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A escolha de Marina

Rogério Simões | 2010-10-11, 11:15

marinabloged.jpgDos quatro principais candidatos no primeiro turno presidencial brasileiro, três tinham alguma ligação com o Partido dos Trabalhadores. Plínio de Arruda Sampaio, depois de passar quase 20 anos repetindo o bordão "Lula presidente!", não esperou nem o fim do primeiro mandado lulista para se desligar do partido que ajudara a fundar. Marina Silva ainda se arrastou pelo segundo mandato de Luiz Inácio Lula da Silva antes de abandonar o barco. Dilma Rousseff não fazia parte do grupo que criou o PT, mas acabou virando a nova cara de um partido que já teve nomes como Marina e Plínio impressos em seu DNA. Dos quatro candidatos, José Serra era o único que podia dizer que não tinha nada a ver com o atual governo. Agora, por ironia da vontade do eleitor, um segundo turno, julgado por muitos improvável, pode até mesmo dar a vitória ao solitário candidato tucano. Caso aconteça, será a maior derrota que um superpopular presidente da República já terá sofrido.

Como Plínio teve menos de 1% dos votos válidos no primeiro turno, tanto sua opinião como a do seu partido, o PSOL, contam pouco. Mas algo terá valor inestimável nesta segunda fase da disputa: a escolha de Marina. A ex-candidata apresentou uma lista de dez temas que deverão pautar a opção do seu Partido Verde para o segundo turno, que deve ser anunciada no próximo dia 17. Entre eles, transparência e ética (incluindo compromisso com a liberdade de imprensa), reforma eleitoral e meio ambiente. Mas Marina, que já avisou poder discordar e não seguir a orientação final da sua legenda, não é uma candidata qualquer, equidistante de PT e PSDB. Qualquer que seja sua decisão, mesmo que de neutralidade, o impacto no pleito poderá ser decisivo.

Marina tem um quarto de século de história dentro do PT, no qual estabeleceu uma relação próxima com Lula. Foi ministra do gabinete lulista por pouco mais de cinco anos e, apesar da posterior filiação ao PV, manteve-se aliada politicamente ao PT no Acre. Esse passado de relação quase umbilical com o partido do presidente sugere que Marina, por mais que tenha desenvolvido divergências idológicas e práticas com o governo, venha a optar por Dilma no segundo turno. Esse foi o caminho escolhido por Gilberto Gil, também do PV e ex-ministro de Lula, mostrando coerência com sua recente carreira política. Não haveria por que, em tese, Marina não fazer o mesmo. Entre sua ex-colega de ministério e um candidato que nunca participou de sua história política, entre a candidata do seu antigo companheiro de luta e um ex-membro do governo que ela derrotou em 2002, entre o partido que ela ajudou a consolidar nacionalmente e a legenda que ela mesma combateu durante anos, não deveria ser difícil para Marina decidir seu caminho. Dilma Rousseff tem, então, motivos de sobra para esperar por uma ajuda da ex-companheira, apesar de as duas terem representado interesses distintos dentro do governo federal.

Essa mesma lógica, entretanto, torna ainda mais prejudicial à candidata petista qualquer uma das outras opções de Marina Silva: o apoio a José Serra ou mesmo a neutralidade. Caso fique do lado tucano, Marina terá dado a última punhalada em seus ex-companheiros petistas, entre eles Lula. Seria quase o mesmo que Hillary Clinton apoiar o republicano John McCain contra Barack Obama após ser preterida nas primárias democratas. A ex-ministra verde pode ter seus motivos para rejeitar o governo de que fez parte, e sua relação com Dilma no ministério certamente não foi das mais amistosas. Mas pode-se dizer que um apoio explícito à candidatura tucana seja bastante improvável. Se acontecer, poderá abalar a campanha governista. O problema, para Dilma e Lula, é que, como o apoio de Marina à chapa petista seria algo relativamente natural, a neutralidade marineira também colocará a candidatura do governo ainda mais em xeque. Se decidir ficar à margem da disputa, sem apoio a candidato algum, Marina Silva estará dizendo aos eleitores algo nesta linha: "Conheci de perto o trabalho de Dilma Rousseff, fui sua colega de ministério por cinco anos. Também lutei ao lado de Lula e dentro do PT por mais de 20 anos. Mas minha decepção com este governo foi tão grande que, apesar disso tudo, não consigo apoiar a continuidade do projeto político petista." Tais palavras certamente não sairão da sua boca, mas o eleitor, a partir do seu gesto, as lerá nas entrelinhas.

