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Iraque, ontem e hoje

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Rogério Simões | 2007-11-27, 13:32

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Na semana passada, em que estive de folga, mergulhei em dois excelentes trabalhos jornalísticos sobre a guerra no Iraque, tema que já permite uma retrospectiva, sem que se abandone o olhar sobre o presente. A guerra no Iraque é, ao mesmo tempo, história e atualidade.

O passado recente é revisitado de forma brilhante no livro Imperial Life in the Emerald City (Vida Imperial na Cidade Esmeralda), do repórter do jornal The Washington Post Rajiv Chandrasekaran. Já o momento atual do conflito é explorado com intrigantes detalhes na reportagem de Jon Lee Anderson, na revista The New Yorker, uma excelente investigação sobre a atual estratégia militar americana no país. Dois fascinantes retratos de momentos contraditórios, e complementares, desse conflito que continua definindo caminhos da política internacional.

O livro de Chandrasekaran, que descreve a vida dos americanos na Zona Verde, a região protegida no centro de Bagdá, trata de uma superpotência mergulhada em um mundo de fantasia, tentando dar passos muito maiores do que suas pernas. Logo após a queda da capital iraquiana, os Estados Unidos assumiram o controle político e administrativo do Iraque imaginando poder transformar a Mesopotâmia em uma mistura de Wall Street, Miami e Texas. Washington quis impor sua versão de democracia e liberalismo econômico de forma tragicômica, usando dispositivos ditatoriais e com pouca, ou quase nenhuma, ligação com o mundo real.

A obra lembra erros fatais da CPA (Coalition Provisional Authority) já bem conhecidos, como a desativação de todo o Exército do Iraque ou o fechamento do jornal do grupo do xiita Moqtada Al-Sadr. Mas o repórter do Washington Post, que viveu no Iraque de 2002 a 2004, mostra que o início da ocupação americana teve aspectos ainda mais constrangedores. Ele nos conta como um rapaz de 24 anos, sem experiência alguma em mercados financeiros, foi escolhido para reativar a bolsa de valores da capital iraquiana. Não contente com a tarefa, ele imaginava poder estabelecer um pregão babilônico, com tecnologia e infra-estrutura de Primeiro Mundo, onde antes só havia papéis e lousas.

"Imperial Life" mostra também como um capitão do Exército americano fez de tudo para criar um novo Código de Trânsito para o país, tendo como modelo a legislação do Estado de Maryland ("Se era bom o suficiente para Baltimore, era bom o suficiente para Bagdá", escreve Chandrasekaran, de forma irônica). Ou como um ex-secretário de Michigan quis privatizar a distribuição de medicamentos no Iraque, reproduzindo o que havia no Estado americano, e realizar uma campanha para reduzir o número de fumantes no país. Um desastre atrás do outro, enquanto o Iraque carecia de energia elétrica, empregos ou hospitais, e a insurgência crescia a olhos vistos.

Quatro anos depois, Jon Lee Anderson foi às ruas de Bagdá investigar a atual estratégia militar dos Estados Unidos. Sua reportagem revela uma situação oposta à presenciada por Chandrasekaran, de uma superpotência com ambições muito mais modestas. Os americanos buscam agora apenas condições mínimas de segurança no Iraque para poder deixar o país de vez. Para isso, como mostra Anderson, aliaram-se a ex-combatentes da insurgência sunita e contam com a ajuda de membros de milícias xiitas. Um deles, para vingar a morte de seu irmão por membros do Exército Mahdi, que julgava serem seus amigos, decide denunciar alguns milicianos ao Exército americano e matar outros. "Jafaar tinha dez dedos; cada um valia dez membros do Jaish al-Mahdi. Então eu decidi me vingar contra cem deles. Até agora, me vinguei de 20", disse o xiita a Anderson, referindo-se a quantos homens já havia matado.

Eu poderia lembrar aqui também o livro The Occupation (A Ocupação), de Patrick Cockburn, correspondente do The Independent, outra ótima referência sobre o conflito no Iraque. Chandrasekaran e Anderson, assim como Cockburn, são repórteres que viveram a realidade sobre a qual escrevem e conseguem oferecer ao leitor uma visão equilibrada, crítica e honesta daquilo que viram. O Iraque continuará exigindo um olhar atento da imprensa por muitos anos. Por isso é bom ver esforços sérios de reportagem chegando ao grande público, tentando decifrar o que é a maior tragédia militar e política deste início de século.

ComentáriosDeixe seu comentário

  • 1. às 06:47 PM em 27 nov 2007, Euclides Pereira Duque escreveu:

    Gostaria de lembrar as patéticas reuniões na ONU onde de um lado um embaixador iraquiano insistindo que não havia armas de destruição de massa e do outro o Colin Powell ridiculamente mostrando caminhõezinhos que estariam repletos daquelas armas e assim os americanos convenceram os ingleses e outros países a invadir e ocupar o Iraque à revelia da ONU que não obstante tentou no início colaborar e nosso representante explodiu e a guerra continuou apesar do Bush posar heroicamente no porta-avião alardeando vitória e a resistência continuava e continuou, agora recentemente paralelamente ao envio de mais 30 mil soldados americanos o xiita Sadr, um dos que são contra a ocupação americana, deu seis meses de paz. Daí em diante...que será?

