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Crise econômica, governos e oposições

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Rogério Simões | 2008-10-03, 12:21

brown.jpgDesde o pedido de concordata do banco de investimentos Lehman Brothers, o democrata Barack Obama vem liderando a corrida à Casa Branca. O impacto da governadora Sarah Palin em favor do republicano John McCain parece coisa da década passada. Os olhos americanos concentram-se agora na busca por uma saída para o atoleiro econômico. Nesse quesito, o candidato governista parece ter mais dificuldades, inclusive porque até recentemente McCain dizia estar tudo muito bem, obrigado, com os "fundamentos" da economia dos Estados Unidos. Num cenário de crise e incertezas em relação ao futuro, o eleitorado americano parece inclinado a punir o governo de George W. Bush. Como de costume, crise econômica faz bem à oposição.

Mas deste lado do mundo anglo-saxão as coisas são diferentes. Se o famoso ditado diz "Em time que está ganhando não se mexe", aqui na Grã-Bretanha poderíamos criar um dito novo. Algo como "Time que está perdendo merece o nosso apoio, porque pelo menos já conhece bem as regras e os desafios do jogo". Muito longo para ser um ditado, mas é como o britânico vê a política.

As eleições aqui ainda não têm data para acontecer, mas pesquisas de opinião seguem sendo feitas. E, até a semana passada, o primeiro-ministro Gordon Brown (foto acima) seguia despencando nas consultas, acuado por um jovem e energético líder oposicionaista e desgastado por sinais de insatisfação dentro de seu próprio partido. Os últimos meses de desaceleração econômica pareciam decretar o inevitável fim de mais de uma década dos trabalhistas no poder. Mas aí vieram exatamente a quebra do Lehman Brothers, a fusão entre Lloyd's e HBOS patrocinada pelo governo britânico e a ajuda americana à AIG, entre outros fatos que deixaram os súditos de Elizabeth 2ª em pânico. A crise agora é para valer. E, como eu indiquei acima, em momentos de crise os britânicos temem mudanças de comando. Gordon Brown então afirmou em um discurso que a situação atual, por ser muito grave, não é para "novatos". Perfeito: Brown recuperou-se nas pesquisas de opinião, ainda não o suficiente para ultrapassar os conservadores, mas o bastante para colocar seu arquiinimigo David Cameron na defensiva. O conservador Cameron foi levado a prometer seu apoio ao governo neste momento difícil, em nome da estabilidade da economia.

Os trabalhistas já sentiram na pele o que é tentar tomar o poder em época de recessão. Em 1992, após 13 anos de governo conservador, os trabalhistas estavam com a vitória certa. John Major era um premiê desacreditado, e o oposicionista Neil Kinnock já se imaginava no topo. Mas o país estava em recessão, eram tempos de crise. E os eleitores britânicos, com medo de piorar ainda mais a situação, preferiram não mexer no time. Major venceu, e Kinnock renunciou à liderança do seu partido. Cinco anos depois, com a recuperação econômica iniciada, a população teve coragem de mudar. Colocou o jovem Tony Blair no comando de uma nação cheia de otimismo. As coisas andavam muito bem, mas o poder mudou de mãos. Aqui na Grã-Bretanha, crise econômica faz bem ao governo.

ComentáriosDeixe seu comentário

  • 1. às 01:41 AM em 04 out 2008, Bonifácio escreveu:

    É uma visão interessante, demonstra uma maturidade política.Só que temos que analisar o seguinte:Qual a parcela de culpa da atual administração nessa crise?
    Tal análise deve ser feita de forma isenta, apartidária para que o benefício seja da nação.
    Vemos ai também a maturidade de uma nação que não precisa de heróis para resolver seus problemas, ao contrário precisa de administradores sérios que buscam o bem de todos e não fazer nome independente das consequências de seus atos.

  • 2. às 05:55 PM em 04 out 2008, Alessandro - Sao Paulo escreveu:

    Como comprovam as teorias ninguém gosta de mudança e quebra de paradigmas, mas até quando? Acho que o premiê britânico está certo e teve de ter coragem para chamar um opositor, que por sua vez teve a educação de aceitar o cargo por uma questão de espirito solidário talvez ou até mesmo queira algo em troca num futuro próximo. O fato é que somente a união salvará as economias mundiais. Criticas serão benvindas desde que seja feitas com dados factiveis para análise.

  • 3. às 06:30 PM em 06 out 2008, Nene Osutei escreveu:

    Duvido que os americanos vai votar como os britânicos já têm feito. Nos EUA o que geralmente acontece é o inverso de que Rogério descreveu. Quando eles enfrentarem problemas econômicos ou politicos, a primeira reacção deles serão mudança.

    Em 1976, mudaram pra os democratas, elegendo o Jimmy Carter depois a então crise de energia. E quarto anos depois, com medo de crise de reféns no Irã, votaram em o republicano Reagan. Embora esses exemplos aconteceu há muito tempo, acho que a mesma coisa possa acontecer no dia 4 de Novembro, quando os republicanos forem derrotados. Vamos aguardar pra ver!

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