Disputas internas ocorrem em todo e qualquer partido deste planeta. Até mesmo na Coreia do Norte há algum nível de tensão dentro do partido único (com limites e riscos muito maiores, logicamente). O que ocorreu entre Marina Silva e Dilma Rousseff parece ter sido menos grave do que o eterno embate entre Tony Blair e Gordon Brown nos dez anos em que governaram juntos a Grã-Bretanha. Nem por isso Blair deixou de fazer campanha para o ex-amigo/adversário. Em tese, com base em sua biografia política, Marina teria todas as condições e razões para apoiar Dilma Rousseff. Mas talvez a ex-candidata verde tenha se desiludido tanto com o governo Lula que simplesmente não consiga mais sancionar um projeto que abandonou no meio. Nesse caso, José Serra, que já deixou dois ex-petistas para trás na primeira votação, pode acabar rindo por último (e bem melhor). Se tamanho desastre se abater sobre a cabeça do presidente Lula, restará a ele e ao PT apenas olhar para trás e lamentar o que poderia ter sido.

ComentáriosDeixe seu comentário

  • 1. às 12:11 PM em 11 out 2010, Leandro escreveu:

    Caro Rogério Simões,

    Não vou me estender. Parabéns por mais esse editorial sobre as eleições 2010.

  • 2. às 12:49 PM em 11 out 2010, Maira E. Knihs escreveu:

    Ótima matéria! Espero ansiosamente o término deste próximo pleito e aguardar do Presidente (que me permito chamar de palanqueiro populista) o que fará quando deixar seu cargo? Alguém sabe me responder?

  • 3. às 01:08 PM em 11 out 2010, Roberto Küll Júnior escreveu:

    Olá Rogério.

    Transcrevo um trecho que muito me interessou e pode ser o prenúncio pela candidatura do tucano José Serra. Quando vc escreveu:

    "...A ex-candidata apresentou uma lista de dez temas que deverão pautar a opção do seu Partido Verde para o segundo turno, que deve ser anunciada no próximo dia 17. Entre eles, transparência e ética (incluindo compromisso com a liberdade de imprensa), reforma eleitoral e meio ambiente."

    Tenho dúvidas a respeito da liberdade de imprensa. Tem muitos blogs sendo retirados do ar. Não se pode fazer um comentário, que, bom! O blog sai do ar.

    Calaram até os espíritos. Não vi as famosas previsões para os candidatos. Será que “eles” estão com medo da censura?

    Sabe Rogério, esse processo eleitoral que tem a candidata do governo a presidência da república, tem alguma coisa de parecido com a campanha do ex-presidente Fernando Collor de Melo (FCM). Para mim, a mídia sabe de muita coisa e está se omitindo. Pode ser por alguma benesse. Pode ser também, por perdão das dívidas. O fato é que, a mídia está maquiando essa candidata, da mesma forma que fez com FCM.

    – Lula ficou sem candidata. Deveria ter sido a Marina a candidata do governo, mas Lula não soube dar valor.

    Lula usou um jargão para escândalos que se tornou muito comum dentro do PT. – “Cumpanheiros” eu não saiba. Agora quando os índices ou propagandas são favoráveis, a conversa é outra.

    Caso Erenice (amiga íntima da candidata a presidência da república – ao ponto do filho da Erenice chamá-la - Tia Dilma) Tamiflú.
    Pergunto: A candidata a presidência da república não sabe o que acontece dentro do gabinete da CASA CIVIL?

    O presidente não sabe o que acontece?

    Então, as agências de inteligência têm falhado.

    Se uma coisa tão simples e costumeira não é percebida...

    A impressa brasileira deve ter um compromisso com a informação imparcial. Ela será a responsável por não mostrar o passado dessa candidata, também, o passado do tucano José Serra. Os avanços e retrocessos de um e de outro. Seria muito bom para os eleitores que estão indecisos se decidirem.

    Por fim, a liberdade de impressa, para mim, está em Xeque-mate. Está sendo manipulada.

  • 4. às 07:10 PM em 11 out 2010, André Terra escreveu:

    "Caso fique do lado tucano, Marina terá dado a última apunhalada em seus ex-companheiros petistas, entre eles Lula."
    .
    "Peraí, cara-pálida" ! Qdo Marina "apunhalou" alguém do PT ? Por ventura, já esqueceu os embates entre o Min.Meio ambiente versus Casa Civil, Min.Fazenda e Planejamento ??? Esqueceu q Zé Dirceu defendeu abertamente e reivindicou o mandato de Senadora da República p/ o PT??? Espero que MARINA não tenha esquecido; por enquanto estou NULO, se MARINA voltar ao berço petista, voto Serra !

