« Anterior | Principal | Próximo »

Iraque invade os cinemas

Categorias dos posts:

Rogério Simões | 2008-02-19, 18:22

haditha203.jpg
Recentemente escrevi aqui sobre livros que tratam da guerra no Iraque, analisando seus diferentes momentos e suas conseqüências para o mundo. Agora em 2008 o conflito chega com força total às telas de cinema, com várias produções abordando seus momentos mais dramáticos. Nos anos 70, o cinema esperou por anos, após o fim da Guerra do Vietnã, para poder abraçá-la. A guerra no Iraque ainda não acabou, pelo contrário, mas dessa vez o cinema preferiu agir antes. O resultado é a transformação em filmes, no estilo documentário, de três dos mais emblemáticos e trágicos episódios envolvendo a ocupação americana no Iraque.

O diretor americano Brian de Palma, conhecido por seus clássicos do suspense, escolheu o estupro e assassinato de uma jovem iraquiana de 14 anos em 2005, em Al-Mahmudiyah. No episódio, cinco soldados do Exército americano invadiram a casa de Abeer Hamza, que foi violentada e assassinada pelo grupo. Os soldados ainda mataram seus pais e sua irmã, de cinco anos de idade. De Palma reconstruiu o caso mesclando técnicas de documentário com elementos de ficção, o que resultou no excelente Redacted, que lhe valeu o prêmio de melhor diretor no Festival de Veneza. Mas a obra também provocou a ira de um grupo que a considerou um insulto às Forças Armadas americanas e criou o site Boycott Redacted, promovendo a hostilidade ao filme.

Em um trabalho semelhante ao de De Palma, o britânico Nick Broomfield recriou, em Battle for Haditha, a ação em que fuzileiros navais americanos mataram 24 civis iraquianos, incluindo mulheres e crianças. O caso (foto acima), ocorrido na cidade de Haditha também em 2005, foi inicialmente apresentado pelo comando das tropas dos Estados Unidos como um confronto entre soldados e insurgentes. Mas meses depois uma reportagem da revista Time revelou em detalhes o massacre. O filme de Broomfield leva essa realidade à grande tela. Em uma produção em que ex-fuzileiros americanos interpretaram seus colegas e sobreviventes do massacre viveram as vítimas, o horror da guerra no Iraque é exposto de forma poderosa e tocante.

Os personagens/soldados de Haditha têm uma imagem levemente mais positiva do que em Redacted, já que Broomfield defende a interpretação de que eles também são, de certa maneira, vítimas do conflito. Os comandantes, os chefes de governo, "os Bushes e Blairs" da vida é quem seriam os verdadeiros responsáveis, segundo disse o diretor em um recente debate em Londres. Ele ainda não sabe quando seu filme será lançado nos Estados Unidos ou mesmo se alguma distribuidora terá coragem em fazê-lo.

O terceiro episódio envolvendo atrocidades de soldados americanos no Iraque a chegar ao cinema, e certamente o mais famoso de todos, é o da prisão de Abu Ghraib. O diretor Errol Morris, que recebeu um Oscar em 2004 por Sob a Névoa da Guerra, aborda os abusos de prisioneiros iraquianos em Standard Operating Procedure, que ficou logo atrás de Tropa de Elite no Festival de Berlim. O trabalho de Morris parece estar sendo mais bem aceito pela indústria americana: produzido pela Sony Pictures, SOP será lançado em abril nos Estados Unidos.

O cinema de hoje parece não fugir da difícil tarefa de misturar jornalismo e arte para atingir um público muitas vezes cansado do noticiário diário. Para muitos, esse cinema engajado, inspirado em tragédias reais da política e das guerras, é uma alternativa a um jornalismo cansado e fragmentado. Outros podem argumentar que a leitura subjetiva de diretores de cinema acaba oferecendo versões nem sempre fiéis aos fatos. Mas é bom saber que nossa realidade atual, por mais cruel e violenta que seja, cada vez mais inspira diretores de cinema. Se a arte puder ajudar o jornalismo a decifrar o complexo mundo em que vivemos, o público só tem a agradecer.

ComentáriosDeixe seu comentário

  • 1. às 10:33 AM em 26 fev 2008, Luiz de Carvalho Ramos escreveu:

    As palavras terão o seu final e o mundo se comunicará através de imagens. O jornalismo televisivo sobreviverá.

  • 2. às 07:04 AM em 07 mar 2008, Altino Correia escreveu:

    Violência e perversão parecem ser o prato predileto de determinados produtores de cinema. E isso,para um público que praticamente não evoluiu nada no decorrer dos últimos anos. O piór de tudo é que esse mau-exemplo acaba sendo assimilado e adotado por uma boa parcela de gente civilizada, mas de péssimo gosto.

