Arquivo para 2009-12

Um continente de cerveja

Thomas Pappon | 15:34, quarta-feira, 30 dezembro 2009

Comentários (10)

A vida sorri para o brasileiro apreciador de cerveja quando este visita, pela primeira vez, um pub na Inglaterra ou uma kneipe na Alemanha.

Acostumado a escolher entre três ou quatro marcas de tipo e gosto bastante parecidos, este bravo consumidor (mais um ludibriado sofredor, pelo que insinua um debate em andamento na Folha de São Paulo, que lançou a suspeita de que três quartos da matéria-prima da cerveja no Brasil vêm do milho) se vê na posição de uma criança solta numa fábrica de chocolates de primeira qualidade.  

Na Europa - à exceção, talvez, dos países mediterrâneos - cada região produz uma cerveja distinta onde a bebida e sua produção estão ligadas a profundas tradições culturais e históricas.

Na Alemanha, por exemplo, existe um conjunto de regras, o Reinheitsgebot, que zela pela qualidade e pureza da bebida desde 1516. E a constituição municipal mais antiga do país, baixada pelo imperador Frederico Barbaruiva em 1156 para a cidade de Augsburg, determinava punição para donos de estabelecimentos que servissem "cerveja ruim ou em dose injusta".

Ou seja, aqui há de tudo, do bom e do melhor. E com tanta coisa interessante e desconhecida sendo oferecida no balcão, a escolha muitas vezes acaba sendo feita na base do "uni-duni-tê".       

Mas não temei, companheiros cervejeiros, pois o BBC à Mesa traz as dicas de três "especialistas" com vários anos de visitas a pubs e bares europeus nas costas.

de-koninck.jpgComeço com minhas opiniões:

A cerveja que costumo beber - Stella Artois

A Inglaterra é o país das ales e stouts, mas eu ainda prefiro as do tipo lager - como eles chamam a cerveja de baixa fermentação, como a pilsen, mais apreciada  no continente europeu. Para muitos, a Stella é "a menos pior" das lagers vendidas nos pubs londrinos. A melhor pilsen que já provei é a Veltins alemã.

As melhores cervejas que provei na Europa - De Koninck e Veltins

A De Koninck é uma ale, cerveja de alta fermentação e cor avermelhada, fabricada na Antuérpia, Bélgica. Ela é servida num copo especial, em formato de taça. Encorpada, tem leve gosto de caramelo. Já bebi ela em Londres e na Holanda. E a Veltins, alemã, tem que ser na garrafa - linda - mesmo. 

Segue a colaboração (lacônica) do Akira van der S, músico (líder da banda dos anos 80 Akira S & As Garotas que Erraram) e dono de uma empresa de informática, que vive em Amsterdã:

A cerveja que costumo beber - Heineken (em casa e fora)

As melhores cervejas que provei na Europa - De Koninck, Duvel e Hoegaarden (com limão), todas belgas, as alemãs Paulaner (de trigo) e Veltins (pilsner), a Pilsner Urquell tcheca e a Guinness extra cold vendida nos pubs britânicos e irlandeses.

No próximo post, que será lançado ainda nesta semana, virá a valiosa contribuição do jornalista e ex-colega da BBC Brasil Rodrigo Amaral, que manja pacas do assunto, foi colaborador da revista Beers of the World e vive atualmente em Madri.

Cheers e Feliz Ano Novo.

Natal inovador: Três aves, uma dentro da outra

Iracema Sodre | 16:06, domingo, 20 dezembro 2009

Comentários (7)

Peru, pernil, presunto e até bacalhau são os tradicionais pratos principais de Natal no Brasil. Só que até eu vir morar em Londres, eu nunca tinha me deparado com a tarefa de preparar algum deles.

 

No ano passado, tentei o peru pela primeira vez. Ficou bem melhor do eu esperava, não sei se por causa das minhas habilidades culinárias e da receita do Jamie Oliver ou por causa da qualidade do produto em si, orgânico e free-range, ou seja, criado solto.

 

Para este Natal, resolvi inovar um pouco e diminuir a quantidade de trabalho envolvida na tarefa. Fui até o Borough Market e encomendei um three bird roast.

 

Trata-se de um faisão dentro de um peru dentro de um pato inteiro desossado, junto com um recheio de maçãs, amoras e linguiça. E ainda vem decorado com umas fatias de laranja, prontinho para colocar no forno.

