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A arte de prever o futuro

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Rogério Simões | 2007-12-28, 16:05

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Semanas atrás, como acontece há vários anos, nós aqui na BBC participamos de uma reunião especial para debater os prováveis destaques no cenário internacional no próximo ano. O evento, do qual participaram jornalistas da BBC de várias nacionalidades, teve como base a edição especial da revista The Economist, chamada The World in 2008. O editor da publicação, Daniel Franklin, apresentou seus dez destaques, o que gerou uma interessante troca de opiniões/previsões/dúvidas dos outros jornalistas presentes. Como todos sabemos, é muito difícil prever o futuro, mas trata-se de um exercício estimulante e divertido.

Franklin abriu sua lista falando da China, que segundo a Economist deverá se tornar a terceira maior economia do mundo (atrás de Estados Unidos e Japão) e o maior exportador (superando a Alemanha). Ele ainda arriscou dizer que os chineses conseguirão mais medalhas de ouro do que os americanos nos Jogos Olímpicos de Pequim. Outros dois temas no topo da lista de Franklin eram também fáceis de identificar: as eleições presidenciais americanas, em novembro, e o meio ambiente, já que as disputas envolvendo cientistas e políticos em torno do aquecimento global continuarão intensas.

Duas outras previsões de Daniel Franklin chamaram minha atenção, por representarem uma volta a um passado não muito distante: o avanço do "modo de pensar" russo, liderado pelo presidente Vladimir Putin, como uma alternativa à fórmula ocidental "democracia + livre mercado"; e o retorno do risco político para a economia mundial, algo que muitos imaginavam estar superado, depois da disseminação da democracia liberal na década de 90. O fato é que há, certamente, sinais de que estamos voltando a viver em um mundo onde as saídas políticas são menos previsíveis e mais capazes de influenciar o cenário econômico global. É só observar o peso que têm hoje as decisões dos governos de Rússia, Venezuela, Irã e China no cenário internacional.

Outra revista que arriscou seus palpites para 2008 foi a recém-criada Monocle, que convidou especialistas para discutir o novo ano. Em seu artigo, Michael Shifter previu um distanciamento ainda maior entre América Latina e Estados Unidos, enquanto Michael Axworthy acredita em poucos avanços nas relações entre o governo americano e o Irã. A Monocle também apontou cinco regiões do mundo que devem estar em evidência, entre elas a Bahia, por causa do cultivo de cana-de-açúcar para álcool combustível.

A Economist não fugiu de uma auto-avaliação sobre suas previsões para 2007, feitas no final de 2006. Em um dos textos de sua edição especial, Daniel Franklin lembrou os acertos da revista, que apostou na eleição de Nicolas Sarkozy na França e previu um confronto entre islamistas e secularistas na Turquia. Mas ele admitiu erros, como acreditar que o então primeiro-ministro japonês, Shinzo Abe, se fortaleceria ao longo do ano (Abe acabou deixando o cargo).

Erros como esse não impedem que previsões sejam feitas pelo mundo afora, por analistas, consultores, videntes, jogadores de búzios e, logicamente, jornalistas. Franklin inclusive inclui na sua lista de destaques para 2008 o avanço do "futurismo", exercício que substituiria a "futurologia" e daria mais atenção a mudanças que afetem um pequeno grupo social, as "microtendências", ou relativas a um curto espaço de tempo. Em um mundo onde tudo muda com uma rapidez nunca vista, a arte das previsões estaria agora em identificar mudanças nos próximos meses, não nos próximos anos ou décadas. Mesmo assim, futuristas evitam ser categóricos sobre o que vai acontecer, sempre deixando margem para apostas alternativas. Afinal, eles sabem que, mesmo em suas microprevisões, serão certamente supreendidos pelo que nos aguarda em 2008. Feliz ano novo a todos.

ComentáriosDeixe seu comentário

  • 1. às 11:26 PM em 28 dez 2007, Flávio Oliveira escreveu:

    Coisa interessante é observar a metodologia de trabalho das grandes corporações e o nível do planejamento no mundo executivo. Antes de mais nada, o post me inspirou a já estou "chupando" para o meu cotidiano, como publicitário e jornalista, essa atividade que exercita um grande poder do ser humano: a sua capacidade de IMAGINAÇÃO. Esta, em doses equilibradas com a INFORMAÇÃO, pode sim antever FATOS.
    Que tenhamos um grande 2008. Do tamanho da nossa imaginação!

