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A política e a mídia

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Rogério Simões | 2007-06-18, 17:49

Prestes a passar o cargo de premiê britânico para Gordon Brown, Tony Blair fez na semana passada um discurso em que atacou o comportamento da mídia britânica na sua relação com o poder político. O premiê criticou o que chamou de "constante hiperatividade" da mídia, que tenderia a transformar pequenos problemas em verdadeiras crises e veria o mundo em "preto e branco" quando, na sua visão, a realidade é "cinza", ou seja, muito mais complexa do que manchetes de jornais tendem a sugerir. Para cutucar ainda mais a imprensa, Blair disse que a fragmentação da mídia exigiria novas regras para regulamentar especialmente o trabalho dos jornais.

Foi um discurso polêmico, possível apenas porque Tony Blair está deixando o comando do país. Como ele mesmo previu, muitos jornais reagiram mal, especialmente o único citado (negativamente) por Blair. Em editorial de primeira página, o jornal The Independent, que para o primeiro-ministro é um exemplo de confusão entre notícia e opinião, perguntou: "Você diria isso, sr. Blair, se nós apoiássemos a sua guerra no Iraque?". O conservador The Sun disse que "políticos que reclamam da mídia são como marinheiros que se queixam do tempo". A maioria dos jornais se mostrou preocupada com a sugestão do premiê de mais controle sobre a imprensa.

Pontos do discurso de Blair foram elogiados, especialmente aqueles relacionados à competição extrema que existe no setor e faz com que veículos busquem mais o impacto e menos o conteúdo. Mas quase todos que os detacaram disseram, como fez o jornal The Guardian em editorial, que, se a mensagem era correta, faltava credibilidade ao mensageiro. Afinal, Blair e seu Novo Trabalhismo são apontados aqui na Grã-Bretanha como principais agentes do chamado "spin", ou seja, as estragégias de valorizar ou distorcer, num trabalho de marketing, as informações saídas do governo central.

Relações entre a política e a mídia sempre foram conturbadas. Com a fragmentação e multiplicação da oferta de informação, elas se tornam ainda mais complexas. Além de Blair, outros líderes nacionais, entre eles o presidente Lula, sabem que a convivência diária com a mídia é, em grande parte e como não deveria deixar de ser, marcada por momentos difíceis. Mas, difícil ou não, com a transformação tecnológica que criou o jornalismo de 24 horas por dia, via TV, rádio, computador, celular etc, o fato é que Blair tem razão ao dizer que essa relação mudou. Preservá-la como algo transparente e correto é uma missão a ser abraçada pelos dois lados.

ComentáriosDeixe seu comentário

  • 1. às 09:47 PM em 19 jun 2007, Claudionor Matos escreveu:

    "Os comentários passam pela aprovação do blog antes de serem publicados".Eu penso que esteja correto.Assim,também,os jornalistas deveriam ser responsabilizados por suas informações, de forma que a sua credibilidade fosse proporcional ao teor das mesmas. Na verdade, o que Eles querem é criar uma espécie de Serasa, SPC das comunicações, com impedimentos de profissionais atuarem em suas respectivas áreas, principalmente a política. Toda informação sobre alguém que, por qualquer motivo, se torne público, não só deve como se torna imperativo a sua divulgação, resguardando apenas a privacidade da pessoa. Todo ato ou fato com pessoa pública pode ser divulgado sem receber punições de qualquer ordem.

  • 2. às 02:04 AM em 20 jun 2007, Carlos Medeiros escreveu:

    O Tony Blair fala contra uma mídia que sempre defendeu suas ações em relação às políticas intervencionistas do seu país e dos EUA. Esperta, vendo crescer as manifestações publicas contra as invasões, deixou de publicar de maneira maquiada as justificativas para as matanças e torturas.