 

Essa moda de aves dentro de aves ganhou popularidade por aqui depois que Hugh Fearnley-Whittingstall, um dos muitos celebrity chefs do país, preparou um assado com dez aves em seu programa de TV há alguns anos.

 

O banquete dele consistia de peru, ganso, pato, pato selvagem, galinha d'angola, galinha, faisão, perdiz, pombo e galinhola, num prato que mais parece uma versão culinária das matrioshkas, aquelas bonecas russas que saem umas de dentro das outras.

 

A iniciativa foi inspirada em receitas da era Tudor, ou seja, dos séculos 15 e 16.

 

Agora fiquei sabendo que esse recorde já foi batido. Uma fazendeira da região de Devon conseguiu assar (em 8 horas) 48 aves de 12 espécies diferentes, umas dentro das outras. Comida suficiente para alimentar 125 pessoas.

 

Quem provou, garante que o prato estava bem suculento e que a mistura de sabores era boa. A crítica é que era difícil distinguir as diferentes aves, porque muitas delas eram cheias de personalidade.

 

Vamos ver como o meu modestíssimo assado de três aves vai ficar...

O que os gringos acham das delícias brasileiras?

Silvia Salek | 11:49, sexta-feira, 18 dezembro 2009

Comentários (20)

Tinha voltado triunfante do Brasil com a receita de cuscuz de tapioca de uma baiana que cacei por dias na praia de Ipanema. "Esquece o leite-de-coco e o açúcar. Você tem que deixar a tapioca de molho em água fervendo, com uma pitada de sal e lascas de coco."

"Depois, você tira as lascas de coco da mistura e joga sobre o cuscuz já pronto. O leite condensado por cima substitui o açúcar", revelou a baiana, não sem antes fazer mistério, vir com aquela história de que não tinha receita, que fazia tudo "no olho".

Fiz o tal cuscuz aqui em Londres e dei para uma amiga inglesa provar.

Ficou naquele silêncio prolongado, mastigando muito, como se cuscuz fosse rapadura. Engoliu e disse: "Muito bom. É igual ao nosso rice pudding". Arroz-doce? Que desfeita.

cuscuz.jpgA segunda punhalada veio com o brigadeiro. "O gosto não compensa o excesso de calorias", foi o que ouvi de uma inglesa. Isso nem foi dito para mim. Um comentário desses por um inglês equivaleria a um brasileiro cuspir o brigadeiro no olho de alguém. Foi dito para minha amiga inglesa por outra inglesa.

A decepção final veio com a feijoada. "Gostoso. Mas você já experimentou botar uns legumes?", perguntou uma amiga húngara, acrescentando que eles têm um ensopado "parecido" que leva cenoura, abobrinha, mas não feijão. Como assim "parecido"? A partir daí, começou a descrever o prato húngaro. Usou a feijoada como trampolim para discorrer sobre a semelhança entre ensopados do Leste Europeu.

A feijoada não foi toda comida. A farofa que a acompanhava nem mereceu comentário. Só foi espalhada pelo prato para dar aquela impressão de ter merecido alguma atenção talvez num esforço derradeiro de gentileza com a anfitriã.

Já perto de completar uma década aqui, comecei a questionar o valor absoluto daqueles pratos. Será que brigadeiro é tão bom assim? Ou boa é a memória da infância, de roubar doces antes de cantar o parabéns, de raspar a panela?

E o cuscuz? Tira Ipanema, tira aquela fome que dá depois de horas na praia, tira a baiana caminhando pela areia com sua jinga e seu tabuleiro, tira a expectativa em descobrir se ela é do tipo mesquinha ou generosa com o Leite Moça e exila o pobre do cuscuz aqui em Londres. Ele perde a alma, o sabor.

conheci muitos estrangeiros que diziam adorar feijoada e até farofa. Mas, geralmente, tinham uma linda brejeira a tiracolo para confundir o paladar.

E você? Que reação já provocou com nossos quitutes?

Uma festa da carne

Thomas Pappon | 11:06, quinta-feira, 17 dezembro 2009

Comentários (1)


Tenho dó dos vegetarianos no Natal, uma festa da carne. Prometi que vou fazer uma steak & guiness pie (receita do Jamie Oliver, por sinal) para minha filha vegetariana, uma das poucas coisas dos tempos em que comia carne de que sente falta. Será uma versão sem carne, com uma dose extra de cogumelos, uma mushroom & guiness pie.