  • 3. às 12:34 PM em 07 mar 2008, verceus escreveu:

    O mal não é americano. O ser humano quando tem o poder absoluto em suas mãos mostra como é animalesco e primitivo pois se houve evolução foi na maquinaria e ciência e na forma aparente o intimo humano continua o mesmo de a 50.000 anos atraz. A estupidez é a guerra e esta existe por causa de governos. Agora os governos são formados por gente do povo e não por marcianos.Qualquer pessoa de qualquer pais em guerra é capaz de fazer o que estes soldados fizeram e so verificar o que ocorre na África, na Servia, na Alemanha, na Rússia etc etc etc.

  • 4. às 03:53 AM em 23 mar 2008, Flávia Cohen escreveu:

    Acredito que o público cansou de pagar ingresso para assitir filmes de ação apelativos. O público ainda quer ver ação, mas sob o enredo de situações que fazem parte do seu cotidiano. Os diretores perceberam essa tendência e as políticas externas de nações poderosas facilitaram o trabalho dos roteiristas. Agora é só juntar a fome com a vontade de comer e, claro, bom filme!

  • 5. às 03:06 PM em 24 mar 2008, Léia escreveu:

    Com as novas tecnologias, globalização e crescimento da internet o jornalismo está se inovando em linguagens... é muito válido juntar arte e jornalismo em nome da cidadania e denunciar o que pudermos para melhorar esse nosso mundo que é lindo, mas é dominado por pessoas sem escrúpulos.

  • 6. às 09:56 AM em 26 mar 2008, Milton Junior escreveu:

    Sabe...

    Lendo o post do Rogério e os comentários do pessoal, me recordei da sensação que tenho por vezes ao assistir a série de tv chamada Law & Order, que por sinal gosto muito.

    Quem já assistiu, vai me ajudar. É sobre casos do departamento de polícia de Nova Iorque e o "andar" da carroça ao longo do processo entre o criminoso executando o crime e o dito cujo ouvindo a sua pena diante do juiz no tribunal.

    A questão pertinente ao post me ocorre quando algum policial diz algo do tipo: "Ah, esses terroristas... isso está acontecendo direto desde o 11 de setembro".

    Estou pisando um pouco fora da linha do jornalismo televisivo agora, mas o que quero dizer é que, talvez para os americanos soe muito bem ouvir isso. Está dentro do contexto da vida deles achar que o mundo está todo contra os EUA, que este é um país em guerra e que, com ou sem conflito, "nós vamos vencer".

    Mas para mim, um pobre ralé telespectador brasileiro, ouvir aquilo, não produz nenhum tipo de sentimento de "ah é verdade". Por mim, tanto faz. Isso é lazer e não dever cívico de mostrar, de se preocupar em colocar aquilo no roteiro. Muito menos, de assistir aquilo e achar normal. Salvo o pequeno detalhe de Law & Order ser uma série produzida por americanos, para americanos, sobre americanos... e eu de intrometido brasileiro nessa história toda.

    Eu condeno o terrorismo. "Na boa", é como consumir drogas. Se trata de uma burrice sem tamanho e uma tremenda perda de tempo, recursos e... é um saco, convenhamos. Mas nem por isso, colocaria em mais de dois roteiros meus sobre o Iraque, ou terrorismo. Como disse a Flávia no outro comentário, queremos ver "ação sob enredo de situações que fazem parte do seu cotidiano"... e não ficar remoendo o Iraque, Bin Laden, Afeganistão e Saddam.

    Ver cenas e/ou citações do Iraque (ou ao ataque às torres gêmeas) dentro de filmes americanos hoje em dia me soa tão estranho (ou qualquer outra palavra que tenha o mesmo significado) quanto ver um casal transando ex-plí-ci-ta-men-te (ou como diria o Ivan Lessa, o "pif-paf pélvico") em uma novela da Globo às 20h40.

    Mas isto vai passar. É uma fase e eles irão superar isso. É o que espero.

  • 7. às 05:41 AM em 08 abr 2008, Miguel Lenz escreveu:

    A Guerra da Coréia (1950-1953) foi um marco decisório para o cionema americano.Até àquela data, todo filme que era produzido nos EUA tratava as tropas e o comportamento dos soldados daquele país sob um prisma de heroísmo, de defensores da liberdade”, etc. A partir daí, o cinema começou a retratar justamente o contrário: soldado americano é bandido, sanguinário, etc.OIu seja, ocorreu uma distorção e mudança no posicionamento ideológico de seus diretores.

    Para mim, a demonstração da barbárie americana, em certos fatos que ocorre0m no Iraque, não é novidade, afinal, qual país que em guerra não praticou atos desumanos?
    Os franceses na Argélia, por exemplo, mataram, violaram, estruparam, roubaram e fizeram um rosário de crueldades que se assemelham às crueldades dos alemães na II Guerra Mundial.Os ingleses, então, se levantarmos todas barbaridades que praticaram na África, Ásia e América, teríamos de fazer um filme com mais de l milhão de horas!..Os japoneses , durante a ocupação da China, cometeram tanta violência, estrupos, etc., que até hoje chinês não fala com japonês!
    Enfim, “guerra é guerra”, como dizia um parente meu que sofreu os horrores da invasão nazista na Polônia.Afinal, querer bom comportamento de um homem super armado num ambiente hostil e estranho para ele, como ocorre com os soldados americanos no Iraque, é querem pedir ao Bin Laden que corte a barba!