  • 3. às 07:46 AM em 20 jun 2007, Alexandre escreveu:

    Blair é um traidor do Trabalhismo, ao apoiar uma guerra (leia-se: assassinatos) sem argumento, sem armas de destruição em massa, sem Al-Qaeda (aliás, "qa" em português não existe, será que o jornalismo não poderia buscar algo melhor?).
    Decisões teórico-orientadas num sofá de gabinete podem ser muito desastradas e causar sofrimento incalcúlavel, responsabilidade que Blair levará para o resto da vida.

  • 4. às 09:14 AM em 20 jun 2007, Sergio Cajado de Oliveira escreveu:

    Concordo que o Sr. Blair tem razão, mas ele se utiliza de uma lógica obscura e uma argumentação mal planejada. A então chamada visão Preto e Branco é o código binário que compõe o cinza, ou seja, o preto e branco visto sob uma outra ótica. Entre o preto e o branco existe o espectro cromático com milhões de côres, mas ao dizer que sua visão é cinza incíta o entendimento de que é um mundo aborrecido, estóico e conservador onde nenhuma nova verdade 'deve' ser descoberta. Ele é coerente todavia, uma vez que o spin trabalhista lembra o rumo das piores previsões de George Orwell.

    A enxurrada de perguntas retóricas e declarações apimentadas da imprensa deixa mesmo a impressão de que é pessoal, como se um vírus corroesse a ética apagasse a objetividade com o intuito único de auto promoção.

    O massacre evidente põe em risco a credibilidade. Mas estamos falando de Blair e da imprensa. "Preservar a informação como algo transparente e correto é uma missão a ser abraçada pelos dois lados". Manipuladores e manipulados contra a manipulação, soa meio bizarro mas o fato é que tanto Tony Blair quanto 'muitos' jornalistas tem apenas um único e mútuo objetivo. Contrôle.

  • 5. às 10:14 AM em 20 jun 2007, Alessandro Cavalcante escreveu:

    Não tem de proibir nada. A midia foi lá e incomodou muito Sir Tony Blair, investigando e tentando apurar os fatos para que viessem a tona de uma forma imparcial. A guerra do Iraque é uma mentira? Não, é uma verdade. No começo a midia apoia a guerra como uma forma de libertação do povo iraquiano, hoje, se rebelou dado os problemas que lá persistem, o fato é que essa guerra foi provocada sem justificativa factível pelos EUA com apoio do Reino Unido. Esses politicos tem de saber que a única arma da população é a midia. E que a midia está lá e sempre estará lá para policiar seus governos, seus atos. É uma questão de liberdade de expressão, de democracia e não de autoritarismo. Quem controla a midia são ditadores. Porque o presidente está incomodado com a midia? Vejam esses escandalos pipocando no seu governo, mas vejam também o trabalho da policia federal que é exemplar, é uma situação dialética mas que só a midia pode informar a população. O que deve se fazer é um dispositivo para apurar possiveis falhas da midia, e se for o caso punir os responsáveis.

  • 6. às 05:11 PM em 20 jun 2007, Julio Gerardo Moreyra escreveu:

    A liberdade de imprensa é muito importante.
    Mas, é muito mais importante a livre expressão.
    Se há transparência certamente vocês não estarão sozinhos.
    Se pelo contrario, a prensa deixa de ser expressão para espalhar a versão oficial de qualquer interesse.
    Então aí estarão com problemas.
    Hoje tem coisas que me deixam alerta.
    Aquela insana acusação ao Presidente Lula sobre a bebida.
    Pode que seja certíssima, mas, aponta a o que?
    Jornais de meu pais cobravam a Lula com 45 dias de governo as dificuldades de implementação do plano fome zero.
    Naqueles dias se aprovou o novo código civil brasileiro.
    Conseqüência, sem duvida nenhuma, de 15 anos de trabalho do Procom.
    Para mim que sempre estou olhando de fora o Brasil este assunto é determinante para o Brasil potência.
    Já que assegurar os direitos do consumidor marcou um antes e um depois.
    De ali em diante um novo pais se começou a construir.
    Na minha visão.
    Eu me comuniquei com o jornal e manifestei meu desconforto pela ausência duma e a inclusão da outra.
    Eles responderam que o jornal comprava as noticias e que a matéria era responsabilidade dum periodista argentino do “La Nación”
    No Uruguai, existe uma animosidade importante que é criada pela imprensa.
    Da um arrastrão no Rio, na hora esta nas noticias.
    Pegam um corrupto, na hora.
    Coisas boas, proveitosas, esperançadoras não tem difusão.