Já o resto da família terá na mesa sua carne favorita, o pernil de porco. Acompanhada de kartoffelknoedel, couve-de-bruxelas e repolho roxo, com muito molho, apurado dos líquidos da carne.

O knoedel - também chamado de kloss - é um nhocão de batata, vendido em saquinhos na Alemanha, que facilitam a vida de todo cozinheiro. Nunca achei pacotes de knoedel em Londres, portanto, faço-os.

Cada Natal que passa, meus filhos curtem mais e mais os acompanhamentos inspirados na cozinha alemã de meus antepassados - e cada vez menos os acompanhamentos que minha mulher sempre comia lá em Minas.

Ela sempre quer arroz, farofa e o que chama de "maionese" - uma salada de batata, cenoura, milho e ervilha com muita maionese.

Como o Natal é uma festa de confraternização, o negócio é incluir as vontades das minorias. No dia 24 de dezembro, a ceia, portanto, será alemã, mineira e vegetariana.

Mas voltando à carne. Os açougues em Londres geralmente dividem a perna de porco em duas (às vezes três) partes: fillet half (a de cima) e o knuckle half (a de baixo).

Sempre comprei a fillet half (tipo 15 libras) em Natais passados, mas dessa vez encomendei a parte de baixo, com mais osso e menos carne.

Existem, vocês sabem, mil maneiras de assar porco. Eu opto pela moda portuguesa, com a carne marinada um dia antes em vinha d'alho - vinho, alho, limão, sal, pimenta, louro e alecrim, sabores que combinam com o porco, seus ossos e suas gorduras.

Asso usando o método subjetivo de ficar olhando de meia em meia hora, regando aqui e ali. O pior que pode acontecer - e já aconteceu, justamente quando meu pai e sua mulher estavam hospedados em casa - é a carne passar do ponto e ficar seca. Portanto, atenção.

No passado, fiz peru (acho seco e sem graça), pato (pouca carne e muita gordura), peito de ganso (polonês!), faisão (curiosamente barato nos açougues londrinos, cada ave custa menos de 4 libras, mas a carne ficou meio dura e de gosto intenso) e até sushi (dá um trabalho dos diabos e não tem nada a ver com Natal).

E pretendo continuar experimentando. Ideias, alguém?

Uma chance à couve-de-bruxelas

Thomas Pappon | 15:01, segunda-feira, 14 dezembro 2009

Comentários (10)

Sei que é difícil, mas vou tentar: convencer os leitores do BBC à Mesa a dar, neste Natal, mais uma chance à Paz e à couve-de-bruxelas.

Quem mora na Europa sabe do que estou falando. Nessa época do ano, a couve é onipresente. Dá em tudo que é lugar. Literalmente. Plantada desde o século 16, inicialmente na Bélgica (daí o nome), é uma das poucas verduras colhidas em novembro e dezembro, em pleno inverno.

Por isso, creio, é que ela é, pelo menos aqui, na Grã-Bretanha, a verdura oficial do Natal. É tradição acompanhar o peru recheado com batata, molho e couve-de-bruxelas.

Isso apesar de muita gente reclamar horrores das bolinhas verdes com leve gosto amargo, um mini-repolho de gosto mais concentrado. É quase um lugar comum criança dizer que odeia couve-de-bruxelas. couve250.jpg

Acho que na raiz da resistência à verdura estão experiências ruins que as pessoas tiveram com ela.

Comer a couve sub-cozida, com o miolo ainda duro, é como comer repolho cru. Passada do ponto de cozimento, ela perde a cor verde escuro e fica mole e sem graça.  

Demorei para descobrir que o ponto de cozimento certo é de sete minutos em água fervida. Nem um a mais, nem a menos. 

Mas a grande dica é cortar cada couve ao meio, de sua base ao outro lado, para que fique dividida em duas partes iguais. Nesse caso, o tempo de cozimento é reduzido para quatro minutos.

Depois de cozida, escoe a água, retorne as couves à panela, acrescente azeite de oliva, sal e pimenta calabresa (daquela vermelha, em flocos) e mexa rapidamente. Pronto.

Alguns supermercados estão vendendo a couve no caule, mais fresca, uma experiência "diferente".

Ela é rica em minerais, vitaminas e fibras, e quase não tem calorias. Ou seja, ela merece. Pelo menos mais uma chance.

