tomou-lhe o microfone e disse: "Não, senhora. Ele é um homem decente, um homem de família, um cidadão com quem eu tenho divergências em questões fundamentais, e é disso que se trata essa campanha".

Com a aproximação do dia 4 de novembro e a vantagem de dez pontos percentuais obtida por Obama sobre McCain, era de se esperar que a campanha presidencial americana ganhasse um pouco de lama. No lado republicano, o sentido de "agora é tudo ou nada" levou a candidata a vice, governadora Sarah Palin, a acusar Barack Obama de relações com "terroristas". Palin ressuscitava a polêmica da relação entre o senador por Illinois com Bill Ayers, ex-membro do grupo Weather Underground, que defendia ações políticas violentas nos anos 60. A associação já havia sido explorada pela mídia meses atrás, quando o senador disse ter tido uma breve convivência profissional com Ayers anos atrás e não o via havia muito tempo. Obama condenou as práticas de Ayers no passado, e a polêmica perdeu força. Sarah Palin foi acusada de apelar para a baixaria na campanha, e John McCain afastou-se das acusações. Ao vir a público em defesa do adversário, o republicano provavelmente pensou em proteger não apenas o processo eleitoral americano, mas também sua própria imagem.

McCain, herói da Guerra do Vietnã, é respeitado em todo o país. Barack Obama, em seu discurso na convenção democrata, disse para todo o estádio ouvir: "Que não restem dúvidas: o indicado do Partido Republicano, John McCain, vestiu o uniforme do nosso país com bravura e distinção. E por isso nós lhe devemos nossa gratidão e nosso respeito". A convenção aplaudiu. As críticas ao histórico e às propostas de McCain vieram em seguida, mas o respeito foi mantido. O mesmo respeito que McCain demonstrou ao confrontar seus próprios seguidores.

Bem longe dali, Marta Suplicy e Gilberto Kassab disputam o cargo de prefeito da maior cidade da América do Sul. Vi trechos dos debates. Kassab anuncia uma pergunta à ex-prefeita: "Minha pergunta é pra Marta", diz, antes de tratar a petista por "você". Marta, por sua vez, chama Kassab de "candidato", em vez de "prefeito", e retribui o "você". Segundo a tradição e padrões de elegância, autoridades públicas devem ser tratadas por "senhor" ou "senhora", e ex-ocupantes de cargos são chamados pela maior posição que já ocuparam. Bill Clinton será sempre chamado de "presidente Clinton", e Franco Montoro continuou sendo "governador Montoro" até morrer. Os candidatos paulistanos se esqueceram de tudo isso.

A campanha da ex-prefeita petista agora decidiu questionar a vida pessoal do chefe do Executivo municipal, se ele é ou não casado, se tem ou não filhos. Questionada pela imprensa, Marta disse que a população de São Paulo tem o direito de conhecer "todo esse DNA do Gilberto Kassab". De dentro do próprio PT, vieram duras críticas, expostas em um comunicado do comitê LGBT. A campanha deixou de ir ao ar. O julgamento fica a cargo do eleitor.

Barack Obama e John McCain protagonizam uma envolvente campanha, num momento crucial para a história dos Estados Unidos, em meio à maior crise econômica das últimas décadas. Muita lama já foi lançada, e a baixaria poderá voltar na reta final. Mas, em momentos diferentes, ambos mostraram esforço pessoal por uma campanha mais limpa. São bons exemplos para candidatos no Brasil.

ComentáriosDeixe seu comentário

  • 1. às 09:02 PM em 14 out 2008, jose alberto escreveu:

    A pequena diferenca reside em uma questao basica: tolerancia e respeito. Este e apenas um dos inumeros detalhes que explicam por que o Brasil e um pais maravilhoso, mas pobre e os Estados Unidos e a nacao mais rica e desenvolvida do mundo (talves nao tao maravilhoso). Como o exemplo vem de cima, preciso dizer mais alguma coisa....

  • 2. às 09:50 PM em 14 out 2008, Ariadne Sakkis escreveu:

    Entendo que campanhas políticas apelem para a paixão do eleitor. A prática é adotada tanto por gringos como por brasileiros. Mas admiro que em um momento crucial da história americana - e diga-se de passagem, da história mundial - e decisivo para as eleições, os candidatos do Norte decidam preservar o respeito ao outro e a própria dignidade ao ignorar a tentação dos golpes baixos e desnecessários. Como eleitora, prefiro ver um canditado falando de como ele pode mudar um país ao vê-lo tentar me convencer de como o outro é incapaz de fazê-lo. E é curioso como a candidata Suplicy faz nascer uma suposta dúvida a respeito da sexualidade do adversário quando ela mesma é uma sexóloga esclarecida e a favor da união estável entre pessoas do mesmo sexo.

