« Anterior | Principal | Próximo »

China, nação vencedora

Rogério Simões | 2011-04-07, 15:06

chinablog.jpgA Guerra Fria acabou há 20 anos. Em 1991, a linha-dura soviética, ciente de comandar um império moribundo, tentou impedir o inevitável. Primeiro, com uma última invasão dos países bálticos e meses depois, em agosto do mesmo ano, com o fracassado golpe contra Mikhail Gorbachev. Em poucos meses, entretanto, ficou claro que o conflito entre Ocidente e Oriente chegara ao fim. A Rússia não apenas via seu império ruir, mas experimentaria anos depois um colapso econômico e a proliferação de movimentos separatistas no Cáucaso, acompanhados de guerras e ações terroristas. A entrada em cena do quase czar Vladimir Putin, na virada do milênio, recuperou parte do orgulho nacional. Mas, quando o assunto é Guerra Fria, não há dúvidas: os russos perderam.

Mas quem realmente venceu? Os registros históricos dos últimos 20 anos dão a vitória aos Estados Unidos, ou ao chamado Ocidente. Líderes como Ronald Reagan, Margaret Thatcher e Helmut Kohl saíram do conflito com medalhas de ouro no peito. Duas décadas depois, entretanto, tal vitória parece mais discutível, e um nome alternativo começa a colher dividendos mais permanentes do fim da Guerra Fria. Nos anos 80, enquanto americanos e russos ainda se degladiavam, os chineses absorviam o capitalismo na sua economia, mantendo a política centralizada, sob controle comunista. O que aconteceu todos sabemos: a República Popular da China correu por fora, dominando o comércio mundial e aumentando ano a ano sua influência internacional. Os chineses seguem rumo à posição de superpotência econômica e política, em um mundo que ainda especula sobre como Pequim exercerá esse papel.

Na década de 90, a Guerra Fria deu lugar ao otimismo. Para muitos, ela seria seguida de um novo século marcado pela supremacia de um modelo político-econômico específico: a democracia liberal. O dinheiro seguiria livremente pelas amplas estradas do capitalismo financeiro, promovendo competição e prosperidade, enquanto as elites políticas seriam compostas por meio do voto popular. O movimento de estudantes por reformas democráticas em 1989, em Pequim, sufocado com o que ficou conhecido como o massacre da Praça da Paz Celestial, reforçou a equivocada impressão de que liberalismo econômico e democracia seriam as regras em uma era que chegou a ser chamada pelo americano Francis Fukuyama de "fim da história". É verdade que os valores democráticos ganharam força recentemente, com as seguidas rebeliões no mundo árabe. Mas poucos vislumbram grandes mudanças políticas na ditadura chinesa num futuro próximo. Ou na Rússia, que adotou uma versão de democracia no mínimo peculiar, construída em torno do homem-forte e hoje primeiro-ministro do país, Vladimir Putin. Sobre o liberalismo econômico, sua versão fundamentalista, que reinou por 30 anos, desmoronou em 2008. A ideia do Estado como importante ator econômico ganhou força, e o fato de que a China manda cada vez mais nos rumos da economia global é um atestado de quão precipitada era a previsão de que a iniciativa privada dominaria o planeta. O capitalismo chinês, afinal, segue marcado por grandes empresas estatais e a autoridade do Partido Comunista.

Como muitos dos dividendos esperados pelo Ocidente, após o fim a longa guerra contra os soviéticos, não se confirmaram, é possível argumentar que a avassaladora vitória liberal foi temporária. Vinte anos depois do colapso soviético, a China parece ter mais condições de cantar vitória em um conflito no qual era apenas coadjuvante. Como mostram as reportagens de Silvia Salek publicadas aqui na BBC Brasil, os chineses, queiram ou não, já se preparam para ocupar um posto de liderança internacional ao lado dos Estados Unidos, ameaçando, inclusive, a hegemonia americana em muitas áreas. O Brasil, cujos poder e influência também aumentaram significativamente nos úlitmos anos, sabe que os chineses são hoje praticamente tão importantes quanto os americanos nas relações internacionais. Dilma Rousseff recebeu Barack Obama recentemente e estará na China para a reunião dos BRICs. Após poucos meses no Planalto, a presidente já terá dialogado diretamente com as duas maiores forças do mundo atual: aquela que riu sozinha por muitos anos e a que pode acabar rindo melhor.