O doce sabor do ruibarbo

Daniel Gallas | 15:55, sexta-feira, 11 dezembro 2009

Comentários (9)

Em outros blogs da BBC Brasil, andei comentando algumas coisas daqui de Londres que eu gostaria de exportar para o nosso país.

rhubarb226s.jpgMas quando o assunto é comida, eu jogo no time oposto: sou daquelas pessoas que ainda sentem muitas saudades dos pratos tipicamente brasileiros. Alguns até que eu consegui adaptar com os produtos locais, como a feijoada, feita aqui com chorizo e linguiça polonesa.

Já outros pratos e delícias são, na minha opinião, impossíveis de se replicar, como mocotó e goiabada. O melhor a fazer nesses casos é deixar para saboreá-los no Brasil e tentar assimilar o que tem de diferente aqui na Grã-Bretanha.

No supermercado que frequento, há vários alimentos - sobretudo frutas e vegetais - completamente diferentes do que estamos acostumados no Brasil.

Esses dias, resolvi comprar um ruibarbo para experimentar. O ruibarbo é semelhante ao aipo, com talo longo e folhas finas no final. O talo, que no caso do ruibarbo é rosa, é a principal parte do alimento.

O que mais intriga no ruibarbo é que ele é consumido aqui como fruta, e não como vegetal. A maioria das receitas de ruibarbo é de sobremesa.

Antes de achar uma receita, resolvi provar o ruibarbo e descobri que ele tem um gosto horrível quando cru - ele mais parece, na verdade, um aipo azedo e estragado.

A receita que achei é tipicamente britânica. O "crumble" é uma torta de duas camadas. A parte de baixo é composta por frutas (morangos, cerejas, maçã ou ruibarbo, por exemplo). Em cima, vai uma massa esfarelada de manteiga, açúcar demerara e farinha.

Para minha surpresa, o "crumble de ruibarbo" é excelente. Primeiro, a fruta é cozida com água e açúcar no forno. Depois ela recebe a camada da massa, que fica mais meia hora no forno.

O resultado da sobremesa é o completo oposto do ruibarbo cru. A fruta (ou vegetal?) torna-se uma mistura de doce com azedo, exatamente como uma compota de morango. Ela fica melhor ainda quando consumida com sorvete de baunilha ou "custard" - uma das delícias daqui que provavelmente sentirei saudades quando eu estiver no Brasil.

Já estou pensando em quais estranhos alimentos britânicos irei experimentar a próxima vez que eu visitar o supermercado. Sopa de pastinaca (ou "parsnip")? Ou uma rutabaga ("swede") assada?

Meu querido pierogi

Thomas Pappon | 14:50, quarta-feira, 9 dezembro 2009

Comentários (2)

Quando a Polônia entrou na União Européia, já havia vários de seus cidadãos vivendo e trabalhando na Inglaterra. Com a legalização, vieram ainda mais, e começaram a pipocar, aqui e ali, os empórios poloneses.

Não sei se outros brasileiros em Londres concordam comigo, mas vejo esses empórios como uma boa oportunidade para conhecer produtos e comidas do Leste Europeu - de cuja cozinha, até então, só conhecia a servo-croata, graças a uma ex-vizinha croata.    

A grosso modo, a cozinha croata parece ser uma variação balcânica mais robusta e bem menos sofisticada do que a italiana ou a grega. Eles gostam de carnes e peixes na brasa, espetos - como o de carne moída -, pimentões e repolho recheados e ensopados de tudo que é tipo, entre eles um de chucrute e carne que é tradição na semana de Natal. Gosto muito do ajvar, uma pasta de pimentões, alho e berinjela, uma delícia passada no pão.

Essa, digamos, "falta de frescura", me parece ser comum na cozinha do Leste Europeu.
O pierogi, por exemplo, a grande estrela da cozinha eslava, encontrada nessas lojas nas versões polonesa, russa e lituana, é um pastel/risólis massudo e encorpado, um super-ravioli criado para alimentar - e não para impressionar convidados em um jantar.

O pierogi vem congelado e leva bem mais tempo para cozinhar, uns 12 minutos. O recheio pode ser de batata, carne, queijo, repolho ou cogumelos - nada de "ricota com espinafre" ou "pimentão com mascarpone".  pierogi133.jpg

Um saco de pierogi congelado custa menos de duas libras e dá mole para duas pessoas. Pode ser frito também - e aí lembra muito o gyoza japonês.

