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A força dos chefs

Thomas Pappon | 15:14, sexta-feira, 28 janeiro 2011

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Os chefs estão com tudo e não estão prosa. Não contentes em ensinar-nos a cozinhar e em viajar por aí desvendando segredos da culinária, eles cada vez mais se aventuram em ambiciosas campanhas para mudar hábitos sociais ou mesmo leis.

Pelo menos aqui, na Grã-Bretanha. Jamie Oliver foi pioneiro nisso, com a série de TV em 2005 que provocou um grande debate na mídia britânica sobre alimentação nas escolas e acabou causando uma revolução nas cantinas.

Agora foi a vez de Hugh Fearnley-Whittingstal, que foi matéria de capa no Independent em novembro passado quando lançou uma campanha, Fish Fight (Luta de Peixe),  para tentar inibir a prática dos discards (descartes) na indústria pesqueira.

A campanha visa conscientizar o consumidor britânico de que mais da metade dos peixes capturados no Mar do Norte são devolvidos mortos ao mar. A razão aparentemente está em regras de pesca da União Européia, que proíbem barcos pesqueiros de descarregar determinadas espécies, o que os obriga a jogá-los de volta ao mar.

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Os pescadores não tem controle sobre o que pescam, e o problema é que só parte do que cai na rede serve para o comércio –  pelo menos é o que a indústria pesqueira diz.

Fearnley-Whittingstal diz que estamos diante de um desperdício insano de milhares de toneladas de peixes, crustáceos e outras criaturas marinhas que poderiam tranquilamente ser aproveitadas.

A campanha age em duas frentes. Uma recolhe assinaturas em um abaixo-assinado que será encaminhado à Comissão de Assuntos Marítimos e Pesca da União Europeia, fazendo sugestões e pedindo mudanças nas regras pesqueiras do bloco.

No momento em que este post foi publicado, a campanha reunia mais de 625 mil assinaturas.

A outra frente invadiu nossas TVs britânicas como uma blitzkrieg nas primeiras semanas de janeiro.

Com a ajuda de colegas como Gordon Ramsey, Heston Blumenthal, Jamie Oliver e outros superchefs, Fearnley-Whittingstal comandou uma série de programas mostrando receitas e incentivando o público consumidor a substituir as espécies mais manjadas (e ameaçadas) como bacalhau, haddock e atum por outras das quais há fartura nos mares da região - e que seriam injustamente subapreciadas, coisas como dab (espécie de linguado), cavalinha, sardinhas, coley (da família do bacalhau), whiting, sprats (tipos de arenque)pouting (conhecido em Portugal como faneca), gurnard, mariscos e caranguejos.

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Quem mora aqui e compra peixe sabe do que estou falando. Inglês gosta mesmo de três ou quatro tipos de peixe e não dá bola para o resto. Jamie Oliver contou que mais de 70% dos alimentos marinhos consumidos no país são importados – e que mais de 70% do pescado capturado no país é exportado, em especial para países vizinhos como Espanha e França. Ou seja, eles gostam do que não pescam e não gostam do que pescam.

Na semana que se seguiu à blitzkrieg dos chefs, choveram matérias nos jornais dizendo que as vendas de peixe aumentaram drasticamente (o Mark & Spencer disse quer foi a semana de maior venda de peixes na sua historia), assim como a procura generalizada pelos tipos e espécies promovidos nos programas – o que dá um a idéia do mencionado poder dos chefs.

Pessoalmente, acho que o segredo disso está na credibilidade. O público gosta deles, sabe que entendem do assunto e acredita que sua motivação em campanhas como essa é positiva e sincera.

Eu parei de me surpreender com a força dos mestres-cucas, que é de dar muita inveja a políticos. Mas ainda acho que se trata de um fenômeno essencialmente britânico. 

Os 30 minutos de Jamie Oliver

Iracema Sodre | 14:06, terça-feira, 18 janeiro 2011

Comentários (5)

O conceito é inovador. Um livro de receitas que promete que você vai conseguir preparar uma refeição completa para a família em apenas meia hora certamente chama a atenção.

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Não foi à toa que o último livro de receitas do chef britânico Jamie Oliver, o Jamie’s 30-Minute Meals, vendeu mais de 1,2 milhão de cópias, bateu recordes e se tornou o livro de não-ficção a ser vendido mais rapidamente nas livrarias britânicas em todos os tempos.

 

Jamie promete que “com um pouco de preparo, o equipamento certo e alguma organização, refeições abundantes, deliciosas e rápidas estão a apenas meia hora”.

 

Eu ganhei minha cópia pouco tempo depois de o livro ser lançado e confesso que a minha primeira reação ao dar uma olhada nas receitas foi de surpresa.

 

Achei que o livro seria uma coleção de pratos simples, com poucos ingredientes, tudo bem fácil de fazer. Nada disso.

 

Algumas das 50 refeições do livro só podem ser feitas com a ajuda de aparelhos específicos e a lista de compras é quase sempre bem longa.

 

Comecei a duvidar que uma pessoa comum conseguisse preparar três, às vezes quatro, daqueles pratos em apenas 30 minutos.  

 

Resolvi então fazer um teste. Escolhi a refeição do livro composta por Frango Piri-piri, Batatas Temperadas, Salada de Rúcula e Tortinhas Portuguesas Rápidas. (Cheque as receitas aqui)

 

Como manda o livro, separei os ingredientes, mas não preparei nada de antemão. Os legumes não estavam lavados, nem cortados, mas estava tudo separadinho, como mostra a foto. Marquei meia hora no alarme do fogão e arregacei as mangas. jamiecomidanova.jpg

 

Confesso que tinha uma esperança secreta de que fosse conseguir ter tudo pronto em meia hora. Afinal, não sou nenhuma semiprofissional, mas também não sou uma iniciante.

 

Corri bastante e, apesar de a minha filha ter vindo puxar meu avental umas duas vezes, consegui me concentrar. Mesmo assim, quando ainda estava no meio do caminho, o alarme tocou.

 

Levei 53 minutos para colocar tudo na mesa. Todos os pratos estavam uma delícia, aprovadíssimos pelo maridão, mas a meia hora ficou na promessa.

 

Quem chegasse na cozinha naquele momento, acharia que ela tinha sido atingida por um furacão. Fogão engordurado, vários recipientes sujos, embalagens espalhadas. E eu à beira de uma crise nervosa, depois de tanto correr.

 

Passado o trauma inicial, fiquei com vontade de tentar de novo. Acho que com mais preparação antes de começar a cozinhar, eu talvez consiga fazer uma das refeições do livro em “meia hora”.

 

Mas faço coro com a horda de consumidores decepcionados. Seria mais honesto mudar o título do livro para Jamie’s 1-hour meals.

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