    São Paulo, tão elegante, merece candidatos à altura.

  • 3. às 12:25 AM em 15 out 2008, Miguel Bonifacio escreveu:

    Mas que idéia boba, até parece que nos EUA a baixaria é civilizada. Quem é que expôs, em detalhes, a felatio no presidente? Quem é que escancarou os e-mails do deputado para o estagiário? Ora, discutir pronomes de tratamento é avalisar a hipocrisia americana, uma moral pública, derivada do puritanismo, que "acha" que encobre uma realidade bem pouco louvável. Campanha política, com raríssimas excessões, é pauleira em todo o mundo. Quem não quer se expor não se candidate, pois sabe que terá que enfrentar os deslizes normais, explorados ao máximo.

  • 4. às 03:55 AM em 15 out 2008, Helio Miguel escreveu:

    - Ele é um árabe.
    - Não, senhora. Ele é um homem decente, um homem de família.

    Claro que a mulher falou 'árabe' em tom pejorativo, e por isso a resposta. Mas que na transcrição ficou tragicamente engraçado, isso ficou.

  • 5. às 05:53 PM em 15 out 2008, Henrique escreveu:

    Não, gostei. A mania de sempre que o americano é melhor que o brasileiro. O desrespeito daqui é bom no sentido que tornam as coisas mais claras e não ficamos engolindo o respeito para quem não merece. Não deveriamos respeitar uma pessoa pelo seus cabelos brancos ou por ser candidato. Até os canalhas envelhecem.

  • 6. às 10:45 PM em 15 out 2008, paula escreveu:

    Boa Rogério!! A a corrida eleitoral aqui em São Paulo mais parece uma briga entre filhos querendo chamar a atenção dos pais para demonstrar quem é que está certo do que qualquer outra coisa, incomoda de tão infantil que é. O que aconteceu com os líderes? A nobreza de espírito? A vontade de demonstrar ao que vieram? Me pergunto como é que gente assim chega a ser candidato da maior metrópole da maior cidade do nosso país. E olha que esses dois que nos sobraram tiveram uma "ótima educação". Só temos mesmo é que lamentar.

  • 7. às 04:24 PM em 17 out 2008, Oscar escreveu:

    " Obama e Mcain, exemplos para o Brasil ''... Sinceramente talvez eles sejam exemplos para Kassab ou Marta e não para um país de 200 milhões de habitantes. É que a imprensa brasileira tem um certo complexo de vira-latas como já dizia Nelson Rodrigues. Acha que tudo que os estadunidenses fazem é melhor.

  • 8. às 10:49 PM em 17 out 2008, isabella abdalla escreveu:

    Eu não acho que a conduta dos candidatos a presidência dos EUA tenha algo de tão virtuoso que possa ser apontado como exemplo para o Brasil... Mesmo porque esses dois países não diferem tanto quando o assunto é campanha eleitoral de baixo nível. Vejamos: é fato que o comitê de campanha de McCain abriu espaço para que os seus simpatizantes chamassem Obama de "terrorista" e outros adjetivos bem pouco lisonjeiros. Daí, a par da violência e ódio gerados nessas reuniões republicanas, vários formadores de opinião reclamaram e, para piorar a situação, as pesquisas começaram a dar conta que ao agir dessa forma McCain estaria afugentando, por assim dizer, o eleitor indeciso ao promover uma campanha tão negativa - e suja, diga-se de passagem. Ciente desses desdobramentos ruins para a sua campanha à presidência, o bom e velho herói de guerra McCain achou por bem, pelo menos, aparentar ares de elegância dizendo: "não, meus amigos, ele é um homem decente, um homem de família, um cidadão e blablabla..." (Isso sem contar que ser árabe não exclui a possibilidade do indivíduo acumular outros predicados, como decente, de família ou cidadão, p.ex.). Conclusão: o que eles (os candidatos dos EUA) fazem, na verdade, é puro jogo de cena para "sair bem na foto". O que falta aqui no Brasil é somente um punhado a mais da "elegância" (leia-se, falsidade) dos candidatos americanos.

