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Os amigos de Khadafi

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Rogério Simões | 2011-02-23, 17:22

blairgaddafiblog.jpgO líder líbio, Muamar Khadafi, sempre pareceu invencível e incontestável em seu país natal. Mesmo quando o espírito revolucionário tomou conta da Tunísia, a possibilidade de que o regime na vizinha Líbia também seria ameaçado era relativamente remota. Mas o impressionante levante no Egito, que derrubou o antes todo-poderoso Hosni Mubarak, mostrou que todas as alternativas estavam na mesa no mundo árabe. Inclusive a queda de Khadafi.

Entretanto, o coronel que se instalou no poder em 1969, por meio de um golpe de Estado, é um sobrevivente. Com mais de 40 anos na chefia de sua nação, Khadafi já foi considerado um pária na comunidade internacional, por causa de seu apoio a ações terroristas, mas também teve muitos e importantes amigos, dos mais diversos. Nos anos 70 e 80, o seu regime, que se considerava revolucionário, fez alianças com outros grupos que lutavam contra forças vistas como opressoras ou imperialistas. Um deles foi o IRA (Exército Republicano Irlandês), que foi armado pelas forças de Khadafi, melhorando com isso sua capacidade de atacar alvos britânicos dentro e fora da problemática província. Martin McGuiness, figura central na resistência republicana e atual ministro do governo local da Irlanda do Norte, condenou nesta semana as ações do regime líbio contra protestos no país. Mas disse não se envergonhar das ligações passadas entre seu movimento e Muamar Khadafi. A mesma postura sempre tomou o respeitado ex-presidente sul-africano Nelson Mandela, que pouco depois de sair da prisão visitou a Líbia e falou publicamente da gratidão que o seu movimento contra o apartheid tinha com Khadafi. Sempre chamando o líder líbio de "irmão", Mandela o recebeu na África do Sul em 1999, quando reafirmou sua amizade com o famoso ditador.

Nos últimos anos, mais precisamente depois da invasão do Iraque em 2003, o líder líbio passou a atrair novos e surpreendentes amigos. Estados Unidos e Grã-Bretanha se aproximaram do coronel, que resolveu renunciar a qualquer programa de armas de destruição em massa. Os governos de George W. Bush e Tony Blair decidiram celebrar publicamente a nova amizade. Blair apertou a mão de Khadafi em solo líbio em 2004 e até muito recentemente apresentava a aproximação de Londres com a Líbia como uma consequência positiva da invasão do Iraque. O mesmo pensava o governo Bush: a visita da então secretária de Estado americana, Condoleeza Rice, a Trípoli, em 2008, foi descrita por Washington como "histórica". É verdade que Rice anunciou como nova política dos Estados Unidos para o mundo árabe a promoção da democracia, dizendo que o patrocínio de ditaduras locais não havia levado estabilidade à região. Mas o discurso não levou a boicotes ou pressões mais duras por abertura nos regimes mais autoritários, como o de Muamar Khadafi, pelo contrário.

No caso britânico, Londres aumentou significativamente sua relação comercial com Trípoli, e a decisão da Justiça escocesa de libertar o único condenado pelo atentado contra o avião da Pan Am em 1988 irritou até os americanos. O sinal enviado pelas potências ocidentais foi de que o regime autocrático de Khadafi não era um problema. Contanto que ele estivesse disposto a colaborar politicamente no cenário internacional, seu regime não seria combatido, até porque os líbios são exportadores de petróleo. O estabelecimento de um regime democrático nunca esteve na pauta dos amigos de Khadafi, fossem eles o IRA, Mandela, Blair ou outros ditadores árabes. O coronel era para alguns um companheiro revolucionário e para outros um aliado de conveniência. Para o povo líbio, no entanto, Khadafi tem sido, há 42 anos, a única versão de governo disponível, uma autoridade onipotente em uma nação de relações tribais, sem partidos políticos. As circunstâncias da rebelião contra o regime são diferentes das vistas na Tunísia e no Egito, mas o motivo central não muda: o cansaço de ser governado pela mesma pessoa por tanto tempo.