  • 5. às 09:22 PM em 11 out 2010, Francisco escreveu:

    Caro Rogério, antes de mais nada parabéns pela sua analise, gosto de ler bons artigos. Também não sou eleitor de nenhum partido, apesar de gostar de política, e de pessoas que façam boas analises. Acho a seu artigo bastante interessante e parece fazer sentido, porem , na minha pobre opinião nem sempre o que parece fazer sentido é o que a realidade aponta. Veja o caso do Acre, origem da senadora Marina Silva, quem ganhou a eleição para governador foi o PT e para presidente foi o PSDB, por isso a lógica nem sempre leva a realidade. Pelas próprias pesquisas anteriores os eleitores de Marina na sua grande maioria devem ir para o Serra, porem a pequena quantidade que vai para a Dilma e os votos brancos e nulos deve ser suficiente para que ela seja eleita. O seja no final, o leitor de Marina levou o Serra para o segundo turno, e deve eleger a Dilma.
    De Marina, espero que para a boa democracia, não termine como a Luisa Helena, a baixinha arretada que falava pelos cotovelos e que levou o Lula ao segundo turno com uma forte votação. Hoje no seu estado tem dificuldades para se eleger até como vereadora, pois tanto o PSOL quanto o PV não tem estruturas partidárias que garantam futuras eleições, e o sinal do Acre para a Marina pode ser aquilo que não gostaríamos de ver.

  • 6. às 11:23 PM em 11 out 2010, tjbuenf escreveu:

    O cúmulo da sujeira política acontecerá se marina apoiar serra. Se ela nao concorda com o atual governo, então que seja indiferente neste 2o turno. Agora, apoiar àquele que esteve em um governo que sempre fez oposição é mostrar que não tem escrúpulo nenhum.

    Marina não tem condições de ser presidente. As preocupações dela com o meio ambiente são tamanhas que o brasil em alguns anos voltaria a usar luz de vela ¬¬

  • 7. às 02:13 PM em 12 out 2010, Gilson escreveu:

    Quero ver quem vai se lembrar da ecologista daqui a quatro anos.

  • 8. às 06:03 PM em 12 out 2010, maria escreveu:

    Sobre as frases de efeito:
    Por que tanto medo de quem não fecha 100 % com esta globalização brutal? Certamente trás mais benefícios um jantar à luz velas que de um regado a entorpecentes, pois esta mesma humanidade que está aí e a que já sobreviveu à época da luz de velas, não tão numerosa como agora, mas que tipo de humanidade e quantos sobreviverão ao efeito de tanta ignorância, ilusão e memória fraca. É muito fácil dizer frases de efeito! O que é difícil é que Marina e estes 20 milhões consigam "fazer verão", fazer valer o bom senso dos sem noção, reverter o estado atual, diante de conceitos individualistas tão enraizados e com pouca ética, apregoados e seguidos, como os de ludibriar, produzir ignorantes e passionais políticos para o mal geral desta nação. Não existe futuro promissor ou creditável em quem vende o que tem para viver de brisa ou de favor de terceiros. É como vender a casa para ir viver de aluguel. Os velhos, os antigos, não são administrados por externos em educação, meios de comunicação e saúde, mas eles não têm energia. E então você tem energia e se deixa administrar por terceiros! Quanta debilidade! Por pior que esteja, ainda tem espaço para piorar, em um país novo como o Brasil, pois, neste país, já tão saqueado, ainda existe gente de caráter, gente com alguma competência, e ainda existe em abundância energia renovável e justamente por isto não é mais possível amedrontações, ou não deveríamos nos permitir este tipo de discurso de luz de velas, de frases de efeito, como uma simples forma de defesa de nós mesmos.

  • 9. às 06:46 PM em 12 out 2010, Gustavo Lopes escreveu:

    Me parece claro que o PV deve apoiar Serra, na esperança de conseguir cargos em um eventual governo. No entanto, Marina não compactua com esse fisiologismo político. Por coerência deveria apoiar Dilma. Do contrário, arriscaria o capital político que angariou. Que não foi pouco.

  • 10. às 01:42 PM em 13 out 2010, Aldo Ghisolfi escreveu:

    Marina optar pela Dilma? A Dilma representa a continuidade dos motivos que a obrigaram a abandonar o governo do Lula e o PT. Acho que se isso acontecer, será quase queo fim da carreira da Marina e motivo de expulsão do PV.