É só acompanhar com o molho preferido. Não é bonito nem exótico, mas virei fã e - aqui vai o argumento preferido do chef de cozinha de uma família de cinco - as crianças gostaram. 

Outra grande contribuição da invasão polonesa foram as cervejas, como a Zwieck e a Tyskie, encontradas em qualquer loja de esquina, na minha modesta opinião, bem melhores do que as tão celebradas tchecas.

Também acho que os produtos poloneses enriqueceram a oferta de sardinhas em lata, iogurtes, queijos cremosos, pepinos em conserva e pães de centeio em Londres. Na loja perto de casa, em Dulwich, encontrei um pão de centeio da Lituânia absolutamente maravilhoso. Com leve gosto de cominho.

Os defumados poloneses, que muitos usam para fazer feijoada, não me entusiasmaram, e minha grande decepção foi a salsicha, com pele de plástico não comestível. A ideia é esquentar a salsicha e comer só o conteúdo pastoso. Nada a ver com a gloriosa salsicha tipo alemã, que explode a cada dentada e que infelizmente não tem rival a altura aqui na Inglaterra - mas isso fica para outro blog.

Gelatina de enguia

Thomas Pappon | 15:57, sexta-feira, 4 dezembro 2009

Comentários (3)

No último blog falei bem da comida inglesa, agora vou falar mal. Até coisa de quatro anos atrás, a pior coisa que tinha comido na minha vida foi uma língua cozida, servida com arroz e temperada basicamente apenas com coentro. Isso foi em 1980, num "restaurante" (entre aspas mesmo) no meio dos Andes, na Bolívia, a única parada para comer no meio de uma longa jornada de ônibus. Resumindo: comi a língua, com pelo e tudo, porque estava morrendo de fome. Esse episódio rendeu um trauma, nunca superado, de coentro.

Mas há quatro anos, fui passear com a família por Hastings, simpática cidade costeira a uma hora e pouco de Londres. A cidade tem vários pubs legais e barraquinhas vendendo frutos do mar. Cockles, por exemplo. Tentei traduzir para o português, o mais perto que cheguei foi berbigão, que deve ser um nome genérico para mariscos menores, entre eles a amêijoa, também conhecida, pelo menos em São Paulo, como vôngole. As cockles são servidas cruas, sem as cochas, em potinhos de plástico, regadas com vinagre. Uma delícia. Coisa bem típica do Reino Unido.

Típica como é a jellied eel, a enguia gelatinada ou gelatina de enguia, que resolvi provar lá em Hastings. Um prato criado no East End londrino no século 18, que consiste em enguia fatiada e cozida em caldo de peixe, suco de limão, noz moscada e temperos básicos. A enguia de rio é um peixe naturalmente gelatinoso, quando a mistura esfria, o que sobra é o jellied eel, que também me foi servido num potinho de plástico. jellied-eel.jpg

Alguém nesse blog já disse que gosto é pessoal, por isso gostaria muito de ouvir os argumentos de alguém que gostou da gelatina de enguia. Eu detestei. Aguentei três garfadas. A enguia é ossuda, misturada com gelatina forma uma papa com gosto de peixe difícil de mastigar e ainda mais de engolir.

O prato foi extremamente popular entre o povão nos séculos anteriores. As enguias eram pescadas no Tâmisa mesmo, e durante a Segunda Guerra havia centenas de eel & pie houses em Londres, onde a enguia era ou ainda é servida com purê de batata ou empadões de carne. Em Peckham, perto lá de casa, tem uma, fundada em 1891.

Mas, na boa, gelatina de enguia não rola. É pior do que a língua peluda na Bolívia. 

Eu amo Marmite

Thomas Pappon | 14:29, quarta-feira, 2 dezembro 2009

Comentários (6)

Pronto, falei. Adoro Marmite. Por anos me recusei a provar aquela graxa escura que vem num estiloso potinho de vidro e que divide os ingleses em dois extremos. Um dia provei a versão australiana, chamada Vegemite, e entrei imediatamente no time oposto, dos que amam o extrato de fermento, passado numa torrada ou biscoito salgado, com um pouco de manteiga. É como passar caldo de carne no pão. Tão excêntrico quanto o piccalilli, o pickles de couve-flor (!)  - coisa da qual ingleses que moram no exterior, como o Phil Collins me disse numa entrevista há séculos, sentem muita falta. marmite185.jpg

 

Aliás, o adjetivo "excêntrico" foi feito para a Inglaterra, onde criaram um molho com gosto de pasta de dente - a mint sauce - e onde o grande programa familiar aos domingos  é  comer carne assada com legumes e yorkshire pudding, uma espécie de pote feito de massa em que é servido o gravy, molho de carne. Há dez anos eu ria disso, hoje,  respeito.

