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Uma década feita de história

Rogério Simões | 15:23, quinta-feira, 5 maio 2011

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binladenblog.jpgOs atentados de 11 de setembro de 2001, nos Estados Unidos, marcaram o meu primeiro ano de trabalho aqui na BBC. A morte do líder da Al-Qaeda, Osama Bin Laden, marca a minha última semana como diretor da BBC Brasil e meus últimos dias em Londres, antes da minha volta a São Paulo. O violento fim daquele que é considerado o maior terrorista da história também nos lembra quão diferente é a nossa realidade em comparação ao ano em que as torres do World Trade Center desabaram. Não que os ataques da Al-Qaeda tenham mudado o mundo, como muitos disseram na época. Os atentados de certa forma apenas ajudaram a nos avisar que o mundo estava mudando. O aparecimento de novas tecnologias, em especial a internet, o avanço de regiões antes confinadas ao chamado Terceiro Mundo e uma nova percepção do poder e da influência dos Estados Unidos eram processos que já vinham em curso, mesmo que de forma latente. Olhando para trás, é possível concluir que o 11 de Setembro foi apenas um indicativo do tamanho das mudanças que estavam por vir.

As transformações dos últimos anos não estiveram ligadas apenas às novas preocupações com a segurança. A distribuição de poder político e econômico e o próprio meio ambiente do planeta que habitamos são hoje bem distintos. Os atentados de 2001 levaram Washington a invadir o Afeganistão para tirar o Talebã do poder e tentar capturar Bin Laden, numa ação sancionada pela ONU. Menos de dois anos depois, a ganância militar que levou os americanos a operação semelhante no Iraque, dessa vez sem o apoio explícito das Nações Unidas, reforçou a percepção de que os Estados Unidos eram na verdade mais fracos do que se pensava. Não conseguiram vencer duas guerras em países pobres, contra inimigos armados principalmente com explosivos improvisados. Se os iraquianos acabaram se cansando de lutar, os afegãos do Talebã ainda mostram-se um inimigo muito mais difícil de subjugar, em um conflito ainda ativo dez anos depois.

No início de 2011, os vários movimentos populares no mundo árabe deram razão a parte do argumento em favor da guerra no Iraque, o de que a região estava preparada para a democracia. Mas, diferentemente do que imaginavam os neo-conservadores americanos, uma nova ordem democrática não seria imposta militarmente, por meio de uma invasão estrangeira. Na Tunísia, no Egito, na Líbia, no Iêmen ou na Síria, os pedidos de democracia vêm de dentro para fora. Além disso, o questionamento do poder dos ditadores não tem sido feito com base em plataformas religiosas. A ideia de que o Ocidente precisa apoiar regimes autoritários para impedir que a região seja governada por Bin Ladens tem caído por terra, pelo menos de acordo com os primeiros meses de revoluções, marcadas pela defesa da democracia e da instalação de regimes civis e laicos. Em 1979, no Irã, os democratas do movimento que derrubou o xá acabaram calados pelo fundamentalismo xiita do aiatolá Khomeini. Nada até agora indica que as revoluções árabes tenham o mesmo destino.

Na economia, o mundo pode não ter virado de cabeça para baixo, mas chegou perto. O liberalismo extremo surgido na era Reagan/Thatcher foi quase nocauteado, vítima dos excessos inerentes à sua sede de expansão. Ao mesmo tempo, os emergentes consolidaram-se como forças industriais ou fornecedores de commodities, em um mundo impulsionado pelo avanço chinês. O cenário desse embate foi, inicialmente, a Organização Mundial do Comércio, onde já no início do milênio o Brasil e outros começaram a acumular vitórias contra as antigas potências comerciais. Contrariando muitas previsões iniciais, a OMC, que começou a operar em 1995, tornou-se importante arma para nações emergentes, como o Brasil. O governo brasileiro foi fundamental na vitória, em 2003, em favor do acesso por países pobres a medicamentos genéricos contra a Aids e outras doenças. Mais um sinal das grandes mudanças que estavam a caminho.

A comunidade internacional não conseguiu chegar a um entendimento sobre regras comerciais, em torno da chamada Rodada Doha, lançada em 2001. Mas, mesmo sem um acordo, o mundo seguiu em frente, de uma forma que parece ter beneficiado muito mais as nações emergentes do que as potências tradicionais. O Brasil passou a ter a China como seu maior parceiro comercial e integra o grupo BRICS, que começou como uma palavra simpática cunhada pelo economista Jim O'Neill e transformou-se em uma referência deste mundo novo. Os Estados Unidos e a Europa continuam lutando para superar os efeitos da crise econômica iniciada em 2007, com os americanos rasgando boa parte do livro didático do FMI sobre como conduzir as finanças de um país. Para tirar a nação do atoleiro, as autoridades americanas seguem inflando o mercado de dólares, elevando a pressão inflacionária sobre outros países, como o Brasil. Em vez de liberalismo econômico ortodoxo, o momento é de salve-se quem puder.