ComentáriosDeixe seu comentário

  • 1. às 12:21 AM em 25 fev 2011, antonio p santos escreveu:

    Gra-Bretanha, Estados Unidos...desde o fim do seculo 19, as potencias ocidentais criaram este monstro que hoje o povo da regiao derruba dia-a-dia. Nao ha um unico pais arabe democratico... Kadafi ja foi amigo, hoje um paria...Mubarak guardiao do Canal e amigo da paz... Nao temos mais Laurence da Arabia...

  • 2. às 09:37 PM em 25 fev 2011, Tess escreveu:

    Amigos tipo o Lula.... segundo ele um IRMÃO. Só espero que a Dilma seja mais sensata, e tenha uma intuição feminina bem desenvolvida, p não ser envolvida com essas furadas.

  • 3. às 10:47 PM em 25 fev 2011, Tatiana escreveu:

    É... Mas já diz o ditado: Amigos, amigos, negócios à parte...

  • 4. às 11:21 PM em 26 fev 2011, MercadoCom escreveu:

    Matéria sobre o bom início de governo da presidente Dilma Roussef escrita pelo diretor, e jornalista, da MercadoCom Rufino Carmona: http://mercadocom.blogspot.com/2011/02/de-poste-presidenta.html

  • 5. às 08:44 AM em 27 fev 2011, Arcanjo L. escreveu:

    Ditadores só passam tantas décadas no poder porque têm o apoio hipócrita dos outros governantes dos países "democráticos" e seus sistemas bancários que fazem vista grossa para a origem de suas fortunas sujas.

    Por exemplo, até quando ainda farão vistas grossas ao que acontece em Cuba com seu "lider" que disputa eleições sozinho há 50 anos?

  • 6. às 05:42 PM em 01 mar 2011, ERICK SILVEIRA escreveu:

    Os hipócritas governantes dos estados Unidos, baseiam seu poder em intervenções militares pelo mundo, sempre sob a bandeira da “democracia”, ou seja, é a principal desculpa que se utilizam para roubar e saquear (no código Penal Brasileiro, é tipificado como Latrocínio, só que em grande escala, o que caracteriza Genocídio), os países que não se alinham aos seus interesses econômicos e ao mesmo tempo possuem vastas riquezas minerais em especial o petróleo, como é o caso do Iraque e Afeganistão.
    Só que não se utilizam do mesmo critério ao tratar os países que são seus parceiros econômicos, como é o caso do Bahrein, Arábia Saudita, que são tratados como se não fossem autocracias ou ditaduras e sim “Democracias”, não sofrendo por parte dos EUA e seus aliados, diga-se União Européia, quaisquer tipos de sanções como sofrem, por exemplo, o Irã, Venezuela e Cuba
    Qual o verdadeiro conceito de Democracia para os EUA?
    Para eles não passa de mero ponto de vista, desde que os países que atendam seus interesses econômicos, em especial os países do terceiro mundo, então com certeza esses países serão considerados “Democracias”, desde que sirvam ao capital norte americano com suas riquezas naturais e sua subserviência.
    A maior riqueza do Oriente Médio é o petróleo, matéria prima essencial na movimentação da indústria capitalista yankee, portanto, está aí à verdadeira explicação para tanta preocupação norte-americana em promover mais uma ocupação humanitária, justificando assim a sua vasta presença militar nesta região.

    Convido também a todos a conhecerem meu blog que é um blog voltado para a política e contra qualquer tipo de imperialismo e neoliberalismo, além de falar de cultura, esporte e variedades.
    http://ericksilveira.blogspot.com/

  • 7. às 03:06 AM em 16 mar 2011, Rone reis escreveu:

    Sou um apaixonado leitor de biografias. E sinceramente o fato mandela x kadhaf me decepcionou muito..mas os herois tambem são feitos humanidade.

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