  • 9. às 02:10 PM em 18 out 2008, Dandolo Bagetti escreveu:

    Estou com receio de OBAMA,pois acho que ele será o Lula dos EUA.Lula,na minha opinião, governou para os Banqueiros e Especuladores Financeiros, e é o Rei dos Populistas. O OBAMA tem uma agravante, que é o Poder das Armas.Imaginem um Lula governando os EUA e com o Poder das Armas. Vai querer agradar a todos com a sua demagogia, o que prejudicará a economia real dos americanos. E toda vez que os EUA ficam em dificuldade interna, fazem uma guerra externa para unir o povo americano.

  • 10. às 07:12 AM em 20 out 2008, Bruno escreveu:

    Eu acho a imprensa brasileira ridícula, super focada em vender acima da notícia, publicam mesmo não tendo todos os fatos e quando isso acontecem até inventam fatos.

    Sobre essa comparação, serve de para a campanha paulistana, mas a carioca do senhor Gabeira serve de exemplo de campanha correta e inteligente, não panfletou por afirmar o quanto isso suja a cidade e não entra em discuçoes sobre a concorrência, simplesmente ignora e diz que prefere fazer uma campanha focada em realizar os problemas da cidade, apesar do senhor Paes tentar de tudo para irrita-lo nos debates.

  • 11. às 05:33 PM em 20 out 2008, Dine Estela escreveu:

    Penso que o Brasil sim, tem bons exemplos para dar em relação às eleições. Nossos pleitos são organizados e não levamos nem 24h para dar os resultados. A Ficalização é rigorosa e nosso Superio Tribunal de Justiça deu um show de ética este ano, com as restrições a propagandas fora de época.

    Quanto à postura dos candidatos, penso que seja saudável que os "podres" venham à tona, no entanto, é muito desconfortável às críticas levianas. Mas isto, acontece em todo lugar, inclusive, nos Estados Unidos, com raríssimas exceções como está ocorrendo agora...

  • 12. às 02:34 PM em 21 out 2008, Yara escreveu:

    Me poupe dessas comparações infames entre a conduta dos americanos e a dos brasileiros. Obama foi chamado de terrorista pelo seu adversário. Isso também deve ser copiado?
    Não esperaria ler uma coisa tão ridícula nesses últimos tempos! Ainda mais nesse blog!
    É essa falta de amor pela pátria que nos faz ser tão não-civilizado! Tomates ao autpor do blog e uma salva de vaias!

  • 13. às 02:13 AM em 22 out 2008, Eduardo Guzzo escreveu:

    Discordo. Não são bons exemplos. Não somos norte-americanos ou europeus, tratar oficiais do governo como presidente, governador, senhor ou senhora não fazem parte de nossa cultura. Dizemos 'você' ou chamamos pelo nome, não interessa, não queremos ofender através disso e essa é nossa cultura, não somos melhores ou piores por causa disso. Nos Estados Unidos, McCain e Obama se dirigem um ao outro com toda a educação, fazem elogios, mas isso é só hipocrisia. A sujeira na campanha americana é repugnante - Obama já foi ligado a muçulmanos, a terroristas, a socialista...; Palin praticamente negou o feminismo até se tornar candidata. No Brasil esse lamaçal acontece em nível bem menor, o pior este ano foi Marta ter dito que Kassab é homossexual, apelando para o preconceito do paulistano. Porém, pelo menos, aqui não há tanta hipocrisia, ninguém joga rosas para depois jogar merda e nosso número de acusações absurdas não chegou nem perto do número americano. Acredito que essa coluna tenha sido escrita com uma idéia compartilhada por muitos brasileiros: que os americanos são sempre melhores. Não são. Precisamos analisar o que eles fazem e não simplesmente elogiar e seguir o exemplo.

  • 14. às 02:02 PM em 23 out 2008, José escreveu:

    Sem dúvida alguma!

    O Senador McCaim é um exemplo para o Brasil e para o mundo de: COMO NÃO SE DEVE ESCOLHER UM VICE!

  • 15. às 11:58 AM em 11 nov 2008, Jorge escreveu:

    Apesar do Adversarão de Obama dizer publicamente ser Obama o seu presidente.
    A oposição a Obama vai ser ferrenha.
    Acho que Obama deveria pensar duas vezes antes de ir Ao Texas.

  • 16. às 04:58 AM em 06 dez 2008, Ronald Cruz escreveu:

    Eu ja sabia !!
    http://webbahia.com

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