Tudo isso enquanto o planeta sofre os efeitos de seu aquecimento. A tese de que o problema é causado pela ação humana foi aceita até pelos Estados Unidos, mas as medidas para controlá-lo têm sido tímidas, com o acordo de 2010 servindo de fio de esperança para o futuro. A batalha pelo meio ambiente talvez seja a que melhor traduza a importância dos últimos dez anos para o mundo como um todo. Foi uma década feita de história, que eu tive o privilégio de acompanhar por meio dos olhos da BBC. Deixo agora o comando da BBC Brasil, enquanto esse processo segue em frente, e com este texto me despeço dos leitores do Blog do Editor. Até breve, em um outro espaço, sempre atento às fascinantes transformações que nos acompanham, dia após dia.

De novo, os imigrantes

Rogério Simões | 12:35, quarta-feira, 27 abril 2011

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imigrantestunisiablog.jpgA lista da revista americana Time com as cem pessoas mais influentes do mundo trouxe uma nova líder na qual poucos apostavam até recentemente. Seu avanço no círculo político, após a saída de cena do seu mentor e padrinho, foi uma das grandes novidades recentes na disputa pelo poder em seu país. Não estou falando da presidente Dilma Rousseff, também incluída pela Time na relação e cuja estrela só faz subir, apesar dos enormes desafios do Brasil. Eu me refiro à líder da Frente Nacional francesa, Marine Le Pen, cuja ascensão entre os eleitores na França é sinal dos tempos. Surfando na onda da crise econômica que continua afligindo o Velho Continente, um novo movimento anti-imigração ganha força entre líderes nacionais e apoio nas urnas ou pesquisas de opinião.

Os premiês da França e da Itália, depois de uma breve crise diplomática envolvendo imigrantes vindos da Tunísia, resolveram se aliar para combater o problema. Nicolas Sarkozy e Silvio Berlusconi apareceram nesta semana lado a lado para exigir da União Europeia uma revisão do acordo, nascido nos anos 80, que permite o livre trânsito dentro do bloco. É mais um baque para o espírito da UE, cujos principais pilares são a moeda única (abalada pelas crises na Grécia, na Irlanda e em Portugal) e a ausência de checagem de documentos nas fronteiras internas (com exceção das ilhas Grã-Bretanha e Irlanda). Desde a chegada de dezenas de milhares de refugiados das crises políticas no mundo árabe, a preocupação com a imigração aumentou, e as lideranças nacionais sentem-se pressionadas a fazer algo a respeito. Na cabeça de Sarkozy, particularmente, está o nome de Marine Le Pen. A filha de Jean-Marie Le Pen herdou do pai o comando do partido de extrema-direita francês e vem tentando torná-lo uma opção viável nas urnas. Uma pesquisa recente trouxe Marine na liderança da disputa presidencial, um ano antes das próximas eleições, com o apoio de 23% dos ouvidos. Foi o suficiente para preocupar Sarkozy, que deverá tentar a reeleição, e colocá-la na lista de influentes da Time.

O apoio a políticos que exploram o medo da população local de perder o emprego para trabalhadores estrangeiros não se restringe à França. Vários países europeus registraram nos últimos anos um crescimento dessa tendência, como a Finlândia, onde a extrema-direita quadruplicou seus votos entre 2007 e 2011, chegando a 20% do total no pleito realizado em março. Além disso, a preocupação geral com a imigração (ou com os fantasmas criados em torno do fenômeno) tem forçado políticos mais ao centro a ajustar seus discursos. O atual líder dos trabalhistas na Grã-Bretanha, Ed Milliband, disse dias atrás que o seu partido, quando no governo, subestimou o impacto da imigração na disputa por empregos e moradia no país. O atual primeiro-ministro, o conservador David Cameron, foi além: comprometeu-se com mais restrições contra aquilo que chamou de "imigração em massa".

A atração exercida por muitos anos pelo continente europeu sobre aspirantes a bons empregos e bons serviços sociais tem diminuído desde a eclosão da crise econômica, em 2008. Nações como Irlanda e Portugal, que por muitos anos atraíram trabalhadores de várias partes do mundo, inclusive do Brasil, começam a voltar à característica que tiveram no passado, de exportadores de mão-de-obra. Portugueses céticos diante das atuais dificuldades começam a deixar o país, numa onda migratória que tem como um dos destinos o Brasil. Já os brasileiros em geral começam a se acostumar, cada vez mais, com a presença de latino-americanos, europeus ou americanos no mercado de trabalho, já que o crescimento econômico tem atraído profissionais, qualificados ou não, de outras nações. O Brasil, cuja sociedade é majoritariamente composta por imigrantes (os índios são os únicos que estão no país há mais de 500 anos), perdeu cidadãos durante décadas, mas volta a receber estrangeiros entusiasmados com seu potencial. Qual será a atitude do país diante desse interesse? Parte dos europeus acredita não poder mais manter suas portas abertas, levando líderes a jogar com as cartas da xenofobia. No Brasil, a disposição de lidar com o diferente também será aos poucos testada, pelo menos enquanto o país for visto como fonte de prosperidade em um mundo imerso na incerteza econômica.