ComentáriosDeixe seu comentário

  • 1. às 03:54 AM em 09 abr 2011, Vlademir Monteiro escreveu:

    A hegemonia ocidental enfrenta sua mais perigosa ameaça em toda História. A ascensão da China irá sepultar a ordem cuja força-motriz sempre - ou melhor, até então - fora monopólio do Ocidente. Se os mais otimistas preferem receber a nova superpotência de braços abertos em decorrência de seu peso econômico, para os mais cautelosos sobram razões para se preocupar. Despeito da postura imperialista e não muito cordial, os EUA são de longe mais confiáveis que as mentes obscuras por trás do Partido Comunista Chinês. Não conhecemos com profundidade os verdadeiros interesses do antigo Império do Meio. Portanto, caso ainda possamos contar com um mínimo de sensatez, não devemos depositar qualquer crédito em uma suposta doutrina chinesa com olhos para o exterior pautada pelo pacifismo. Na conjuntura que se ergue, um endossamento do apoio aos tradicionais protagonistas da geopolítica pode parece um caminho ao isolamento, no entanto, é uma decisão prudente. O dragão ainda não mostrou suas garras. Enquanto estiver manso, ele irá saciar sua fome devorando os recursos do planeta.

  • 2. às 04:01 AM em 09 abr 2011, Rubens Miranda escreveu:

    Poderíamos até dizer que, na forma como fazem os mineiros ou jeito de ser amineirado, os chineses vieram correndo por fora, armando-se, preparando suas forças armadas, e adotando um capitalismo liberal concentrado e agressivo, especialmente contra as economias estrangeiras.

    Os chineses sequer estão preocupados onde a "bomba" irá estourar, ou se uma "bolha" especulativa irá arruinar essa ou aquela economia. Eles fazem o que tem de fazer, sem perguntar ou pedir a alguém.

    Enquanto destilam seu capitalismo internamente, produzindo avidamente bens de consumo, e causando verdadeira revolução doméstica, a China se prepara, como bem disse o Editor, para emparelhar-se e mesmo assumir a liderança econômica mundial, para depois assumir militarmente. Os chineses só não tem ainda, a capacidade militar norte-americana de estar em vários países ao mesmo tempo, influenciando e ameaçando opositores. Mas, não está longe o tempo em que os chineses terão condições de estar militarmente em qualquer parte do mundo. Fala-se de certo incidente ocorrido nas águas do oceano Pacífico, onde determinado submarino chinês submergira nas proximidades de um porta-aviões norte-americano, causando a maior confusão e deixando os ianques estupefatos, ante a não localização dessa unidade naval chinesa, sem que suas medidas eletrônicas e contra-eletrônicas localizassem a belonave.

    Portanto, correndo por fora, ou comendo pelas beiradas, de forma bem amineirada ou chinesa de ser, eles não mandam avisos, somente quando o estrago está feito é que se pode perceber que os chineses estarão sempre por trás do mesmo. Eles não estão preocupados com ninguém, a não ser em espalhar sua influência e bugigangas mundo à fora, de forma bem sutil e constante, sem alarde.

    A próxima "guerra fria" ocorrerá entre chineses e norte-americanos, pela hegemonia mundial: econômica e militar. Existem questões ainda não resolvidas para a China, como é o caso de Taiwan, considerada uma província rebelde, e que vive sob proteção norte-americana. Até quando os chineses irão tolerar tal rebeldia?

    Não se pode subestimar os chineses. Não jogam para perder e não se contentarão em ter que perder, se for o caso. O Brasil poderá tirar grandes vantagens econômicas e dividendos, com a próxima visita da presidente Dilma Rousseff à China, para a reunião com o bloco dos BRICs (Brasil, Rússia, Índia e China), no qual somos o "primo pobre" desses gigantes nucleares e emergentes. Observemos o modo chinês de espalhar seus tentáculos.

    Deixaremos um dia de criticar os ianques e o lixo norte-americano, e estaremos reclamando e protestando contra o imperialismo chinês. Uma troca potencial e inevitável.


  • 3. às 11:43 PM em 11 abr 2011, Ricardo Martins Soares escreveu:

    Leio com frequencia essas ótimas noticias referentes a Economia chinesa. No entanto moro em Curitiba e aqui só vejo aumentando o número de chineses. Hoje a maioria das lanchonetes e de boa parte das lojinhas de 1,99 são deles. Por que será... Sempre há algo que não bate...

  • 4. às 12:30 AM em 12 abr 2011, Claudilei escreveu:

    Na minha opinião os Estados Unidos farão de tudo para os chineses não supera-lo e se torna a 1° economia mais rica da terra.

  • 5. às 02:24 PM em 24 abr 2011, Limpeza de estofados escreveu:

    O estados unidos continuara na frente durante mt tempo ainda!.
    att,
    www.eldoradoclean.com.br

BBC navigation

BBC © 2014 A BBC não se responsabiliza pelo conteúdo de sites externos.

Esta página é melhor visualizada em um navegador atualizado e que permita o uso de linguagens de estilo (CSS). Com seu navegador atual, embora você seja capaz de ver o conteúdo da página, não poderá enxergar todos os recursos que ela apresenta. Sugerimos que você instale um navegados mais atualizado, compatível com a tecnologia.