  • 7. às 02:30 PM em 21 jun 2007, DILETE F. BATILOCHI escreveu:

    EU ACHO QUE TUDO E TODOS QUE ESTAO ENVOLVIDOS NESSA MATERIA JORNALISTICA TEM SEUS PROPRIOS INTERESSES SALVO O POVO QUE SEMPRE PAGA UM PREÇO MUITO ALTO PELO DESMANDO DOS QUE DETEM O PODER SEJA NO EXTERIOR OU NO BRASIL ESTA TUDO NEGRO PRINCIPALMENTE QUANDO VIDAS SE PERDEM PARA QUE MUITOS FIQUEM MAIS RICOS E ACIMA DO BEM E DO MAL

  • 8. às 11:46 AM em 22 jun 2007, Carlos Botelho escreveu:

    Não podemos deixar de ver por outro ângulo, que infelizmente muitas vezes a imprensa se submete ao jogo de interesses políticos e econômicos de um grupo. No Brasil vemos isto claramente quando um “certo” grupo da imprensa manipula a opinião pública dando relevância exacerbada em algumas questões menores e minimiza a relevância de outros assuntos muito mais importantes e estratégicos. Eu mesmo tenho testemunhado “in loco”, o quanto “certa” imprensa mente para dividir a opinião pública, principalmente quando se trata do governo. Gostaria que pudéssemos crer piamente na imprensa como sendo justa, infalível e imparcial. Mas acho isto impossível enquanto interesses particulares se opuserem e sobrepujarem ao interesse público. E digo público me referindo à sociedade não ao governo. Creio que quando a imprensa abandonar sua sede pelo poder manipulador e se preocupar mais em trazer a realidade “real” ao conhecimento público, talvez as guerras diminuam, seja em Bagdá, seja no Rio de Janeiro, seja em São Paulo.

  • 9. às 08:11 PM em 22 jun 2007, Gláucia escreveu:

    Pensei que político tentando amordaçar mídia só na América Latina. Blair fez a festa para Lula e Chávez, disse o que esses dois estão falando a muito tempo. Para nós, que vivemos nesses trópicos, qualquer declaração dessas por um representante de país de primeiro mundo é terrível.Pois vem ao encontro dos interesses desses novos populistas latinos. Na Venezuela a censura já está as claras, mas no Brasil, que tem instituições masi sólidas a coisa caminha bem sutil. Observem se os meios de comunicação que estão vinculando o nivel deplorável de corrupação no país, estão ganhando licitação de propaganda do governo. Há uma pressão econômica, e há o medo, sim, do Desgoverno do Louco( Lulla) conseguir implantar uma espécie de censura no país. Há um projeto_ quase uma cópia do modelo Venezuelano,de mordaça dos meios sociais no Congresso Brasileiro. É momento delicado, na democracia latina, esse que passamos.

  • 10. às 11:37 AM em 24 jun 2007, Wanderley Stagliano escreveu:

    Da Terra Brasilis vejo que o Tony, o Chaves e o Lula tem queixas parecidas com relação a imprensa, isso parece coisa de politico ou da política que não aceita criticas. Por hora, os Britânicos não precisam ficar preocupados - as coisas estão apenas nas criticas, o pior vem quando passam para projetos de controle da impresa e para o fechamento de TVs.