A luta por energia

Rogério Simões | 17:02, segunda-feira, 18 abril 2011

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nuclearblog.jpgO filme Guerra do Fogo, de 1981, dirigido pelo francês Jean-Jacque Annaud, conta uma história passada nos primórdios da humanidade. Neandertais e homo sapiens disputam território e recursos, em uma interação decidida pela capacidade do humano moderno de produzir e controlar o fogo. Tal habilidade viria a definir a conquista da Terra pela humanidade. Há mais de 100 mil anos o homem manipula a natureza para a fabricação de energia, essencial para protegê-lo do frio, cozinhar alimentos e garantir sua segurança em meio à escuridão.

A chegada da eletricidade à vida cotidiana revolucionou nossas sociedades e aumentou drasticamente nossa dependência de energia. Nossa segurança e visibilidade noturnas passaram a ser garantidas não mais pelo fogo, mas por fios de conexão e sistemas de distribuição de eletricidade, cuja geração passou a ser feita das mais diversas formas. Hoje sabemos que as mais tradicionais são nocivas ao meio ambiente. O relativo consenso que se formou em torno da principal causa do aquecimento global, a emissão de gás carbônico na atmosfera, transformou em vilã quase toda produção de energia, praticamente associando a vida em centros urbanos à inevitável destruição do nosso habitat natural. Até mesmo a operação hidrelétrica, não associada diretamente à emissão de carbono e considerada limpa a partir do início da produção energética, tem enorme impacto sobre comunidades e a natureza na sua fase de implantação. Produzir e consumir energia são atividades hoje tão perigosas ao planeta quanto essenciais à nossa vida moderna.

O assunto tornou-se mais complexo após o terremoto e tsunami no Japão, no mês passado. O acidente na usina nuclear de Fukushima foi de repercussões atômicas no debate sobre a validade e os riscos dessa matriz energética, considerada por muitos uma alternativa essencial no combate ao aquecimento global. Em comparação a qualquer outra produção de energia fóssil (carvão, petróleo, gás natural), ela é relativamente limpa, mas envolve o risco de vazamento de radiação e a inevitável produção de lixo radiativo. Isso já se sabia, mas o acidente de Fukushima deu novas cores à polêmica. Na Europa, a reação imediata foi o anúncio de novos testes de segurança nas instalações nucleares no continente. Apesar das promessas do governo alemão de rever a decisão de aumentar a vida útil de suas usinas, milhares de pessoas protestaram em Berlim contra a produção de energia nuclear no país. A preocupação dos alemães foi tanta que o apoio ao Partido Verde local disparou, dando à legenda uma histórica vitória nas eleições do Estado de Baden-Wurttemberg, uma derrota amarga para a chanceler Angela Merkel. Do ponto de vista de grande parte da Europa, a tragédia japonesa enfraqueceu o argumento em favor da energia nuclear.

Muitos, entretanto, não se cansam de repetir o que para outros é uma tese difícil de aceitar: o aquecimento global não poderá ser contido ou mesmo minimizado sem a ajuda da energia nuclear. Um dos que abraçaram essa linha de raciocínio foi o jornalista/ativista britânico, e conhecido defensor do meio ambiente, George Monbiot. Após o desastre de Fukushima, Monbiot decidiu aceitar a energia nuclear como uma alternativa menos ruim para salvar o planeta da destruição causada pelos combustíveis fósseis, após se convencer de que os danos à saúde causados pela radiação são menores do que se pensava. Sua posição, no entanto, está longe de ser unânime, tendo provocado a ira de ativistas como a australiana Helen Caldicott, que há décadas luta para expor o que considera perigos da radiação. No embate que os dois travam nas páginas do jornal The Guardian, Caldicott diz que Monbiot distorce evidências sobre os riscos da energia atômica, enquanto o jornalista argumenta que abandonar essa opção resultaria em um desastroso agravamento do aquecimento global.

A empresa que opera o complexo de Fukushima prometeu controlar o vazamento radioativo até o final do ano, dias depois de o acidente ter sido elevado ao mesmo nível de gravidade do de Chernobyl. Se essa previsão de confirmar, é bem possível que o grau de preocupação com acidentes nucleares volte ao mesmo padrão anterior ao devastador terremoto japonês. A conscientização sobre os riscos para a humanidade do aquecimento global (desertificação de enormes áreas, inundações etc) pode manter viva a opção da energia nuclear. Mas o medo de um inimigo invisível, cujos rastros de danos podem durar por décadas ou gerações, deve garantir uma significativa oposição à opção radiativa. O ser humano não quer voltar aos tempos em que calor e proteção eram obtidos apenas por meio de peles de animais e tochas, e espera-se que mais prioridade seja dada às fontes renováveis e de menor prejuízo à natureza e à saúde da população. Mas a luta da humanidade em busca de energia continuará, e grande parte da sua produção seguirá, por um bom tempo, causando danos à vida na Terra. Continuaremos pagando um preço alto pelas conquistas da vida moderna.

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