  • 11. às 02:19 PM em 13 out 2010, Bruno Martins escreveu:

    A Maria (06:03 PM em 12 out 2010) tem toda razão. Essa corrida desenvolvimentista é como acelerar em uma estrada que leva a um precipício. Já consumimos 3x mais do que a terra pode produzir. Ao invés de vivermos do "lucro", estamos dilapidando o capital (natural). tjbuenf, usando seu exagero (sim, porque se fosse tão radical não teria licenciado Belo Monte, a transposição do São Francisco, e liberado os transgênicos, etc..), se continuarmos nessa estrada, quanto mais perto da beira do precipício, maiores as chances de cortar até as velas...
    Com relação à Marina a neutralidade passará a seguinte mensagem: "sou coerente com o que disse toda a campanha: os dois e suas propostas são iguais", deixando para o seu eleitor a decisão para esse pleito e consolidando-se como uma 3ª via para daqui a 4 ou 8 anos. Como uma pessoa idealista e nacionalista tomou a decisão certa de usar o poder dos 30% para tentar inserir a agenda em que acredita nas propostas de um eventual presidente, lançando as bases de sustentação para um possível futuro governo seu. E, claro, oferecendo – sabiamente - em troca o apoio do PV (não o dela, que pode continuar neutra)!

  • 12. às 08:27 PM em 13 out 2010, Saulo João Bonassi escreveu:

    Este editorial esta para essa eleição como....Afirma-se – não sei com quanta veracidade – que um certo pensador hindu acreditava que a Terra estava apoiada em um elefante. Quando lhe perguntaram no que o elefante se sustentava, respondeu que se sustentava numa tartaruga. Quando lhe perguntaram sobre o que a tartaruga se sustentava, ele disse 'Estou cansado disso. Vamos mudar de assunto'. Isso ilustra o caráter insatisfatório do argumento da Causa Primeira. Um Bom Dilma para o jornalista no próximo dia 31 de outubro de 2010...

  • 13. às 07:31 AM em 14 out 2010, Antonio Magalhães escreveu:

    De que país você é? De qual planeta? Você não entendeu nada da relação de Marina com o PT. Dizer que o apoio dela a Serra seria uma punhalada (e não apunhalada)no PT é desinformação pura. Comparar o caso Hilary com Obama. Hilary é democrata do mesmo partido de Obama. É vender a informação errada. Onde aprendeu a fazer\análise política? Ainda bem que é em português e os ingleses não verão seus erros. Decepcionante. Que Ivan Lessa não leia essa análise.

  • 14. às 02:30 PM em 14 out 2010, Tiago Faustino escreveu:

    Vou ser bem direto. Se a Marina ainda tem pretenções de se candidatar novamente a presidência daqui à quatro anos, e queira repetir sua popularidade terá que se por a distância tanto de Dilma quanto de Serra.
    Votarei nulo. Para manter a minha coerência com as propostas e campanhas nulas e inúteis que os atuais candidatos tem demonstrado nesse 2º turno.

  • 15. às 10:03 PM em 15 out 2010, Zéreys Poeta Procopense. escreveu:

    Marina morena Marina você se pintou...

    Se Marina esperava ser lançada pelo O senhor presidente Lula,
    e não foi, depois de se tornar evangélica, e ter estado na frente de um ministério importante como o meio ambiente, é muito ingênuo pensar que ela deixará sua coerência no lixo, para apoiar Serra. 20 anos não são 20 dias.

    Eu não posso crer nisso. Marina deverá colocar - se pretende ser alguma coisa no futuro -, o povo em primeiro plano - este que foi maioria nos 80% de aprovação e/ou os demais 47 milhões e meio de votos; creio sinceramente que no momento se sua escolha ela deverá pensar quantos Brasileiros ela quer frustrar, 47 milhões e meio, mais alguns milhões de sua parte que votará naturalmente na Dilma, ou o restante menor?

    Essa coerência dela será crucial para o seu futuro político,
    apoiar Serra, será extremamente frustrante, para os eleitores do primeiro turno e que possam, possivelmente ser os dela no futuro.
    Ela pensará direito, sim, deverá apoiar Dilma, talvez não pela Dilma, mas pelo Presidente Lula e por si mesmo e em seu futuro político!

    Grande abraço a todos.
    ZéReys - poeta Procopense.

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