 

Já o café da manhã inglês, o english breakfast,  não é excêntrico, é insano. Ovo frito, bacon, linguiça de quinta categoria, feijão branco com molho de tomate doce, cogumelos gigantes, tomates assados, hash brown (uma espécie de bolinho de batata ralada frito) com torradas marinadas em óleo. Tudo aqui é incorreto em todos os sentidos - mas, cá entre nós, é bom demais num sabadão preguiçoso.

 

Mas meu grande xodó aqui em Londres é o cheese on toast. O lanche é tão fácil de fazer que tenho até vergonha de apresentá-lo como a primeira "receita" do blog. O segredo está na química entre o cheddar (sempre ele) e o molho inglês. Tentei com outros queijos (no Brasil, tentem o queijo prato ou queijo bola), mas nunca foi a mesma coisa. cheeseontoast.jpg

 

Ingredientes (para uma pessoa): duas  fatias de pão branco, queijo cheddar, molho inglês (Worcestershire sauce)

 

Dê uma rápida tostada nas fatias de pão na torradeira, só para endurecer elas um pouco. Coloque-as num tabuleiro, cubra com fatias de cheddar, adicione pitadas generosas de molho ingês e leve ao forno quente. Assim que o queijo derreter e o molho estiver formando bolhas escuras, é só servir.   

Te cuida, queijo minas

Thomas Pappon | 09:54, terça-feira, 1 dezembro 2009

Comentários (13)

Das necessidades nascem grandes descobertas. Entre elas, estão os substitutos que a gente encontra para suprir a saudade por um alimento típico da terra natal.

Foi numa dessas "necessidades", que minha mulher, grande especialista em doces, com vários anos de experiência na apreciação de goiabada com queijo, "descobriu" o queijo mais comum da Inglaterra, o cheddar maduro, segundo ela, o "melhor queijo" para o romeu e julieta,  muito mais saboroso do que o coitado - e insosso - do queijo minas. O cheddar ganha também em tradição: esteve na mesa de reis como Henrique 2º, pois foi criado há oito séculos na região de Somerset, onde era maturado nas cavernas de Cheddar  - daí o nome.cheddar.jpg

 

Minha mulher foi ainda mais longe. Depois de anos transformando leite condensado em doce de leite, experimentamos um pote de 'dulce de leche' argentino, encontrado num empório caribenho/indiano em Brixton. O dito cujo é superior ao doce de leite brasileiro, diz ela, sabendo que corre o risco de ouvir desaforos lá em Belo Horizonte.

 

Outra grande descoberta: tem um queijo cremoso vendido em empórios turcos, árabes e na rede Asda de supermercados chamado Puck, fabricado na Dinamarca - ao que tudo indica, dirigido ao mercado árabe - e que tem uma florzinha amarela e azul no rótulo. É igualzinho ao nosso requeijão. Já ouvi gente dizendo que o Puck é melhor até, menos aguado, mais cremoso e saboroso do que o que a gente compra no Brasil.

 

Do querido feijão brasileiro já não sinto falta. Nem do preto nem do carioca (gostaria de saber por que ele é chamado assim, já que no Rio todo mundo só come feijão preto), graças aos black beans, e aos feijões com os prosaicos nomes de crab eye, rosecoco e pinto, todos facilmente encontrados.

 

E, finalmente, uma dica co-descoberta por um colega aqui da BBC Brasil, o Pablo. Trata-se de um bom substituto para o queijo coalho assado: o queijo cipriota do tipo Halloumi, encontrado em qualquer mercadinho da esquina. É meio caro e mais salgado. Mas, fatiado, grelha (na brasa ou na chapa) que é uma beleza. Sirva com azeite.

BBC navigation

BBC © 2014 A BBC não se responsabiliza pelo conteúdo de sites externos.

Esta página é melhor visualizada em um navegador atualizado e que permita o uso de linguagens de estilo (CSS). Com seu navegador atual, embora você seja capaz de ver o conteúdo da página, não poderá enxergar todos os recursos que ela apresenta. Sugerimos que você instale um navegados mais atualizado, compatível com a tecnologia.