  • 2. às 01:46 AM em 28 nov 2007, jairo. escreveu:

    Os Estados Unidenses, deveriam ter um pouco mais de inteligência e usar uma estratégia diferente no Iraque.Vejamos o objetivo principal, seria o petróleo, mas como chegar ao objetivo, são muitas as opções de respostas, mas porque não levaram a religião local em conta, porque não fizeram como os portugueses aqui nas Américas, ou seja conseguiram ouro e outras riquezas, em troca de bugingangas, como espelhos, ferramentas,etc.Então os Invasores do Iraque deveriam saber desde o início que a religião seria a chave do sucesso em sua aventura, poderiam chegar em Bagdá e de cara propôr a construção do maior templo muçulmano de todo o mundo, elém disso, construção de grandes templos em todas as grandes cidades Iraquinas, além de respeitarem mais um pouco o povo de lá, aí sim teriam sucesso garantido, mas esse negócio de querer tirar as burcas das mulheres,os homens, vertir ternos no lugar das roupas Árabes impor um modo ocidental a bala, isso lá eles podem conseguir, mas não sobrará um Iraquiano em pé.Então o que temos assistido, é a mídia dando uma mãozinha aos invasores, pois não mostram os hospitais lotados de crianças, feridas, pessoas perambulando pelas ruas, com olhares assustados, e sem rumo certo, creio que os invasores, conseguiram com muita eficiência ser muitas vezes piores que o Sadan.Pois agora descobriram que não se vence uma guerra dessas, de dentro dos seus navios disparando misseis, ou de seus aviõezinhos, despejando bombas, o mais difícil está agora se mostrando, que é reconstruir o Iraque, consolidar as instituições, amparar milhares de refugiados etc. sob pena de saírem mais uma vez desmoralizados.

  • 3. às 02:48 AM em 28 nov 2007, André escreveu:

    A um bom tempo como cidadão global venho acompanhando desde o 9/11 os conflitos "resultantes" deste episódio. Embora seja uma pessoa de mente aberta e pronto a ouvir e ponderar e mesmo diante de argumentos tão fortes (os quais não convem debate-los aqui no momento) ainda assim como uma pessoa de bom senso, você acaba ponderando: Não é possivel que algo tão trágico possa ter sido arquitetado etc etc.
    Entretanto, após ler, ouvir e assistir varias fontes (de credibilidade) sobre assunto e ver que bilhões e bilhões de dólares, LITERALMENTE, são "obtidos" das mais diversas formas como um verdadeiro bazar de lucro sobre a miséria e morte alheia, fica impossivel para uma pessoa com um pouco de discernimento, não chegar a conclusão e conceber que o 9/11 possa realmente ter sido arquitetado para alcançar o objetivo que hoje vemos como fato. De fato, é algo que poderia ser feito como uma "brincadeira".
    Sei que isso parece insano, mas aconselho por exemplo, a assistirem dois excelentes documentarios, que por sinal corroboram na íntegra com o teor da materia citada nesta coluna:

    Filme: NO END IN SIGHT (premiado no Sundance Film Festival 2007)

    Um excelente e respeitavel documentario sobre a total incompetencia, negligência, ganância e toda sorte de falta de escrupulos nos motivos, meios e objetivos desta guerra imunda.
    Não se trata de um documentario de alguma teoria da conspiração e sim um documentario com embasamento em depoimentos de credibilidade desde soldados, tenentes, coronéis, generais, embaixadores, administradores de organizações de ajuda humanitaria, representantes do alto escalão da administração bush etc.

    site Oficial: http://www.noendinsightmovie.com
    Trailer: http://www.youtube.com/watch?v=qGPp-WhgEXE

    E

    Filme: IRAQ FOR SALE, THE WAR PROFITEERS
    (empresas que lucram somas insanas em "prestações" de "serviços" relacionado a tudo o que diz respeito a guerra)

    Site Oficial: http://iraqforsale.org/
    Trailer: http://www.youtube.com/watch?v=yJUEULWEP9c

    Infelizmente ainda não temos versões em português e não sei se as teremos. Entretanto, acredito que após a descoberta dos novos campos de petróleo em águas brasileiras, este assunto é mais do que pertinente aos nossos interesses e soberania.

  • 4. às 12:28 AM em 09 dez 2007, Paulo Fabricio escreveu:

    Não adianta mostrarmos só os erros monstruosos dos americanos sem antes percebermos que eles tentaram ingetar os costumes e o modo de vida americano.
    O que de certa forma poderia ser classificada como uma missão impossível, pois a cultura Iraquiana é "medieval" e impasivel a mudanças drásticas onde a religião chega a ser nociva causando em seus adpitos um estado nostalgia de iguinorancia e ira do que sai de seus costumes.
    Veja bem em uma cultura que as mulheres são escondidas, e caso saiam da linha ou tenham qualquer deslize são espancadas, mutiladas ou ate mortas.
    o Iraque sera sempre a "Boca do inferno" vista de qualquer forma, como todo o oriente medio.

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