  • 2. às 05:03 PM em 31 dez 2007, anunciação escreveu:

    FELIZ 2008 PARA A BBC COM TODOS OS SEUS PROFISSIONAIS.O resto eu acho que permanece como exercicio de imaginação,mas é bom;movimento os neurônios e sempre pode sair muita coisa boa.

  • 3. às 01:31 PM em 01 jan 2008, Miguel Lenz escreveu:

    Para MIM, com respeito à opinião do editor, nada mais “furado” do que futurologia jornalística.Geralmente, esta “futurologia” acerta (medianamente) noticias no varejo, jamais no atacado. Por exemplo: Qual o jornal do mundo que previa, nos anos 80( inicia) ,que o comunismo iria acabar?Nenhum. Pelo contrário, muitos apostavam na eternidade deste regime, como o Jornal Lê Monde, que previa “um futuro marxista para a humanidade”, não tão radical como dos clássicos teóricos, mas se aproximando mais das teorias de Froom com um “comunismo humanizado”.Alguém hoje fala em Froom?
    Outra coisa, qual o jornal do mundo preveu a ascensão da China como “potencia capitalista liberal”? Nenhum.O advento do jornal on line no inicio dos anos 90, como grande concorrente do jornal impresso?Algum jornal, por exemplo, nos anos noventa,. falou alguma coisa sobre o derretimento da Calota Polar?Ou então, que a Venezuela poderia ameaçar a América do Norte? Que Lula, o Presidente Brasileiro de origem operária, faria um governo que um “paraíso capitalista” e o nirvana dos Bancos Internacionais?Nenhum. Nenhum.Nenhum!!...A própria BBC também andou dando uma de “futurologa” e deu com as botas no barro. Por exemplo, quantas li sobre a seleção de futebol da Inglaterra como uma potencia futebolista renascente. Cadê, você, Seleção Inglesa? O gato comeu?

    Um próspero 2008 a todos

  • 4. às 04:13 PM em 01 jan 2008, aroldo haíst escreveu:

    me parece que estes dados de previsão estão bem embasados,arriscaria em dizer com certa convição que a FARC não vai liberar ninguem,isto é um forte engodo....feliz 2008 a todos desta coluna..aroldo haíst

  • 5. às 08:22 AM em 02 jan 2008, Alessandro Cavalcante escreveu:

    Sempre acreditei que é mais fácil um jornalista "prever o futuro" do que uma vidente ou um jogador de buzios. A midia tem acesso a informação e hoje em dia a midia está muito profissional; existem jornalistas especializados em quase todas as areas e quando não são pedem ajuda a outros profissionais. O futuro é incerto e ele nos aguarda de uma forma ou de outra - o inevitável. Mas são justamente essas previsões divulgadas pela própria midia que pode ter impacto direto em algum acontecimento que envolva a ação direta de alguém. Dependendo da midia. Espero realmente que a midia acerte nas "previsões" boas para o ano de 2008. Feliz 2008 a todos. Um forte abraço.

  • 6. às 03:41 PM em 03 jan 2008, Urariano Mota escreveu:

    Sobre o futuro, sobre o que virá, passem um olho no último post de http://urarianoms.blog.uol.com.br/
    Abraço.

  • 7. às 07:58 PM em 03 jan 2008, Jean escreveu:

    Oi. Feliz 2008 a todos os amigos da BBC. Incrível ter que aparecer aqui um bando de ingleses pra tocar informação com qualidade, tsc tsc.
    Olha, Queria mesmo saber qual será a reação da China a uma recessão americana. Ninguem comenta muito, mas a China é hoje o fiel da balança da economia mundial e se ela balançar, meu nego, sai de baixo. Não esqueçamos que não há democracia na China e seus governantes podem fazer o que bem entenderem, desde que a casta governista continue engordando os bolsos. Se é em 2008 ainda nao sei, mas a coisa vai explodir por lá.

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