  • 11. às 03:44 PM em 24 jun 2007, Gildcley Luiz escreveu:

    Desde sempre os governantes usam a mídia das mais diversas formas, a benefício próprio, para atacar adversários, também como as empresas de comunicação são benevolentes com os governos, pelo menos no Brasil, onde o governo é o maior anunciante e fonte de renda para estas empresas. De toda forma é notório o incomodo de governantes ao serem analizados pelas mídias, ora, se não forem os meios de comunicação quem irá levar as discussões governamentais a tona, pois toda ação governamental deve ser discutida de todos os ângulos prós ou contras.

  • 12. às 05:56 PM em 24 jun 2007, Rocha P Brito escreveu:

    Vejo com bons olhos a liberdade de imprensa e a liberdade de expressão. Fico feliz, tendo a mídia um poder sobre os governos, de mostrar opiniões e fatos em diferentes ângulos e perspectivas.
    O quê não gosto é da utilização do poder da mídia para alienação do povo, para mentir sobre a realidade dos fatos. O exemplo mais claro é a RCTV da Venezuela, quem conhece a derrubada do governo Hugo Chavez (não sou fã do caudilho) sabe o crime que ela cometeu.
    O ponto é não desvirtuar a informação, é publicar a verdade. O ponto é calibrar a verdade com os interesses dos DONOS da mídia. Essa é a questão: OS DONOS DA MÍDIA. Eles querem expressar seus interesses, suas opiniões e impõe o ritmo das redações. Esse é paradigma, o grande problema da mídia. Seus bastidores, os interesses dos SEUS CONTROLADORES. Como legislar sobre isso... pensem senhores.

  • 13. às 05:59 PM em 24 jun 2007, Rocha P Brito escreveu:

    Vejo com bons olhos a liberdade de imprensa e a liberdade de expressão. Fico feliz, tendo a mídia um poder sobre os governos, de mostrar opiniões e fatos em diferentes ângulos e perspectivas.
    O quê não gosto é da utilização do poder da mídia para alienação do povo, para mentir sobre a realidade dos fatos. O exemplo mais claro é a RCTV da Venezuela, quem conhece a derrubada do governo Hugo Chavez (não sou fã do caudilho) sabe o crime que ela cometeu.
    O ponto é não desvirtuar a informação, é publicar a verdade. O ponto é calibrar a verdade com os interesses dos DONOS da mídia. Essa é a questão: OS DONOS DA MÍDIA. Eles querem expressar seus interesses, suas opiniões e impõe o ritmo das redações. Esse é paradigma, o grande problema da mídia. Seus bastidores, os interesses dos SEUS CONTROLADORES. Como legislar sobre isso... pensem senhores.

  • 14. às 08:29 PM em 07 jul 2007, Rafael Meideiros escreveu:

    É enjante saber como é verdade as palavras do Ex primeiro Ministro. Mais de 200.000 mil mulheres morrendo e sendo estupradas todos os dias em campos de refugiados em Darfur no Sudão e a mídia britânica aumentando em 1000% o conflito Israel-Palestino , como se fosse pior !!! Isso é realmente assustador e preocupante, além de pensar que o grupo que esta dizimando essa população seja uma milícia árabe.

  • 15. às 08:30 PM em 07 jul 2007, Mário Fernando escreveu:

    Sem menos eu ler o comentário do Sr. Blair, eu já pensava assim da mídia britânica, ainda mais nessa passagem:


    " "constante hiperatividade" da mídia, que tenderia a transformar pequenos problemas em verdadeiras crises "

    total verdade sobre os fatos.

  • 16. às 10:06 AM em 24 jul 2007, Luís da Velosa escreveu:

    Se o ex-ministro Tony Blair pensa assim, então que revele, claramente, os intuitos da política. Se não diz, a sua interpretação é mais que púmblia... pertence à escuridão do cosmo. Mas, ele bem que sabe: se não fora a "media" ele não existiria, muito menos de cinza!

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