    Vamos deixar de ser cínicos!
    Se americanos estão se comportando barbaramente no Iraque, todos outros soldados envolvidos em conflitos também se comportam assim.Nunca existiu “guerra civilizada”, nem no Iraque, nem na Europa e nem no Paraguai, quando tropas brasileiras fizeram tal massacre que até hoje a população daquele país ainda não se recuperou
    Guerra do Viet Nan, Somália, Bósnia, Iraque, etc., são conflitos excelentes para encherem bolso de malandros como o tal de Michael Moore, cujos lucros com a filmagem sobre este último conflito, dá para financiar a comida que ira encher sua barriga enorme por 2.000 anos, ajudando-o a poluir ainda mais o planeta com seus gases intestinais!

  • 8. às 11:56 PM em 08 abr 2008, Miguel Lenz escreveu:

    Volto a perguntar: Algum cinegrafista retratou os "horrores" dos ingleses contra os Argentinos na Guerra das Malvinas? Ora, só de marinheiros argentinos mortos, que estavam num encouraçado da I Guerra Mundial, covardemente afundado por um submarino nuclear, foram 600.!..
    Alguém retratou o "horror" da ocupação Indonésica em Timor? Ou da Invasão Russa no Afeganistão?
    Porque ninguém escreve ou fala da Guerra da Bósnia? Dos atentados da ETA na Espanha?Das guerras tribais na África? Do massacre de um milhão de ruandenses?Porque só os americanos "praticam atos bárbaros"?

    Lógico, para Michel Moore é mais fácil encher os bolsos de Dólares (ou Euros)retratando a morte de 6 pessoas no Iraque do que o massacre de um milhão de africanos
    Além disso, se ele mostrasse os horrores das guerras tribais, poderia se acusado de "politicamente incorreto" e sofrer perseguição da mídia comprometida com o "esquerdismo esnobe americano", aquele que procura chifre em cabeça de cavalo para aparecer, não para construir algo com suas críticas. Aliás, este mal também é prerrogativa de alguns cronistas latinos americanos, como foi o falecido Paulo Francis( que Deus o tenha...) , ardente crítico das coisas Yankes mas que adorava viver por lá!A isso denomino de "pilantrismojornalístico", onde o cara critica somente o que pode lhe render espaço na mídia e, consequentemente, dividendos para pedior aumento salarial ao patrão!
    Infelizmente, este "pilantrismojornalístico" afeta, inclusive, extraordinários canais de comunicação, como a BBC, que às vezes abriga jornalistas "interessetecos" em detrimento daqueles que estão a serviço da verdade, doa a quem doer, inclusive aos adeptos "escandolasamenecorretamente tepolititecos", cujos fins justificam os meios e cuja barriga como a do tal de "cineastra" Michell Moore" está acima da razão e do interesse geral

  • 9. às 01:56 PM em 02 ago 2008, jose marcio moreira parente escreveu:

    Infelizmente, os filmes de violência, são os que tem maior audiência, mas não acredito que seja pela violência em sí. creio que o que as pessoas mais procuram é ação, e geralmente os firlmes mais violentos são os que mais tem ação.
    Quanto à violência ser divulgada e poder influenciar as pessoas, não vejo por este prisma. creio que o objetivo maior, por exemplo no caso dos filmes que retratam a invasão do iraque Iraque,e a dominação americana desmedida, é denunciar ao mundo as atrocidades dos americanos de formação bestial, tanto dos mandantes quanto dos subordinados, como foi no caso de abu ghraib. Não creio que soldados treinados e orientados para uma guerra, tivessem necessáriamente que também ser treinados para cometer estupros, torturas e assassinatos até de crianças, como um kit de conhecimentos de guerra indispensável. acredito que só cometeram os abusos que praticaram e continuam praticando porque receberam carta branca. vejo a situação do Iraque como os odiados pelos bushs, que em certo momento da História foram desmoralizados por Sadam Husseim, homem do mesmo quilate dos bushs. os Bushs, ao meu ver, são sanguinários compulsivos e usurpadores das riquezas dos povos com o intuito de obterem recursos para manter os seus soldados no mundo, uma vez que o império ainda é poderoso, mas é decadente.
    penso que estes filmes, podem nos retratar estes fatos, se acompanharmos os noticiários da tv.

BBC © 2014 A BBC não se responsabiliza pelo conteúdo de sites externos.

Esta página é melhor visualizada em um navegador atualizado e que permita o uso de linguagens de estilo (CSS). Com seu navegador atual, embora você seja capaz de ver o conteúdo da página, não poderá enxergar todos os recursos que ela apresenta. Sugerimos que você instale um navegados mais atualizado, compatível com a tecnologia.