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Carnaval brasileiro no frio de Londres

Rogério Simões | 2008-02-05, 14:15

O Carnaval brasileiro segue conquistando admiradores na Grã-Bretanha. Não nas ruas, pois nesta época do ano o frio e a chuva gelada transformam as ruas do país em uma passarela nada apropriada para o samba. Mas bares brasileiros, que atraem cada vez mais ingleses com suas caipirinhas, coxinhas e shows de samba, vêm aproveitando o mês de fevereiro para lucrar com a famosa festa.

No Brasil eu nunca fui de pular Carnaval, podendo contar nos dedos de uma mão o total de vezes em que me deixei levar pelo espírito do samba, do frevo ou do axé. Nas redações de jornais em que trabalhei eu era o primeiro a me oferecer para fazer plantão nesta época do ano em troca de uns dias de folga na Semana Santa. Aqui em Londres, terra da música eletrônica e do rock, não poderia ser diferente, e eu nunca me importei muito com a nossa festa nacional.

Mas neste ano de 2008 eu resolvi experimentar. Convidado por amigos a conhecer a festa no bar Guanabara, o mais famoso ponto de música e costumes brasileiros na capital britânica, no sábado, eu resolvi encarar uma noite de ritmos brasileiros em solo europeu. Foi uma experiência curiosa, a começar pela chegada ao local. Alertado por uma amiga de que se eu não chegasse antes das 19h30 poderia não conseguir entrar, eu me postei na fila do Guanabara às 19h20, horário em que muitos no Brasil ainda estariam terminando o prolongado almoço de sábado. Um pouco mais de atraso e minha noite estaria comprometida.

O frio cortante já sugeria uma noite diferente. Após 40 minutos de fila, consegui ser incluído na concorrida festa e recebi, como sinal de boas-vindas, uma máscara vermelha. A noite, chamada de Bal Masqué, tinha como trilha musical ritmos brasileiros dos mais diversos. De famosos sambas-enredo e marchinhas a Tim Maia, passando por Jorge Ben e Beth Carvalho, a música trazia um amplo leque de opções de canções brasileiras para todos os gostos. O serviço no bar também merece elogios. Um sinal a quase dois metros do bar era o suficiente para que uma bela e simpática brasileira, cheia de purpurina no rosto, reconhecesse em mim um brasileiro com sede e me trouxesse uma cerveja (Brahma) gelada. Ao seu lado, um eficiente barman atendia de dois a três fregueses ao mesmo tempo, coisa que não se vê num pub inglês, onde é um por vez, e todos têm de ser pacientes. Ponto para o atendimento bem brasileiro.

Mas a combinação dos espíritos brasileiro e britânico era mais nítida na pista de dança, lotada e animada a noite inteira. Homens ingleses apenas dançavam. Já as inglesas dançavam e desviavam dos insistentes brasileiros que sonhavam em reproduzir no centro de Londres as ruas de Salvador, onde beijos na boca são parte integrante da festa. Os homens brasileiros dançavam, se frustravam ao ver que Londres não tem nada a ver com a Bahia e lotavam o bar. Mas, na minha opinião, quem se divertia mais eram as brasileiras. Ao contrário das inglesas, que não sabiam sambar e se assustavam com a abordagem dos latinos galanteadores, as garotas nacionais estavam muito mais à vontade, tanto dançando como dispensando cantadas indesejáveis. Se quisessem optar por um romance de Carnaval, podiam escolher entre o brasileiro extrovertido e o tímido inglês, pois ambos pareciam admirar seus passos e seus sorrisos no salão.

Ao final da noite, um jovem brasileiro demonstrava frustração com a falta de contato físico no Carnaval londrino. "As inglesas fogem de medo. As brasileiras, quando percebem que você também é brasileiro, te ignoram. Não está fácil." Mas de uma forma ou de outra a maioria parecia estar adorando a festa, mesmo durante um estranho show de uma drag queen, aplaudida como se fosse a própria Madonna. À 1h, quando dei por encerrado meu Carnaval, a fila na porta do Guanabara ainda dobrava a esquina. Londres não é o Rio nem Salvador. Mas aos poucos o Carnaval brasileiro vai achando seu espaço na cidade.

ComentáriosDeixe seu comentário

  • 1. às 05:40 PM em 05 fev 2008, Sam escreveu:

    Obrigada por compartilhar a experiência! Eu queria ter ido a essa festa no Guanabara, depois de ler a recomendação num artigo no TimeOut, mas tinha um trabalho de faculdade pra entregar na segunda e não rolou.
    Brasileira em Londres há somente 1 ano e meio, ainda estou descobrindo os recantos e eventos nacionais na cidade. Assim como muitos que se vêem deslocados das referências culturais habituais, também estou me vendo curiosa por coisas que no Brasil eu simplesmente 'took for granted'. Carnaval é uma delas. Agora, só no ano que vem!

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